Verdades Políticas

Verdades Políticas

Vou terminar a semana a dizer assim: vamos deixar à política o que é da política e à vida o que é da vida.

Passamos a vida a politizar tudo porque, por crença, queremos – desejamos tanto! – que os outros acreditem naquilo que nós acreditamos. Parece-nos tão óbvio! E isso é legítimo e bonito, mas estamos a esquecer uma coisa: somos hipervigilantes! Compramos um carro vermelho e todos os carros vermelhos nos aparecem na rua. Mas não deixemos que isso nos inflame a vida. Se fossemos todos de direita, hoje estaríamos todos a trabalhar ou a procurar trabalho; se fossemos todos de esquerda, hoje estaríamos todos a trabalhar ou a procurar trabalho. A política já fez o mundo e o mundo está feito por ela. Mas isso não nos deve inibir de gostarmos do que gostamos, ou de não aprovarmos o que não aprovamos. A nossa verdade é a nossa verdade e a verdade dos outros é a verdade dos outros. Limá-la é bonito, mostra cedência, intelectualidade e até honestidade, mas tentar mudar a dos só mostra desrespeito, arrogância e receio das nossas convicções.

A espingarda do nosso argumento é a credibilização da nossa ideia, não a descredibilização da outra. E isso não deve influenciar o eu gostar ou não duma pessoa de direita ou de esquerda, duma ideia de direita ou de esquerda.

A verdade, por mais maçadora que se torne, estará quase sempre ao meio. Ali entre o que é certo para uns e errado para outros. O resto são só as convicções próprias.

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Rosto da Verdade

Joguinhos de sedução, enredos de conquista, palavras de proveito, criam o emaranhado de folias da vida estouvada, da dita curtição.

A loucura do sistema bem bebido, a dislexia dos movimentos, a turve da visão, o esconderijo das luzes baixas, os movimentos libidinosos dos corpos, as músicas de batida assertiva, a multiplicação dos copos de whisky, a soma dos de gin, vão fazendo o furor dos egos. O elogio, a palavra aprazível, torna-se a nota dominante de cada abordagem, das fugacidades de uma noite que se prolonga até o sol raiar. Vivemos anestesiados pela doce sensação de conquista, pelo acréscimo de auto-estima que a dormência de uma noite agitada em nós provoca.

Os dias são divididos pelo pagamento das horas que o corpo fica a dever à cama, pelas mensagens, via sms e facebook, que vão dando um prolongamento à loucura noctívaga, as fotos mais tarde irão asseverar que não temos a lembrança minuciada de cada pormenor que fez o furor daqueles badalados ensejos, os comentários ofensivos serão as brincadeiras a que nos vemos obrigados a aceitar. São os nossos loucos anos.

Repentinamente, com o sol a iluminar o nosso dia, com a clareza dos pensamentos lavados: um rosto de traços delicados; um cabelo longo entrelaçado entre si; um sorriso com um brilho difícil de descrever; um olhar enternecedor, pacífico; umas palavras de timbre doce, deleitoso; uma mulher incrível.

O nosso mundo está abalado, o amor entranha-se em cada pensamento, em cada movimento ou gesto de uma banalidade até ali desconhecida, os anseios de imprudência ganham contornos de indiferença, a determinação de viver a loucura da vida metamorficamente vira-se para um único ser, para um único olhar, cabelo, sorriso e rosto… rosto da verdade! Não é um rosto que emana a sua beleza de um desejo de descompromisso, é um rosto que nos espelha, um rosto puro e de contornos reais, sem imaginação bêbeda.

As cicatrizes de um coração trancado, de pessoas de índole mais dúbia, não nos deixam ver além de palavras, de desconfianças. O hábito dos elogios prazenteiros, não nos deixa perceber as falas de aviso, de demonstração de trilho de futuro. Existem mágoas de um dia termos magoado e termos sido magoados, existem receios de não ser o momento, existem resquícios de uma certeza forte: sozinhos é que é o nosso caminho.

Afinal onde estão os elogios?

Eles agora não surgem no momento exacto, não os podemos adivinhar. No momento que os ansiamos chegam as palavras mais duras, as advertências necessárias, no momento que não os aguardamos eles atacam-nos com a força que nos derruba as pernas, que nos faz o coração saltitar, que nos provoca um sufoco da respiração e um frio ameno que se propaga de extremidade a extremidade.

Este rosto, não é o que entra em joguinhos, o que se deixa entorpecer pelos desvairos de uma vida amontoada de diversão, é o rosto do amor, o rosto que não nos diz as coisas na hora que as esperamos ouvir, diz na hora que as merecemos ouvir… é o rosto da verdade!

E se as sms voltassem a ser pagas?

Aqui estou a tentar responder a mais um desafio que me foi lançado. Diga-se de passagem que já comecei a escrever e ainda não sei bem para onde estas linhas seguirão. Falha-me um guião de texto, um rumo para onde levá-lo. Dedo após dedo, tecla após tecla, pensamento após pensamento, espero levar o texto a bom porto.

Piii-piii, piiii-piii (poucas linhas e já me estou a desculpar por esta onomatopeia ridícula). Assim tocou o meu Nokia 3310, azul e de imagens estáticas. Ou terá sido o meu 3330, cinzento e de imagens em movimento? Agora fiquei confuso.

Ui, preciso de um testamento para responder a esta sms. Caramba, isto já passou para duas mensagens e eu não posso ficar sem dinheiro que a minha mãe, ou o meu pai, só carregam no fim do mês. Deixa lá reler isto.

Olha os ‘paras’ passam para ‘pa’, nem é tarde nem é cedo, os ‘contigo’ já vão para ‘ctg’, ainda não chega, não há ‘mesmos’, vai tudo para ‘mm’, não me parece que vá falar no ‘pessoal’, só se for no ‘ppl’. Ainda não chega? Ok, também não há ‘beijinhos’ para ninguém, vai um ‘bj’, já nem falo de ‘abraços’ que isso é logo um ‘ab’.

Conseguem imaginar-se, hoje, a fazer isto? A voltarmos a pontapear o português para nos conseguirmos fazer entender em apenas uma sms? Que trabalheira, não? Pois, mas se as sms voltassem a ser pagas, com a conjuntura que nos ‘conjunta’ a todos, não haveria muita  escolha. Repare-se que eu pondo a hipótese de as sms voltarem a ser pagas, dou como dado adquirido que com as chamadas se passasse o mesmo. Isto seria um boom nas comunicações, depois das guerras mundiais entre pessoas, da guerra mundial que se inicia online, viria mais uma.

Hoje, existe uma dependência comunicacional. Qualquer passo que damos ou qualquer coisa que vemos sentimos uma necessidade de o partilhar. Às vezes tweetamos, outras postamos, mas a maioria delas enviamos uma sms.

“Maaannn… comé? Tá ganda sol aqui na beach! Buts para cá.”

Piii-piii, piiii-piii

“Puto, vai meter nojo a outro! Já sabes que estou a trabalhar! Manda ai um hug á malta!”

Tinha-me esquecido de uma coisa, melhoramos no que toca às abreviaturas, mas agora há a moda dos estrangeirismos. Olha que moderno que eu sou a dizer palavras inglesas! (Eu também gosto de os dizer… dá ‘ambiance’)

Piii-piii, piiii-piii

“És um cortes, bro! Anda só um kicks e depois voltas a estudar.”

Piii-piii, piiii-piii

“Nem penses, ma friend! Mas tkhs pelo convite. “

Piii-piii, piiii-piii

“Abraço, joe!”

Se as sms fossem pagas, duvido que existisse o convite. “Quem está, está! Quem não está que estivesse!”. No entanto, mesmo que assim não fosse, apenas existiam duas hipóteses:

– “ Opa ele foi um bacano mas estou a estudar, não vai dar. Não vou gastar guito a dizer que não vou.”

– “Thks bro mas não vai dar”.

E este é o ponto final, não haveria mais resposta do outro lado.

A forma como hoje comunicamos, o fácil acesso a companhia, até nos momentos solitários, seria muito limitado. Somos dependentes da comunicação, da verbalização (melhor ou pior) do que estamos a fazer. Vivemos a era da verdade. Poucos escondem o que fazem, quem conhecem, etc. Toda gente se expõe, não há segredos.

Por tudo isto é que considero que o fim das sms gratuitas, com as nets gratuitas e as chamadas a seguirem igual caminho, levaria a uma alteração drástica da cultura liberalista que agora temos. Seria o fim da era da verdade.

Não me acredito que isso vá acontecer. Elas não são gratuitas, são é bem geridas.