Ser Diferente Não É Fixe

Ser Diferente Não é FixeSer igual a si próprio é que é.

Cada vez mais, movidos pelas constantes mutações que a sociedade nos impõe, procuramos ser únicos, diferentes. Um achado no meio de um aglomerado.
Contudo, esquecemo-nos do básico:

Sermos únicos não é uma escolha. É um facto.

Todos somos unos, por mais amestrados à sociedade que sejamos. Podemos fazer como a comunidade nos pede, ou obriga, mas jamais sentiremos como toda a comunidade nos pede. Isso faz-nos únicos. Sempre fará.

As modas, que variam do vestir ao sentir, passando pelo comer, fazem-nos reféns da sociedade. Todavia, ao contrário do que cremos na labuta mais actual de sermos díspares, como um diamante no meio de um areal, ou uma batata num arroz de polvo, não são elas que nos definem. Somos nós. Na nossa forma de sentir.

No velho exemplo dos dois rapazes que caem no passeio e um, usando-se da situação, conquista a rapariga que está do outro lado da estrada, enquanto o outro foge, está a prova de tudo isto:

O acontecer é igual, o sentir é diferente.

Nenhum deles é distinto da colectividade em que nos inserimos, só é único na forma de sentir. E, por consequência, de fazer. O sentir vence sempre o fazer. Porque mostra-nos sem querermos, como um copo de vidro vazio a espelhar-nos para o vizinho de mesa.

Por isso, numa das minhas últimas viagens, em que viajei mesmo, não hesitei em ser igual à manada. Fotografei e comi. Postei e saboreei. Escolhi o típico e partilhei.

Isto foi não ser diferente. Porque não me apetecia ser diferente. Gosto de ser igual, quando é igual que me apetece ser.

Ou seja – e em suma:
fui diferente ao ser igual. E foi fixe.

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Não se metia com ninguém

Não se metia com ninguém

É tão difícil ignorarmos os outros, deixarmos prevalecer a nossa vontade sobre a deles, que nos deixamos enredar numa teia de sensações confusas, que nos baralham o que somos, para percebermos o que os outros são.

Os outros, esses, serão sempre os outros, porém vivemos numa sociedade que nos diz que não podemos esquecer a bondade, a atenção ao que sentem e são, mas que não nos permite desvendar o que, verdadeiramente, isso quer dizer. Dêem-me a mão e eu darei a mão de volta, se assim for. Não é a contrariarmos naturezas próprias que nos tornamos melhor pessoas, só recalcamos o que em nós existe. Queimamos as folhas das nossas desavenças com a vida e criamos as nossas próprias revoltas, que nos alimentam vontade doidas, porque não temos a capacidade de abri-las ao mundo. O juízo de valor é mais assustador que a prisão. As coisas parecem mal e, portanto, não podem ser ditas. Alimentam-se no silêncio, como pequenas  pragas  de formigas em torno de boiões de açúcar, para um dia explodirmos. Somos expostos ao erro, mas não assumimos o erro. Se dissermos que falhámos, seremos sempre os que falhámos, mesmo que nos digam que não tem mal. Temos uma sociedade avessa à sinceridade. Prefere a hipocrisia, porque ela milita nos quartos, nos vazios de cada um, para que não tenhamos que lidar com elas. Receamos que as nossas verdades, aliás, as verdades dos outros sejam demasiado próximas às nossas. Não podemos ser iguais a um assassino, não podemos ter nada de similar a um deles, porque eles são duma raça que não tem espécie, não tem feitio, muito menos modos. Só tem escabrosas sensações.

Porém, muitas vezes, não é assim. O assassino e o Papa já passaram por situações semelhantes, antes de se tornarem as pessoas que são, apenas  lidaram com elas – e canalizaram-nas – de forma distinta. Ir ao psicólogo é de louco, ter a coragem de dizer que não quer ajudar é de insensível, dizer que não pode amar outra mulher é de psicopata, ter dificuldade de lidar com a rejeição é de coitadinho e nada disso é aceitável. Depois, surgem à tona, como latas perdidas no fundo do mar, as dúvidas de cada um que se tornam revoltas generalizadas, com suicídios ou assassínios. E  nada disto era expectável, porque era um rapaz pacato, que ia à escola, fazia a vidinha dele e não se metia com ninguém. Mas o não meter com ninguém é que é o errado. E as pessoas esquecem-se, porque a unanimidade é a dormência. O erro não cabe, a diferença não cabe, a perfeição é que é o caminho. Mas quando a perfeição não existe, porque nunca existirá, está o caldo entornado. O suicida ou o assassino já estão criados lá dentro. No dentro que ninguém vê, porque ele não se metia com ninguém.

A procura da palavra certa

palavra certa, comunicação, convivência, interacção, sociedade, amor, importânciaNão tem que ver com o escrever ou deixar de escrever, enleia-se é com a existência, com a necessidade absoluta de nos comunicarmos, levando mensagens pelo éter da presença.

Labutamos pelo jornadeio da vida, pelo corredor da passagem, por palavras certas, que nos acalentem de pessoas que nos afagam o ego e nos mantêm despertos do trépido dos anos cinzentos. Carecemos das pessoas, conforme carecemos do ar que respiramos. Evitamos a poluição dos ares, do mesmo jeito que nos afastamos das pessoas que nos contaminam o passeio pelo mundo.

A palavra certa é relativa, depende do ouvinte, do receptor. Não é fácil saber exactamente o que dizer, quando não sabemos precisamente o que desejam ouvir. Necessitamos fazer escolhas, umas mais fáceis, outras mais complexas, mas sempre na procura de sermos gostados, de sermos bem recebidos. Amo-te é belo, por vezes curto. Dizer um simples amo-te nem sempre chega, por muito que seja vestido de verdade, de sentimento confluente com a outra pessoa. Dizer amo-te todos os dias, torna-se uníssono, não desemboca em alterações de apetites. O amo-te necessita disfarçar-se, não na sua essência de sentimento, mais na sua palpitação de palavra. A palavra amo-te pode ser transmutada para um ramo de flores, onde vai ser dita a mesma verdade sem as mesmas palavras.

A palavra certa nem sempre é uma palavra. Pensa-se na mensagem, ajusta-se o canal. Amar é fundamental, saber dizê-lo é crucial.

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Vida gorda

Vivemos uma diáspora, sem nos apercebermos. Movemos grandes fatias de quem somos, para o que nos envolve solicita. A mudança é forçada e não atesta falta de personalidade, é somente consequência do que queremos ser. Do caminho que pretendemos fazer.

Isolados somos pó, caímos na fundura da noite e deixamos de ver estrelas. Só escuro; só espaço ermo e frio. Não se alcança felicidade assim – sozinhos. Felicidade é partilhada, de outra forma torna-se angústia. Eu já me angustiei por estar feliz, por querer sorrir e soltar palavras parvas, que atestassem esse estado de espírito, e dei por mim sozinho, sem poder enviar aquele fio-condutor de ardência e espasmo. Espasmo de alegria, de rosto colado atrás.

Por vezes sou uma pessoa que quero ser, que roça o escorreito dos meus sonhos, no entanto vem alguém que me envolve, que me abraça na vida social e eu desajusto-me, fico desarranjado, dessa perfeição que tanto me afeiçoa. Fico triste, mas ao mesmo tempo a minha consciência dá estalidos, faz-me sinais de alerta. Só eras perfeito porque estavas sozinho, porque não falavas, porque estavas a sonhar. – Dizia-me ela, amiga de todas as horas. E eu sorri. É óbvio que ela tem razão, quando nada nos envolve sentimos que podemos ser tudo o que queremos ser. Não há fortes, nem fracos, há sonhadores e os de menos fronteiras levam a coroa, o troféu. Depois, porém, vem toda a gente que também tem sonhos, que também idealiza a sua perfeição e tudo se complica. Existem ferros que não dobram, nem fundem, não é fácil lidar com eles. Ganham um uso muito específico, muito limitador. Eu cá prefiro o pvc mais maleável, deixo o ferro para a estrutura rígida da minha casa.

Mas como, oh se como. Já trinquei ferro, engoli pvc, petisquei alumínio, só porque quero ter uma vida gorda. Alimentar a minha esfera social e engordar de vivências. De quem sou. Gorda, é assim que quero a minha vida.

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Despojo de vícios

Acordei com o calor na tenda, de tão abafado que estava. Os lábios espelhavam a secura de uma noite, regada a alegria, os olhos a ausência do sono. Estava um traste, um despojo de vícios.

Virei-me e procurei o telemóvel, entre a confusão da roupa espalhada pelo chão da tenda, não o encontrava. Encontrei, finalmente. Assim que o vi e revi, procurei o meu maço amarrotado, pela violência de uma noite de copos. Lá estava ele, desfeito, com um cigarro para contar a história. E o isqueiro? Falta-me sempre alguma coisa. Ah, estava no bolso das calças amarfanhadas, cobertas pela t-shirt manchada. A água está ali, logo ao lado, pronta para ser bebida, com uma ânsia superior aos whiskys – de ontem.

Lá estava eu, de olhos ramelados, com a cabeça de fora da tenda, a ser queimado pelo sol e a esfumaçar um cigarro, conquanto pensava que sem café ia ser difícil começar dia. Em que me tornei? Não houve coca, nem LSD, a sociedade vê-me com olhos de concordáveis, não me rejeita. São vícios que se coadunam com uma vida em comunidade, são aceites. Aliás, em volta, estavam todos na mesa situação.

Como se delineia a fronteira do vício para o divertimento? Não sei, para ser sincero. Contudo, sei que nos tempos de hoje o vício do álcool diminui, perdeu-se pelos fins-de-semana e noites académicas. Jantares em casa são irrigados a água, com a namorada a coca-cola e à semana bebe-se águas das pedras. E as drogas? Essas, todas são. Umas são é aceites.

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Tecnologias

Acho giro estar a escrever para vocês, a pensar em vocês, numa hora que nem imaginam se irão ler este texto. Fico logo magnetizado por estes pensamentos. Um pouco parolos, eu sei.

Escrever é um prazer indescritível, como creio que vocês começam a perceber. Não, obrigatoriamente, pela qualidade do escrevo, refiro-me mais à quantidade em que escrevo. Por agora, nunca me farto de criar, de escrever. Posso até confessar que nos dias de menor inspiração, são os dias em que mais escrevo, em que mais procuro produzir. Obrigo-me a chegar a um nível aceitável, aos meus olhos. Nem sempre consigo, claro, porém penso que isso é o maior instigador para mantermos o prazer no que fazemos. A sensação que falta sempre algo é o liquidificador do nosso desejo.

Hoje que não poderei andar pelo computador, tampouco pela net, graças às tecnologias, deixei ,desde ontem, este texto disponível para vocês. Acho isto delicioso. Sinto-me mesmo pequenino, que como já vos disse adoro. Venero tudo o que me remeta para o meu sítio, que me faça sentir o quão insignificante eu sou. Poderá, porventura, vos parecer ridículo dizê-lo, até senti-lo, mas acreditem que é dessa pequenez que vou buscar armas para gozar os prazeres da vida. Mais ainda neste caso, que posso usar, a minha pequenez, em proveito próprio. Sou um fã das tecnologias.

Bem sei a inconstância das opiniões, em relação a estas evoluções tecnológicas, no entanto para mim é muito mais solúvel a certeza das vantagens que elas trazem, do que a mesquinhice das desvantagens. Normalmente adopto uma postura, tenuemente, defensiva e pouco rígida nas opiniões que teço, contudo neste caso não consigo fazê-lo.  A informação aparece a rodos e sem triagem? Certo, mas é preferível ter muito e ter que seleccionar ou ter pouca e condicionada? Parece-me óbvia a resposta. Demasiado tempo ao computador? Acredito que também aconteça, mas será isso um problema da tecnologia ou social? Propagador de más influências? Então e não é, de igual forma, de boas? Neste caso, o problema não é a internet, é claramente a personalidade – em falta.

Peço desculpa, por este afinco em defesa das tecnologias. Estou em êxtase, por mesmo estando longe, poder estar, agora, aqui com vocês.