Às vezes não sentimos

Fernando Pessoa - 129 anos

Principalmente, quando escrevemos. As palavras tornam-se elementos estéticos, as sensações viram personagens e as dores e alegrias fazem-se histórias. Ou, então, não é nada disto e inspirei-me numa frase do grande (enormíssimo) Fernando Pessoa:

“O que confesso não têm importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações”.

O poeta faria hoje 129 anos, mas esta leitura não foi uma homenagem. Foi uma feliz coincidência: um livro há muito parado na secretária, uma vontade de ler empoeirada e uma tarde de sol, após uma manhã de chuva, em que saí mais cedo do trabalho. Mas isto é que é viajar, não é?

Deixar a vida tomar o leme das ocorrências, ajeitando somente as velas das nossas vontades. Não dominamos nada. Só sentimos. Menos quando escrevemos. Aí: “faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.”

Parabéns ao Poeta! E a mim, que fiz mais uma viagem sem viajar.

O Porto (fora) do Instagram

O Porto (fora) do InstagramO mal dos nosso dias é a força com que pensamos, ao invés de sentirmos. Paramos a olhar uma paisagem e pensamos no quotidiano, pensamos há quanto tempo não estávamos ali no nosso Passeio das Virtudes, ou a mirar o nosso Porto desde a Serra do Pilar. Mas não sentimos. Não notamos o ar a entrar-nos pela respiração, em vez de apenas sair.

Vivemos uma agitação contínua que é comandada pela necessidade de desempenhar papéis. Temos que ser bons homens e mulheres, temos que ser bons profissionais, excelentes pais e mães, ainda melhores conselheiros e não podemos ser demasiado macios, nem contemplativos, ou corremos o risco de ser engolidos pela fervorosa onda de intrépidos conquistadores do quotidiano. Sobreviver não é difícil, é só ter capacidade de adaptabilidade, um certo jogo de cintura no pensamento, para agora sermos vorazes profissionais e a seguir melancólicos confidentes. Mas, no fim, não vivemos, porque queremos corresponder apenas ao que esperam de nós, ou ao que achamos que esperam de nós. E paramo-nos nos momentos, mas apenas para fotografá-los. De que me vale ir ao Douro, aos socalcos do vinho mais dourado do mundo, se não o fotografar, se os outros não souberem que lá estive?

E aí perdem-se as histórias. O Porto é para ser visto, mas é muito mais para ser vivido. Experimente parar-se nele, olhá-lo, viajá-lo em sensações e terá muito mais para contar que num filtro de Instragam.

Ricardo Alves Lopes (Ral)
Ricardo Alves Lopes – Marketing & Comunicação
www.ricardoalopes.com — com Ricardo Alves Lopes.

Texto escrita para a página de Facebook da Gbliss – Follow your Bliss

A minha viagem aos Açores

A minha viagem aos Açores

Apetece-me sentar neste muro. Olhar o infinito, no infindo espaço entre a  minha memória e o presente que vivo.

A felicidade, como o Saramago dizia, é egoísta, é um espaço só nosso onde cabem as nossas boas memórias e as nossas alegrias constantes, a harmonia, a que também ele definia, é onde cabe tudo em paz. E neste espaço, neste arquipélago que tive o prazer de conhecer e fotografar, conheci essa paz. O bucolismo dos locais é-me desconfortável, transporta-me a lugares da minha memória que não gosto de percorrer, a escombros de pérfidos momentos, mas é aí que encontro a paz que me potencia a harmonia. Não sou harmonioso a correr, não tenho harmonia na voz, contudo encontro a paz nas palavras. Nas que escrevo e nas que penso.

Os locais inabitáveis, escondidos do nosso quotidiano, são todos os que mais me disparam. Nunca me imagino a viver neles, nunca me imaginarei a viver neles, e quase sempre tenho momentos em que me sinto desconfortável neles. Porém, é nesse desconforto, em que a vontade se confronta com o incontrolável, que encontro o espaço onde desenho a luz dos  meus dias. A minha luz é desenhada, não é escrita. É desenhada pelas minhas vontades, construída pelos meus desejos e consolidada pelas minhas acções. Escrevê-la seria só sonhá-la.

Mas eu também gosto de sonhá-la, atenção. E, por isso, é que não gosto de me imaginar a viver nestes locais bucólicos, cheios de naturezas tão vivas que nos assombram os dias. Eu preciso de movimento, de me ausentar dos meus pensamentos, para criar os meus dias. Se penso, páro. E escrevo. Só escrevo parado, agarrado nos meus pensamentos e a viajar nas minhas ideias. E viver não é só isso, é mais, é luz, é acção, é desenhar e não escrever. Gosto de escrever, gostarei a vida toda, mas só porque ela – a escrita – me rouba dos meus dias, para me levar aos meus pensamentos. Aos tais que tento evitar. É confortável evitá-los, mas é indispensável visitá-los, para crescer, para melhorar, para voltar a sonhar.

Eu escrevo para voltar a sonhar. E visitei os Açores para nunca deixar de sonhar.

É um local onde se viajam ideias, onde se pensam momentos e onde se criam futuros. Futuros de amizade, futuros de amor, mas, acima de tudo, futuros de nós mesmos. Os Açores agarra-nos pelos pés na sua lava, queima-nos por dentro e faz-nos caminhar. E eu quero caminhar sempre, andar para frente, pisar, pé ante pé, a rocha vulcânica da minha vida. Os Açores deram-me isso.

Toda a minha vida terei vontade de voltar a visitar os Açores, os Alpes, ou qualquer outro dos sítios que me levou a locais tão incríveis como a natureza, mas jamais quererei viver num deles. Desiludir-me-iam. Não sou capaz de viver a pensar, preciso de fazer. A minha consciência pesa mais que a beleza dos locais. Mas a beleza das pessoas está nisso: na diferença. Tantos são os que lá vivem e são felizes. E eu, sem os conseguir invejar, consigo admirá-los como só um fã de ocasião o poderá fazer. Os Açores, os Alpes, as Serras ou os Interiores, nunca me desiludirão, mas também nunca me preencherão. E a certeza disso é que me faz visitá-los.

Caminhar

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O mundo não se decide num sopro de iluminismo. Compreende-se na vivência, no arrojo e no erro. Erra e não te perdoes, melhora, cresce, faz acontecer. Desistir só é o caminho possível quando já não há caminho, rumo nem saída. Quando há negro escuro como o fim.

O fim só não é o começo quando acaba, mas só acaba quando é mesmo o fim. Todos os outros finais são o trilho de novos começos. Um novo eu, um novo rumo, um novo melhoramento, um mais conciso conhecimento. Eu conheço-me mal. Vivo comigo há vinte e seis anos e conheço mal, mas como quero viver comigo mais uns cinquenta, sessenta ou setenta anos não me parece mal. A morte é a desistência, não é o finar do corpo. E eu não desisto. Caminho.

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Névoa de sol que cobre a candura do dia, alumia a passagem da manhã como vontade acesa de ser além do que somos. Chávena na mesa, computador aberto na tela das folhas que nos fazem viajar, disfarçadas nas palavras da ficção que fazemos realidade nas horas em que desejamos ser mais do que somos. Escrever é um sonho real, comprimido pelas linhas de um parágrafo que pode ter fim ou não. Este tem.

E aqui começa outro, num dia que raiou no braço de luz, vindo do astro, que me compôs uma manhã mais acesa, mais vespertina, mais sonhadora.

Novos Amores

Sentir saudades é tão comum como amar. Sendo que amar é mais comum que sentir saudades.

Em todo o lado vejo corações esplêndidos, pendurados nos murais do facebook e a referir o amor com o mesmo pretensiosismo dos americanos. O I Love cabia nos hamburguers e nas relações, no desejo e paixão, nos sapatos e vestidos. Em Português, não. Amava-se o amor e gostava-se, quiçá adorava-se, as coisas corriqueiras. Agora, não. Amam-se os computadores novos, apaixonam-se pelos sapatos que estavam na montra e adoram-se os hamburguers do McDonalds.

– E dela, o que achas? Estás apaixonado, não estás?
– Não, gosto dela, sim, mas apaixonado só por mim.

Continuação de post:

Amar é olhar e ver reflectida uma tremura. Uma tremura que não se explica, que não se sente quando se procura, nem se encontra quando se sente. Amor é, eternamente, desconhecido, inenarrável, intraduzível.

Amor é silêncio.

E chiu. Que só sei viver em silêncio, silenciado pelo amor.

Ral

Amar de coração

coracao

Fogo que arde sem se ver são palavras gastas,
São termos que já viajaram em muitas pastas,
Que já foram leccionadas em escolas e externatos,
Em universidades e orfanatos.

Amor não é fogo e não é escondido,
É um sentimento que nunca pode ser aprendido.
Pode ser falado e exemplificado, descrito,
Mas, comummente, para ser desdito.

A tua verdade é a tua verdade,
Aqui, nisto do amor, não há equidade.
O Sparks é pungente nas garrafas a boiar,
Mas não quer dizer que saiba amar.

Não sei se sabe ou se não,
Pouco me importa para a minha rectidão,
Pois o que aqui vale, o que marca ordem,
É que para alguns há sempre o desdém.

Definições de amor
São como um texto de horror,
Como uma prisão,
Que nos tenta privar do uso da nossa paixão.

Não há amor igual, idêntico,
Usemos da nossa intuição,
Façamos dela a razão,
E logo veremos o que é amar de coração!

Ral
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