Porto, melhor destino europeu, outra vez!

Porto

Queres francesinha? Não, hoje vou nas tripas. Depois digiro-as a caminhar da Baixa à Ribeira, com um socalcozito pelos Aliados. Olha que também tens os mercados, estão renovados. Bem sei, mas não há pernas que aguentem, um passeiozinho de cada vez, que a cidade é para ser aproveitada aos pedaços, a saborear. E depois? Depois, é um café de digestão, sentado à beira rio, para regressar cá acima, que não estou para desperdiçar uma noite de Galerias. De uma ponta à outra, com desvio pelo túnel de Ceuta, festa é o que não vai faltar. E a Alfândega? Ai, que diabo, lá estás tu. Tudo de uma vez é perder pedaços. Aos poucos, confia. Eu confio, mas e os outros? Também confiam. Como sabes? Não se esqueceram da Foz. Como assim? Pensaram na Foz, nos Clérigos, na Sé, na Baixa, nos Aliados, em São Bento e na Batalha, na Ribeira e nos mercados, entre tantas outras ruelas e coisas mais, e fizeram do Porto, outra vez, o melhor destino europeu. Outra vez? Sim, ganhou hoje e tinha ganho em 2012. Carago, então é a valer. É mesmo. É como tem que ser, como o Porto merece.

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Manuel – penso que era assim que se chamava

Diz quem o conhecia que nunca tirava a sua boina. Levantava-a um pouco, até meio, para coçar a cabeça já careca, mas tirar não.

Todos os dias saia da sua já velha casa, gasta pela erosão do tempo, com uma fachada tipicamente invicta, do Porto. Passos curtos e lentos marcavam a cadência da sua caminhada, do túnel de Ceuta até São Bento. Os ligeiros solavancos da sua bengala marcavam os seus descansos. Manuel – penso que era assim que se chamava.

Chegado a São Bento dirigia-se aos bancos verdes que contemplam as linhas do comboio, olhava os enormes placares que marcam as horas de cada ligação ferroviária e ali se deixava ficar. Durante horas viajava pelas pessoas que afoitas de compromissos se intrometiam, a cada comboio amarelo.

Em cada passo imaginava uma direcção, um rumo de vida. Em cada olhar supunha um pensamento. Em cada beijo idealizava uma história. Em cada mão dada lembrava-se de um poema de amor. Em cada grupo de amigos ia até à sua mocidade. Em cada telefonema concebia um rosto, do outro lado. Em cada correria sentia as mazelas do seu corpo, a força dos anos. Em cada traje académico via um dos seus filhos. Em cada intervalo, entre horas de confusão, fumava mais um cigarro.

Um dia, dois, três, a sua ausência foi notada.

– Onde estará o Sr. Manuel? É assim que ele se chama, não é?

Os funcionários de uma enorme estação notaram a sua falta, a sua pequena família não.