20 anos de mensagens

sms, mensagem, telemóvel, telemóveisAqui está, 3 de Dezembro, uma data que se perpetuará, a cada tilinte de uma qualquer sms por esse mundo fora. Neil Papworth, é o nome do homem que fogachou este incêndio de moda.

Um britânico, miúdo à altura, que dava toques com soltura na programação, e que começou uma insânia sem precedentes. Reformulou e reconfigurou todo o conceito de comunicar. Abreviar passou a ser ordem, pelos limites que os telemóveis impunham; mais à frente, manteve-se a tendência pelo custo que suportava o avançar para a segunda mensagem. Todavia, hoje que a comunicação é uma barragem de comportas abertas, ainda se mantém essa propensão. Foi-se o limite, ficou a preguiça. É mais rápido.

De qualquer forma, eu sou apologista de tudo o que potencia comunicação. De tudo o que faz pessoas falarem entre si, seja com a força de um olhar, ou com a ligeireza de um bater de teclas. Falar, comunicar, é sempre mais valioso que a solidão. Fale-se frente a frente, ou com o intervalo de um oceano. Interessa é comunicar. Seja na base da fundura de dilaceres românticos, ou na prontidão de um café daí a minutos, combinado com uma imprevisibilidade impossível ao tempo dos telefones fixos à mesinha de canto, das salas dos anos oitenta e inícios de noventas. Já nem me sei situar bem, o tempo anda, basicamente, à mesma velocidade que uma sms se entrega no destino. É um tirinho, como se diz na gíria do dia após dia.

Olhem, estive para vos escrever este texto no telemóvel, contudo aprouve-me o computador, com a saliência de poiso numa mesa. Foi mais cómodo, mas fosse de qual fosse, a tecnologia estaria a estalar como as pipocas artesanais dos filmes de domingo. Viva às sms e à tecnologia, que o mundo move-se é para a frente. Um dia, poderei dizer aos meus filhos que nasci antes das mensagens. O que pensarão eles disso? Possivelmente que sou do tempo da pedra, como eu penso dos meus que nasceram e ainda não havia televisão.

ADQUIRA AQUI O MEU LIVRO: REALIDADES

Ou contacte-me pelo ricardoalopes.lopes@gmail.com, para mais informações de compra ou encomenda.

Rosto da Verdade

Joguinhos de sedução, enredos de conquista, palavras de proveito, criam o emaranhado de folias da vida estouvada, da dita curtição.

A loucura do sistema bem bebido, a dislexia dos movimentos, a turve da visão, o esconderijo das luzes baixas, os movimentos libidinosos dos corpos, as músicas de batida assertiva, a multiplicação dos copos de whisky, a soma dos de gin, vão fazendo o furor dos egos. O elogio, a palavra aprazível, torna-se a nota dominante de cada abordagem, das fugacidades de uma noite que se prolonga até o sol raiar. Vivemos anestesiados pela doce sensação de conquista, pelo acréscimo de auto-estima que a dormência de uma noite agitada em nós provoca.

Os dias são divididos pelo pagamento das horas que o corpo fica a dever à cama, pelas mensagens, via sms e facebook, que vão dando um prolongamento à loucura noctívaga, as fotos mais tarde irão asseverar que não temos a lembrança minuciada de cada pormenor que fez o furor daqueles badalados ensejos, os comentários ofensivos serão as brincadeiras a que nos vemos obrigados a aceitar. São os nossos loucos anos.

Repentinamente, com o sol a iluminar o nosso dia, com a clareza dos pensamentos lavados: um rosto de traços delicados; um cabelo longo entrelaçado entre si; um sorriso com um brilho difícil de descrever; um olhar enternecedor, pacífico; umas palavras de timbre doce, deleitoso; uma mulher incrível.

O nosso mundo está abalado, o amor entranha-se em cada pensamento, em cada movimento ou gesto de uma banalidade até ali desconhecida, os anseios de imprudência ganham contornos de indiferença, a determinação de viver a loucura da vida metamorficamente vira-se para um único ser, para um único olhar, cabelo, sorriso e rosto… rosto da verdade! Não é um rosto que emana a sua beleza de um desejo de descompromisso, é um rosto que nos espelha, um rosto puro e de contornos reais, sem imaginação bêbeda.

As cicatrizes de um coração trancado, de pessoas de índole mais dúbia, não nos deixam ver além de palavras, de desconfianças. O hábito dos elogios prazenteiros, não nos deixa perceber as falas de aviso, de demonstração de trilho de futuro. Existem mágoas de um dia termos magoado e termos sido magoados, existem receios de não ser o momento, existem resquícios de uma certeza forte: sozinhos é que é o nosso caminho.

Afinal onde estão os elogios?

Eles agora não surgem no momento exacto, não os podemos adivinhar. No momento que os ansiamos chegam as palavras mais duras, as advertências necessárias, no momento que não os aguardamos eles atacam-nos com a força que nos derruba as pernas, que nos faz o coração saltitar, que nos provoca um sufoco da respiração e um frio ameno que se propaga de extremidade a extremidade.

Este rosto, não é o que entra em joguinhos, o que se deixa entorpecer pelos desvairos de uma vida amontoada de diversão, é o rosto do amor, o rosto que não nos diz as coisas na hora que as esperamos ouvir, diz na hora que as merecemos ouvir… é o rosto da verdade!

E se as sms voltassem a ser pagas?

Aqui estou a tentar responder a mais um desafio que me foi lançado. Diga-se de passagem que já comecei a escrever e ainda não sei bem para onde estas linhas seguirão. Falha-me um guião de texto, um rumo para onde levá-lo. Dedo após dedo, tecla após tecla, pensamento após pensamento, espero levar o texto a bom porto.

Piii-piii, piiii-piii (poucas linhas e já me estou a desculpar por esta onomatopeia ridícula). Assim tocou o meu Nokia 3310, azul e de imagens estáticas. Ou terá sido o meu 3330, cinzento e de imagens em movimento? Agora fiquei confuso.

Ui, preciso de um testamento para responder a esta sms. Caramba, isto já passou para duas mensagens e eu não posso ficar sem dinheiro que a minha mãe, ou o meu pai, só carregam no fim do mês. Deixa lá reler isto.

Olha os ‘paras’ passam para ‘pa’, nem é tarde nem é cedo, os ‘contigo’ já vão para ‘ctg’, ainda não chega, não há ‘mesmos’, vai tudo para ‘mm’, não me parece que vá falar no ‘pessoal’, só se for no ‘ppl’. Ainda não chega? Ok, também não há ‘beijinhos’ para ninguém, vai um ‘bj’, já nem falo de ‘abraços’ que isso é logo um ‘ab’.

Conseguem imaginar-se, hoje, a fazer isto? A voltarmos a pontapear o português para nos conseguirmos fazer entender em apenas uma sms? Que trabalheira, não? Pois, mas se as sms voltassem a ser pagas, com a conjuntura que nos ‘conjunta’ a todos, não haveria muita  escolha. Repare-se que eu pondo a hipótese de as sms voltarem a ser pagas, dou como dado adquirido que com as chamadas se passasse o mesmo. Isto seria um boom nas comunicações, depois das guerras mundiais entre pessoas, da guerra mundial que se inicia online, viria mais uma.

Hoje, existe uma dependência comunicacional. Qualquer passo que damos ou qualquer coisa que vemos sentimos uma necessidade de o partilhar. Às vezes tweetamos, outras postamos, mas a maioria delas enviamos uma sms.

“Maaannn… comé? Tá ganda sol aqui na beach! Buts para cá.”

Piii-piii, piiii-piii

“Puto, vai meter nojo a outro! Já sabes que estou a trabalhar! Manda ai um hug á malta!”

Tinha-me esquecido de uma coisa, melhoramos no que toca às abreviaturas, mas agora há a moda dos estrangeirismos. Olha que moderno que eu sou a dizer palavras inglesas! (Eu também gosto de os dizer… dá ‘ambiance’)

Piii-piii, piiii-piii

“És um cortes, bro! Anda só um kicks e depois voltas a estudar.”

Piii-piii, piiii-piii

“Nem penses, ma friend! Mas tkhs pelo convite. “

Piii-piii, piiii-piii

“Abraço, joe!”

Se as sms fossem pagas, duvido que existisse o convite. “Quem está, está! Quem não está que estivesse!”. No entanto, mesmo que assim não fosse, apenas existiam duas hipóteses:

– “ Opa ele foi um bacano mas estou a estudar, não vai dar. Não vou gastar guito a dizer que não vou.”

– “Thks bro mas não vai dar”.

E este é o ponto final, não haveria mais resposta do outro lado.

A forma como hoje comunicamos, o fácil acesso a companhia, até nos momentos solitários, seria muito limitado. Somos dependentes da comunicação, da verbalização (melhor ou pior) do que estamos a fazer. Vivemos a era da verdade. Poucos escondem o que fazem, quem conhecem, etc. Toda gente se expõe, não há segredos.

Por tudo isto é que considero que o fim das sms gratuitas, com as nets gratuitas e as chamadas a seguirem igual caminho, levaria a uma alteração drástica da cultura liberalista que agora temos. Seria o fim da era da verdade.

Não me acredito que isso vá acontecer. Elas não são gratuitas, são é bem geridas.