A morte dá respostas à vida. Viaja!

A morte dá respostas à vida

(photo: @mickeyoneil)

Pessoas próximas, que não conhecemos tão bem assim, fogem-nos. Desaparecem num infinito que gostamos de imaginar como mar, o céu ou a terra. Mas não conhecemos. Sabemos apenas que é infinito.

Essa noção de distância inalcançável assusta-nos, tira-nos o chão forte para ser pisado e coloca-nos à procura de respostas, da costa. Não para a partida de quem foi, mas para o significado da nossa permanência. Misturamos o medo, o desespero e a esperança. É estranho, mas é assim. A esperança nasce, quase sempre, da ausência limite de esperança ou explicação.

A vida é curta.

É assim que elas nos aparece quando a ausência de sentido para as partidas assoma. Fugimos do medo, gradualmente, para nos aproximarmos da vida. Por isso, que, a partida de alguém tão próximo e jovem, seja sempre a abertura para algo novo. Uma nova nau que parte para a turbulência que é vida, mesmo quando o mar está calmo.

Porque, assim, a morte responde à vida – ou a vida dá resposta à morte. E essa é – e deve ser – a nossa homenagem para todos os que vão, mesmo os mais jovens. Um dia encontramo-nos todos. Na festa do costume.

Ontem punha-me um gosto num texto a brincar. Hoje não está entre nós. Descansa em paz, Paiva! E um abraço a todos os grandes amigos, família e meros conhecidos como eu, que se emocionam com estas coisas. A vida é curta e o descanso é eterno. No meio está o que podemos aproveitar. A viagem.

 

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Amar o futuro é um erro

Amar o futuro é um erro

Amar o futuro é um erro. Acelera-nos o processo e deixa-nos infelizes. Inseguros.

Amar o futuro e planear o futuro são coisas diferentes. Sensações diferentes. É o medo que nos move, quando a nossa adoração, o nosso fruto de paixão, está no amanhã. Nunca nos retribui. Porque quando o abraçamos já é passado.

Traímos o presente.

O presente que, em pleno altar da maternidade, nos disse “acompanhar-te-ei até ao teu último segundo”, passa a ser segundo plano da nossa vida. Deixamos de o amar. Passamos a olhá-lo como um chato, como um incompleto, que só nos fala e aparece para aborrecer. Queremos é o futuro, aquelas curvas incertas do desconhecido, aquele gemido do oculto. E ficamos sozinhos. Porque o futuro nunca cá está.

Amar o presente é planear com ele o futuro. Dizer-lhe: eu quero lá estar. Mas contigo. Sempre contigo. Quero que sejas o meu dia, a minha noite e o meu tudo. O futuro é só o outro, mas que nunca será o principal.

Queres vir comigo ver os barcos, presente? É uma viagem sem viajar.

Ser Diferente Não É Fixe

Ser Diferente Não é FixeSer igual a si próprio é que é.

Cada vez mais, movidos pelas constantes mutações que a sociedade nos impõe, procuramos ser únicos, diferentes. Um achado no meio de um aglomerado.
Contudo, esquecemo-nos do básico:

Sermos únicos não é uma escolha. É um facto.

Todos somos unos, por mais amestrados à sociedade que sejamos. Podemos fazer como a comunidade nos pede, ou obriga, mas jamais sentiremos como toda a comunidade nos pede. Isso faz-nos únicos. Sempre fará.

As modas, que variam do vestir ao sentir, passando pelo comer, fazem-nos reféns da sociedade. Todavia, ao contrário do que cremos na labuta mais actual de sermos díspares, como um diamante no meio de um areal, ou uma batata num arroz de polvo, não são elas que nos definem. Somos nós. Na nossa forma de sentir.

No velho exemplo dos dois rapazes que caem no passeio e um, usando-se da situação, conquista a rapariga que está do outro lado da estrada, enquanto o outro foge, está a prova de tudo isto:

O acontecer é igual, o sentir é diferente.

Nenhum deles é distinto da colectividade em que nos inserimos, só é único na forma de sentir. E, por consequência, de fazer. O sentir vence sempre o fazer. Porque mostra-nos sem querermos, como um copo de vidro vazio a espelhar-nos para o vizinho de mesa.

Por isso, numa das minhas últimas viagens, em que viajei mesmo, não hesitei em ser igual à manada. Fotografei e comi. Postei e saboreei. Escolhi o típico e partilhei.

Isto foi não ser diferente. Porque não me apetecia ser diferente. Gosto de ser igual, quando é igual que me apetece ser.

Ou seja – e em suma:
fui diferente ao ser igual. E foi fixe.

A minha viagem aos Açores

A minha viagem aos Açores

Apetece-me sentar neste muro. Olhar o infinito, no infindo espaço entre a  minha memória e o presente que vivo.

A felicidade, como o Saramago dizia, é egoísta, é um espaço só nosso onde cabem as nossas boas memórias e as nossas alegrias constantes, a harmonia, a que também ele definia, é onde cabe tudo em paz. E neste espaço, neste arquipélago que tive o prazer de conhecer e fotografar, conheci essa paz. O bucolismo dos locais é-me desconfortável, transporta-me a lugares da minha memória que não gosto de percorrer, a escombros de pérfidos momentos, mas é aí que encontro a paz que me potencia a harmonia. Não sou harmonioso a correr, não tenho harmonia na voz, contudo encontro a paz nas palavras. Nas que escrevo e nas que penso.

Os locais inabitáveis, escondidos do nosso quotidiano, são todos os que mais me disparam. Nunca me imagino a viver neles, nunca me imaginarei a viver neles, e quase sempre tenho momentos em que me sinto desconfortável neles. Porém, é nesse desconforto, em que a vontade se confronta com o incontrolável, que encontro o espaço onde desenho a luz dos  meus dias. A minha luz é desenhada, não é escrita. É desenhada pelas minhas vontades, construída pelos meus desejos e consolidada pelas minhas acções. Escrevê-la seria só sonhá-la.

Mas eu também gosto de sonhá-la, atenção. E, por isso, é que não gosto de me imaginar a viver nestes locais bucólicos, cheios de naturezas tão vivas que nos assombram os dias. Eu preciso de movimento, de me ausentar dos meus pensamentos, para criar os meus dias. Se penso, páro. E escrevo. Só escrevo parado, agarrado nos meus pensamentos e a viajar nas minhas ideias. E viver não é só isso, é mais, é luz, é acção, é desenhar e não escrever. Gosto de escrever, gostarei a vida toda, mas só porque ela – a escrita – me rouba dos meus dias, para me levar aos meus pensamentos. Aos tais que tento evitar. É confortável evitá-los, mas é indispensável visitá-los, para crescer, para melhorar, para voltar a sonhar.

Eu escrevo para voltar a sonhar. E visitei os Açores para nunca deixar de sonhar.

É um local onde se viajam ideias, onde se pensam momentos e onde se criam futuros. Futuros de amizade, futuros de amor, mas, acima de tudo, futuros de nós mesmos. Os Açores agarra-nos pelos pés na sua lava, queima-nos por dentro e faz-nos caminhar. E eu quero caminhar sempre, andar para frente, pisar, pé ante pé, a rocha vulcânica da minha vida. Os Açores deram-me isso.

Toda a minha vida terei vontade de voltar a visitar os Açores, os Alpes, ou qualquer outro dos sítios que me levou a locais tão incríveis como a natureza, mas jamais quererei viver num deles. Desiludir-me-iam. Não sou capaz de viver a pensar, preciso de fazer. A minha consciência pesa mais que a beleza dos locais. Mas a beleza das pessoas está nisso: na diferença. Tantos são os que lá vivem e são felizes. E eu, sem os conseguir invejar, consigo admirá-los como só um fã de ocasião o poderá fazer. Os Açores, os Alpes, as Serras ou os Interiores, nunca me desiludirão, mas também nunca me preencherão. E a certeza disso é que me faz visitá-los.

Um casal normal

Um casal normal

Deitaram-se como um casal normal: ele para a esquerda e ela para a direita. Deram um beijinho de boa-noite, disseram que se amavam e partiram para os seus sonhos.

A Dulce não se desligava da matéria que tinha para remediar no dia a seguir, toda presa às frivolidades de umas colegas de trabalho que não lhe faziam a vida fácil. O Nuno, por sua vez, pensava naquela imagem de uma mulher de costas com uma planície à frente. Não se sentia atraído por ela, pois nem a vira, mas não tirava a imagem daquela mulher da cabeça. Era tudo o que ele desejava: uma imensidão. Aquela imensidão, que parece vazia para os vazios e repleta para os repletos, significava tudo o que ele queria. O mundo.

– Oh Dulce, olha lá.

– Diz.

– Esquece.

A Dulce mergulhou novamente nas suas apoquentações: o Gustavinho que estava mal na escola; o marido que lhe dava para aquelas coisas de deixar as frases a meio; a Leonor e a Rosabela que eram da pior rés que ela conhecia. Já sabia que vinha mais um dia daqueles e era quase meia-noite e ela sem dormir. E o Nuno a fazer um barulho que não se aguentava a respirar. Ela sempre a avisá-lo para deixar de fumar e ele sem ligar nenhuma. Quem lhe dera que ele, ao menos, a convidasse para uma viagem. Mas nada.

– Oh Dulce…

– Se é para me mandares calar a seguir ou para dizeres que não é nada, mais vale nem continuares.

– Está bem.

E o Nuno lá ficou a viajar naquela imagem da mulher, de costas, com a planície pela frente. Pensou como seria bom pegar na sua Dulce e fugir uns dias, mas não disse. Ela iria resmungar ou apontar uma série de problemas. Ele estava acabrunhado pela vida na fábrica e preso pelas contingências do dia-a-dia, mas ela era capaz de ter razão. O dinheiro iria fazer falta para outras coisas e o Gustavinho não se andava a portar nada bem. Era melhor calar-se e adormecer, que já era quase meia-noite.

Ao outro dia acordaram, e continuavam a ser um casal normal. Ela estava a pôr a mesa e ele a fazer as torradas. Falaram de como o tempo estava esquisito.

– Agasalha-te, filho, que hoje está para chuva – disse a Dulce.

– É verdade, Gustavo. Faz o que a tua mãe disse – corroborou o Nuno.

Arrancou cada um para o seu lado e deixaram os bilhetes de avião no pensamento. Conheciam-se bem.

Coisas por fazer

lareiraCom o tempo deslembrado da alegria do sol, penso no tanto que há por fazer. A lareira crepita no fundo dos pés, acesa, a aquecer e aconchegar. É bom o sedentarismo de um porto seguro, mas o mundo acontece lá fora e um dia foi-se. Desaparecemos nas cinzas da lareira que fornalha fumo quente. Ficamos pó e a circunferência da terra continua a girar.

Não conquistei nada, ainda, porque continuo, então, tão parado? Não cheguei a lado nenhum, pequena foi a viagem que fiz. Preciso de movimento.

Coisas

Rombos que nos furam, perpetuam latejos de dor e surpresa. Partidas são sempre partidas, não há fuga à despedida, à imagem translúcida de uma volta que não se sabe se acontece, mas adivinha-se que não.
A vida é mesmo uma puta, como dizia o Miguel Esteves Cardoso. Por muito que seja linda, como também ele dizia. É linda a puta da vida. Mas para ser linda e puta tem que embrulhar tantas coisas, tantas sensações. É um adeus e um olá.