Olhar o mar, apreciá-lo e… Fazer ou pensar?

Mar - pensar ou fazer

É uma pergunta que me assola muitas vezes. Nós somos o que fazemos, não o que pensamos. Mas se fazemos sem pensar, também não estaremos a ser demasiado vazios?

É complicado, isto de ser existencial. Viver para experimentar. Pensar para compreender. Tudo está agarrado a algo, como se vida fosse um ventríloquo. Os braços do pensamento dão voz à existência. E ela acontece fora do nosso alcance. Desprevenida, descontraída e impossível de prever. Como tem que ser.
Mas, depois, porra. Não basta ser. É preciso parecer. Fazer!

Mais do que ser, fazer. Porque o fazer é que nos faz ser. A prova disso? Pensei muito em mergulhar, mas só depois de mergulhar me senti livre. Molhado. Feliz. A viver.

O pensamento é um subterfúgio do não fazer. Pára. Estanca. Pensa. E, se pensas, não fazes. Portanto, fazer sem pensar não é o ideal. Mas é melhor que não fazer. Dá aprendizagem, crescimento. Faz pensar. E o bom do fazer é isso:

Permite pensar com conteúdo.

Portanto, mergulhei. E, depois, pensei: está fria. Se tivesse pensado antes, o frio já me estaria a alarmar antes de o sentir. E o que pensamos antes de sentir não é accionável. Não é controlável. É só dor.

E o frio depois do mergulho foi, afinal, o alívio do calor. Tão bom.

#MaisUmaViagemSemViajar

A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.

Às vezes não sentimos

Fernando Pessoa - 129 anos

Principalmente, quando escrevemos. As palavras tornam-se elementos estéticos, as sensações viram personagens e as dores e alegrias fazem-se histórias. Ou, então, não é nada disto e inspirei-me numa frase do grande (enormíssimo) Fernando Pessoa:

“O que confesso não têm importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações”.

O poeta faria hoje 129 anos, mas esta leitura não foi uma homenagem. Foi uma feliz coincidência: um livro há muito parado na secretária, uma vontade de ler empoeirada e uma tarde de sol, após uma manhã de chuva, em que saí mais cedo do trabalho. Mas isto é que é viajar, não é?

Deixar a vida tomar o leme das ocorrências, ajeitando somente as velas das nossas vontades. Não dominamos nada. Só sentimos. Menos quando escrevemos. Aí: “faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.”

Parabéns ao Poeta! E a mim, que fiz mais uma viagem sem viajar.

O blog de viagens sem viajar

Blog de viagens sem viagensEstou mesmo a pensar neste projeto. Adoro a ideia de conhecer novas culturas, locais e pessoas. Aquela sensação de ficar sem chão, por estar a pisar novos chãos. Por ser tudo novo. Assim, movido por essa sensação de conquista de novos mundos, estou a pensar muito nesta ideia de um blog de viagens. E vou operacionalizá-lo com 3 coisas:

1 – Vontade;
2 – Fotos do telemóvel;
3 – Textos;

Não falta nada, estão aqui os ingredientes todos. Menos as viagens, claro. Que é a minha maior dificuldade. Viajo pouco. Para o que quero, pelo menos. Portanto, vou fazê-lo com viagens do quotidiano. É esse o meu objetivo, aliás: viajar no quotidiano.

Começo por Ovar – ainda sem criar um blog. É uma cidade que me acolhe desde sempre e me cria. Momentos, histórias e vida. É verdade. É uma cidade que cria vida. Tenho aqui amigos, coisas de que não abdico e muitas coisas que já nem vejo, que são corriqueiras. Como esta Praça das Galinhas, que, por estes dias, me fez sentir inveja.

Vi uma espanhola a partilhar nas redes sociais uma foto da cidade, da praça, e invejei-lhe a forma como olhava a cidade: ladrilhada de azulejos e pura na sua beleza rústica. Pensei: foda-se, isto para ela é muito mais bonito. E, então, hoje combinei com um amigo beber um fino nela, ao fim do dia de trabalho. Viajei.

Pelas histórias dele, pelas minhas e pela cidade. Foi bonito. Tão bonito que até comecei um blog de viagens. Obrigado, Ovar.

Ser posto em causa

Ser Posto em Causa

Há anos que procuro aprender a ver. Tenho os olhos baços, demasiado baços, pela necessidade constante de fazer a vida acontecer. Tenho receio que ela acabe, não me sinto preparado para vê-la partir, portanto debruço-me sempre sobre ela de forma exagerada.

Para uns, serei louco, normal, ou coitadito; para mim, serei sempre algo que não tem explicação. Quanto mais tento compreender-me, mais me perco. E essa procura de me tentar compreender é que me embacia o olhar. Preciso de pessoas que me coloquem em causa. É estranho, mas preciso. Não gosto de ser bajulado, gosto de ser reconhecido. Aquece-me a alma a sensação de que não recebi um elogio: conquistei um gabo.

Sou sofredor, ao contrário do que os olhos alheios conseguem ver. Importo-me pouco com o que dizem, faço muito do que me apetece, mas entrego-me sempre a sentenças que raramente têm juiz. Aliás, têm, mas é o mais parcial possível: eu mesmo.

Sou feliz com tudo o que tenho, mas insatisfeito com o tanto que me falta ter. E o que me falta ter? São perguntas sem resposta, como esta, que me fazem viajar vezes sem conta por pensamentos confusos. Olho, acasos, a forma como me miram e penso: gostava de ser o que vêem em mim. Mas não sou, nunca serei e jamais o ambiciono ser. Não quero narcisismos, por muito que em casos eles sejam precisos. Quero situações, vidas, oportunidades, pessoas, que me ponham em causa. Eu gosto de estar em causa. Uma lágrima sabe-me tão bem como um sorriso, sendo sincera. Choro com dores alheias, pensando em dores minhas; sorrio com vitórias de outros, pensando em objectivos meus. E gosto de ser assim: sonhador e confuso.

No dia em que eu me decidir na totalidade, estarei o mais próximo possível de tudo o que não desejo ser. Mais um. É isso que eu não quero ser: mais um. Mas não aos olhos dos outros, aos meus. Preciso de sentir medo para me desafiar. Se não sentir medo, estou a pisar terreno onde já calquei uvas. E isso não quero. Quero ser posto em causa, quero conquistar de novo, mesmo que nunca tenha conquistado antes. Quero ser coisas. E coisas é o que me descreve. É vago, mas amplo. E o caminho para mim ter que ser amplo, desconhecido, mas medido e sentido. Eu quero sentir a vida. E os olhos dos outros, apenas ditam o que quero ver com os meus. Preciso ser posto em causa, apenas porque eu me quero pôr em causa. Agora, amanhã e sempre. Não é saudável, eu sei, mas é desafiante. E a vida não é para ser saudável, é para ser arriscada. Se fosse para ser saudável, não morreríamos no fim. Quero ser posto em causa. Por mim, pela vida que desejo e pelo que sonho levar dela.

Viajar em mim

Viajar em mim

Os caminhos a abrirem-se no oceano. Consegues ouvir-me? Estou a sussurrar-te.

Aquela areia que se move entre os dedos dos teus pés, aquele mar em que perfuras como uma cascata, aquelas pessoas que olhas e admiras, o barco que pousas no imenso do olhar. Atira-te! Estás a ouvir-me? Continuo a sussurrar-te, como um passo de chinelo num tapete de sala.

Não tenhas medo, a viagem é longa, o caminho é sinuoso, as intempéries passam e a proa é tua. Vai ao teu leme. Mergulha, atira-te do convés ao rumo do mar. Sente o teu corpo a furar como uma flor que nasce da terra, ao inverso. Nota o fresco a molhar-te o peito, a arrepiar-te a pele, a desfazer-te os nós do pensamento. Sentes a pele a enrugar? Mergulha de novo e estende-te ao sol. As dúvidas estão dissipar-se no ar, são nuvens daquele florente que te queima a pele, que te desliza pelo corpo e se incendeia no mar. Já viste a paisagem que pintou? Mergulha, pega no leme.

Não tentes entender tudo o que te digo, não tentes entender tudo o que dizem. Viaja. Viajar não é fazer as malas, é imaginar e sentir. Ir.

Quero crescer muito

Terminei a minha parte do livro, escrevi os textos, revi em conjunto e enviei. Agora, que ainda nem sei a vossa opinião, ou da editora, já anseio por mais. Necessito de escrever, sou completo e feliz no blogue, bem como nos sítios para onde escrevo, todavia preciso sempre de mais.

É angustiante a sensação de insatisfação, o voltar a rotinas que por mais repletas e alegres que sejam, depois de umas férias, me parecem sempre tão pouco. Apetecia-me meter em milhares de projectos, criar coisas novas, coisas que ainda nem na minha cabeça existem. Apetece-me que, cada dia, seja o dia. Venho com ritmos acelerados, com freios desengonçados e pouco funcionais, só o pedal da aceleração funciona, depois de umas férias, que foram das melhores da minha vida, só quero mais e mais. Apetecia-me virar este mundo do avesso, subjuga-lo a uma dinâmica que as palavras ainda não podem redigir. Inventar, talvez, uma palavra que descrevesse essa instância de agitação, essa perseverança do novo.

O pior disto, depois de visitar locais paradisíacos na sua pureza natural, urbes agitadas e galanteadoras, é a pacatez de uma rotina. Viajar é um vício, entranha-se nas vísceras, levanta troféus de desejo. É um enriquecimento pessoal no seu estado mais puro, é um ganhar de inspiração no seu modo mais prazenteiro. Não fico triste depois das férias, fico é angustiado com a sensação que quero e posso mais.

Nestes intervalos de escrita apareceu-me mais uns rabiscos, mais uns rascunhos de projecto para fazer, no campo profissional, não no pessoal, não do da escrita, que certamente me irá hipnotizar, fazer-me levitar momentaneamente deste entorpecimento de genialidade.

O meu quintal é o mundo e é nele que quero viajar. Seja um quintal maior ou mais pequeno, é nele que quero passear, viajar e crescer. Quero crescer muito.

 

PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais detalhes sobre o livro que lançarei, lá para meados de Novembro, basta clicarem neste sublinhado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)