Não há razão sem contradição…

O maravilhoso, depois de tudo isto, jornalistas britânicos a equiparam a cidade do Porto ao terceiro mundo, indignações com a Pepsi e defesas à falta de sentido do humor dos portugueses, Blatter e não Blatter, Ronaldo melhor do mundo e Ronaldo arrogante, o que prevalece é que ninguém nos percebe.

Há a manada e a há a contra-manada, como se nenhuma fosse manada, como se os outros é que gostassem de se guiar sempre pelos mesmos barroquismos e nós não. Há os que se expressam melhor e os que se expressam pior, os que ofendem e os que não ofendem, mas, no final, há sempre o sentimento de dever cumprido. E, sabem que mais, isso é que vale! Que se dane a razão, que se dane o apoio popular e erudito, vale a pena é viver. E viver é isto, não haver razão nenhuma que não tenha contradição!

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Portugal a arder

mourinho, ronaldo, pepe, portugueses, confusãoHoje de manhã, no JN, vi uma notícia que anunciava que Mourinho acusava Ronaldo de pensar que sabia tudo e Pepe de ter estado praticamente fora do Real.

No interior, Mourinho referia que Ronaldo achava que sabia tudo, mas que fez três épocas fabulosas no tempo que ele estava lá. Enquanto Pepe, no entender dele, não era apreciado como o jogador fantástico que era, por isso lutou para que ele fosse mais respeitado, no entanto teve uma lesão prolongada e apareceu o Varane, doze anos mais jovem, e ele sentiu que era momento de fazer a transição. O Pepe não foi capaz de compreendê-lo e, logo, os que acusavam Pepe de ser um assassino, que eram os mesmos que o queriam de lá para fora, saíram em defesa dele, criticando o Mourinho. O que no entender do treinador é um reconhecimento do seu trabalho, pois os ódios devem ser puxados para o treinador, de maneira aos jogadores terem liberdade para fazerem o que sabem. E que, assim, o Pepe ficou numa posição confortável, novamente.

A notícia, por si, era interessante, não tinha como lhe resistir, mas o que me fez palpitar de imediato foi a sensação de que vinham por aí pérolas. Pérolas que entenda-se por comentários. Assim foi.

O Ronaldo, que aparece noticiado sempre em associação ao Messi, é julgado pela mesquinhice portuguesa, acusando-o de ser inferior ao Messi, de ser um convencido, que se devia preocupar era em jogar e não em falar, aparece agora a ser defendido pelos nomes que eu suponho sejam os mesmos. O Mourinho é um convencido que acha que só ele é que tem razão, o Mourinho é fraco porque com uma equipa daquelas devia ter ganho tudo, o Mourinho é isto e aquilo. Não vale nada. Porém, e não obstante, se for um dirigente espanhol, ou nomeadamente do Barça, a acusá-lo do que quer que seja, o Mourinho só foi vítima de um clube sem estrutura, de um grupo de espanhóis que se uniu no balneário e lhe fez a folha.

No final de tudo isto, tenho a dizer que Portugal é um país a arder. Podemos viver em crise, termos subsídios e direitos cortados, mas quando toca a avaliações de pessoas, Portugal será sempre um expositor de divertimento. Coerência é palavra que não nos aprouve. E eu gosto disso. É mais divertido!

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Sentes?

Aquele toque, aquela textura, aquele movimento de corpo, aquela agilidade, aquela força… aquele golaço do Ronaldo, carago!!

Grande Portugal. Tenho dito.

Estou orgulhoso, não do futebol, da entrega e do querer. Correram, suaram, defenderam e atacaram, abraçaram-se, caminharam unidos e festejaram juntos. Existe, sempre, o que se destaca, o que dá a machadada no marasmo, o incrível, mas isso não retira valor aos outros. Pelo contrário, aliás. Eu não sou treinador, dificilmente alguma vez serei, todavia sei que um dos segredos do sucesso é a capacidade de indicar a cada um o seu papel, sem o menosprezar. O Paulo Bento creio que está a conseguir. O Ronaldo está a ajudar, claro. É um portento, digam o que disserem, esperneiem o que espernearem. Há também o Coentrão, o Moutinho, o Pepe, o Meireles, os que vão entrando e os que não entraram, e todos os outros. Estão juntos, isso vale muito.

Tenho falado muito de futebol, não há como evitar, sou homem. Contudo, eu vejo naqueles rapazes além do futebol. Por muito que o Miguel Sousa Tavares me criticasse, se lesse este modesto espaço. Não, não são navegadores, nisso concordo. Vejo é neles um análogo do que deveríamos ser enquanto povo, ou quem sabe até somos. Unidos, estupidamente confiantes, arrogantes, quando assim temos que ser, e mágicos, bons. Existe, inevitavelmente, a fatia do bolo destinada à estupidez. Primeiro, porque somos mais felizes na parvoíce. Oh se somos. Depois, porque só essa inconsciência nos permite acreditar que podemos levar de vencidos os grandes. E levar mesmo. Como Portugal fez no Euro, como Portugal devia fazer na Europa – se é que me faço entender. Não somos tão bons como este Euro nos está a fazer acreditar, não obstante, não somos tão maus como acreditávamos antes deste Europeu. Vai tudo da parvoíce ou estupidez, que nos alimenta a confiança. No futebol e na vida.

Acho que se nota, hoje estou orgulhoso. Sentes? Que título mais estúpido para falar de futebol e analogias.

Portugal renasce da Polónia/Ucrânia

Agora que se aproxima a azáfama europeia, a alegria do futebol, chegam os verdes campos para a política nacional e internacional. Mesmo com os vários incidentes, das festas ou carros da selecção.

O futebol, com principal incidência nas grandes competições, tem a capacidade de despontar a adrenalina, muitas vezes morta, na vida das pessoas. Durante 90 minutos, talvez um dia ou dois em caso de vitória, não há desemprego, austeridade ou dificuldades que se cravem. A alegria de uma vitória, de uma conquista briosa para um pequenino país, faz esquecer tudo o que de pérfido se passe nele. Cachecóis bem altos, vozes bem afinadas, moedas bem alinhadas, cervejas bem servidas… venha de lá esse pontapé de saída!

Merkl é um nome que impõe respeito, mas o que são o Ozil e o Joachim Low, junto ao Cristiano Ronaldo e ao Paulo Bento? Puros saloios de um futebol frio, distante do mágico português. São uma das melhores selecções do mundo, contudo não assustam da mesma forma com que a sobranceria económica assusta. Valem pela sua solidez, pela sua organização, mas no futebol dispomos de um jogo de cintura que nos permite fintar a organização, com classe. Na economia? Agora é altura de Euro, nisso pensamos depois. Venha de lá mais uma rodada, que estamos empatados ao intervalo e ainda vamos ganhar isto.

Esta veemente esperança depositada numa bola, em 23 homens, nem todos nascidos no nosso país, não é exclusividade nossa. Duvidam da fiesta que será em Espanha? Dos sorrisos que lembrarão o Euro 2004 na Grécia? Em Espanha, por exemplo, na final do Mundial de 2010, o jogo teve um share de 85,9%, o que equivale a quase 15 milhões de pessoas no território, a assistir ao jogo. É certo que é um Mundial, que é uma final, mas o que define a audiência é a paixão, a procura incessante de uma vitória.

Enquanto todos vivemos essa intrepidez que o futebol desperta, outros engravatados, com finos tecidos de alta-costura, aproveitam as deixas da televisão, jornais e rádios para, docemente e de sorriso aprazível, desejarem a melhor sorte aos portugueses, que tanto nos orgulham e agora estão em terras de leste. Política? Por favor respeitem estes homens que levam as quinas ao peito, agora não é o momento.

Findado o euro e a participação portuguesa, terá aumentado o desemprego? Estarão os mercados mais abertos a nós? Terá a economia dado indicadores de crescimento? Calma, tenho até meio de Agosto para analisar isso, que estes jogos de pré-época na Suíça e Holanda não interessam.

Escárnios à parte, vamos todos apoiar a nossa selecção!