As coisas acontecem

Ria de Aveiro e Ovar

Depois de tantos textos pensados e repensados, aglutinadores de ideias ou divisores de opinião, hoje apetece-me navegar por mares diferentes, procurar uma calmaria que só se encontra na prosa declarada ao amor, na ligeireza de sentir e deixar de pensar.

Lembro-me bem de caminhadas e pequenas corridas que fiz pela Avenida da Régua, com as árvores a marcarem o compasso do sorriso e da actividade física, com o mar a pôr-se à frente e a cidade a esconder-se nas minhas costas. A passagem da rotunda, que para um lado dá o mar e para outro a Ria. A subida da avenida, o passeio junto da praia, o vento que resvala e o mar que fala. As pessoas que passam e a cidade que acontece.

A chuva a bater no Neptuno e o mercado a alvoraçar-se cedo, as pastelarias da cidade a principiarem o dia ainda na hora da modorra, as lojas de roupa e outras coisas mais a abrirem aos poucos, os escritórios a comporem-se, as fábricas a encherem-se, o dominó no Bagunça, o bilhar no Ideal, os registos no Reis, os cafés na Praça e os almoços no João Gomes.

A cidade a mover-se nas repartições públicas, os estudantes a furarem pela estação, a passarem em autocarros, a chegarem às escolas. Tudo a acontecer.
Os reformados a tratarem das suas coisas, a ajeitarem as casas, a procurarem as amigas e amigos para passarem mais um tempo, os pescadores a saltarem para o mar, os serralheiros a agarrarem-se nas madeiras, os miúdos a avançarem com os seus projectos, os bares a fazerem o rescaldo do fim-de-semana e a pensarem no próximo, os veraneantes a suplicarem o regresso do sol e os saudosistas a olharem o céu carregado, a chuva a bater no vidro e a soltarem uma lágrima. Melancolias.

A vida acontece enquanto o Inverno chega e as pessoas regressam à sua calmaria. Ovar acontece, a vida acontece e nós acontecemos. Este é o meu texto desta semana. Descritivo, puro e curto. Nem sempre tenho grandes coisas a dizer, esta semana era uma delas.

Ricardo Alves Lopes (Ral)

Texto redigido para o site noticioso Ovarnews. Link: http://www.ovarnews.pt/as-coisas-acontecem-ricardo-alves-lopes/

 

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Semana maldita

ovar, cidade, mar, riaQue semana maldita, esta que se vive em Ovar. Já começam a escassear as palavras. Não merecemos. Ninguém merece.

Mais uma notícia triste, para assolar uma cidade que é sempre tão pacata e apartada das confusões do mundo. Um dos motivos para quase todos os ovarenses não abandonarem a sua cidade é o pacifismo com que ela encara a existência, a forma doce como se deixa agitar nas ondas do vento. Não é parada, não é mexida. É tranquila.

Uns dias tristes, demasiados tristes, são o que têm sido. Porra, é o que dá vontade de dizer. Não merecemos, nós os ovarenses, os familiares e amigos. São coisas a mais.

Mais uma vez, palavras a todos os que continuam a sofrer com estas malvadezas.

Para encomenda de livros, sem portes: ricardoalopes.lopes@gmail.com

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O meu país nos domingos de inverno

O inverno cai sobre os dias, empola-se nas persianas a meio palmo, dilui-se pelas canejas ruidosas e afagantes, escorre pelos beirais e parapeitos e faz as nossas delícias. Aconchegados em cobertores e acarinhados em lençóis.

No Porto, os Aliados vêem a água a passear pela calçada de paralelo, a beijar os leões mais ao lado, a encher a Ribeira mais ao fundo. A deitar-se na areia da Foz. Em Aveiro os ovos amolecem mais ainda, se salpicados pelas lágrimas do céu. A ria ganha formas circulares a cada pingo que se embate contra ela, a Barra deixa a areia deslizar-se água adentro, ou o mar areia afora. Lisboa recebe os prantos de deus no Terreiro do Paço, empurra-os para o Marquês, no novo transitário da rotunda, vai ao Castelo para avistar a urbe e enxurrar-se até ao Tejo, até aos Descobrimentos, até ao Padrão. Lá mais para o sul, Portimão altiva a água dos dias de inverno na sua zona de rio, deixa-a gotejar até ao Forte, para depois beijar aquele areal da Rocha, para apanhar o atalho do mar até Vilamoura ou Albufeira. No Funchal ela escoa-se violenta, sem modos nem educação e cria dias tristes e perturbadores. Não se comporta e tem resultados feios. Nos Açores, da Graciosa à Terceira, do Pico ao Faial, todos vão sabendo viver com ela, com aquelas intempéries que assobiam sal do mar e lhes regam as furnas dos deuses.

Enquanto isso, no cantinho escondido de Ovar, eu recebo-vos dentro das linhas que escrevo, no aconchego do escuro que já invadiu feroz o meu quarto e que agora me vai levar a começar o dia. Um excelente domingo para todos!

PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais sobre o livro que lançarei, o ReALidades, basta clicarem neste destacado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)

Cronica de domingo – sem loucuras

Pela primeira vez faço uma continuação de post, revelo o depois.

Ontem, entre pensamentos amorfos e combinações, fui feliz. Sem loucuras, contudo. Sol, passeio junto à praia, mão dada, beijos, cumprimento de amigos, esplanada, café, basket, finos, marisco, ria, minis e velhas narrativas. Não houve uma dose de loucura, não houvo t-shirts a ser despidas, elevações para o balcão, danças descoordenadas na sua coordenação, histórias suficientemente fortes para marcar um vinco no tecido da memória, mas houve descontracção, boa-disposição, amizade e amor, poderia pedir mais? Eu não ambiciono pedir mais. Era sábado e eu fui feliz, hoje é domingo e o tempo está amorfo, eu não, eu ainda estou feliz com o dia de ontem.

Revelei-vos a minha melancolia, quem sabe tristeza, de ontem, que não tendo motivo aparente, tinha razão. Vocês não a podem perceber. Podem identificar o sentimento, a sensação, mas não podem conhecer a causa. O prazer de escrever para vocês está nisso mesmo: eu escrevo o que sinto, vocês sentem o que é vosso. É aprazível a sensação de contar um dos momentos mais felizes da minha vida e saber que vocês o transportarão para o dia mais feliz da vossa vida, que não tendo nada que ver ao nível de conteúdo com o meu, a associação à felicidade será o ponto comum, a ligação. Isto dá-me prazer. Não aquele prazer de êxtase, aquele de sorriso delicado e olhar brilhante.

Já vão 4 meses e qualquer coisa que vos demonstro um pouco mais de mim, não quem sou, isso não podem perceber em linhas escritas. Tenho ouvido coisas como: «nunca imaginei, Ral»; isto é ambíguo, ora me deixa feliz do reconhecimento, ora me deixa com a sensação que era mais um, mas é estranhamente atractivo. Faz-me sentir que posso ser o melhor de cada um de vocês. Falando de mim, estou a tornar-me um pouco de vocês. Oh bela escrita até onde me levas.

Bem, hoje é domingo, não tenho planos, mas estou feliz. Abraços e beijinhos.

Á espera do fotógrafo

Venho da área do marketing, não das letras, sei bem da importância que tem a imagem, a embalagem. É fundamental a forma como se posiciona, como comunica… como se vende! Sei também que não é uma máquina de milhares de pixéis, ou lente xpto, que faz milagres, mas pergunto-me: o que custa tentar?

Sei que o que conta é o curriculum: as notas que tirei; os cursos que frequentei; os anos de experiência que tenho na área; os estágios que fiz; os sítios para onde escrevo; a qualidade do que escrevo; mas também tem um cantinho para a foto. Bonito não sou, pelo menos que a foto tenha qualidade.

Estou á espera do fotógrafo, é meu primo. Espreitem o Olhoshot

Ligou-me agora, supostamente deveria ter ido buscá-lo. Em vez disso estou a escrever-vos, desta esplanada, sozinho!

Estou sentado nuns sofás acastanhados, com uma mesa de palha, protegida por um vidro que suporta o meu café, livro, cinzeiro, maço de cigarros e caderno – de onde vos escrevo. A chuva está a cair rectilínea na ria que me abrilhanta a paisagem. Cada gota que cai na, pouco cristalina, água cria uma circunferência perfeita. Pela minha solidão, paz, dá-me a sensação que cada uma dessas circunferências se cria durante minutos, com uma velocidade tranquilizante. Como se fosse uma das imagens em slow motion de um jogo de futebol.

Sinto-me estranhamente bem. Não por ir tirar fotos, que isso até me deixa um pouco incomodado, mas pela paz que este sítio, estes breves minutos, me estão a proporcionar.

O fotógrafo, o meu primo, deve estar a chegar. Aqui fica uma pequenina imagem do sítio onde estou.

Aveiro, Aveiro, as saudades que te guardo!

Tantas e tão boas vezes o meu dia desembarcou na, renovada, estação de Aveiro. A azáfama matinal, alhada nos olhos ramelados, nas correrias de quem segue atardado, na calmaria de quem não tem urgência de principiar o seu dia, na juventude dos estudantes, na responsabilidade dos engravatados, no comprometimento dos homens e mulheres de meia-idade. E em mim, que simplesmente acordava, como por magia, assim que o comboio abicava numa das linhas da estação. Seguia nas minhas meditações, reflexões, naquela breve caminhada até Esgueira. Para assim que chegava, sem excepção, dizer:

– Posso, professor? Desculpe o atraso! – Era uma leviandade que hoje não me posso dar ao luxo.

Diversas vezes a estação acolheu-me de forma diferente, de forma mais calorosa. Era final de tarde, esperavam-me os jantares de curso, os jantares de amigos ou simplesmente os jantares. Na vida académica esta palavra – jantares – possui uma magnificência apenas percebida por quem por lá passa. Mudava o rumo, era a Lourenço Peixinho, a afamada Lourenço Peixinho, que me acolhia, me aceitava de braços abertos. Hotel Imperial, Afonso V, ‘Caracol’, Aquário, eram o menos o relevante, interessava somente a companhia. Os amigos. Os que lá ficaram, que foram companhia unicamente naqueles 3 anos e meio, os que já trazia de uma juventude alimentada de amizades e os que criei. Os que criei para a vida. Foram eles que fizeram a minha apaixonada visão de Aveiro.

O velhinho ‘Club 8’, hoje NB, o famigerado ‘BE’, a Praça do Peixe, o Golfinho, o Galeão, o Café da Praça, o Santos, o Muralhas, o Convívio, o Ramona, o parque de estacionamento do estádio com a Recepção ou Enterro, entre outros, foram a personificação da sede de viver, típica da idade, da época da vida. A escolha da palavra sede não é aleatória.

A ria, a sublime ria, a reflectir de forma cristalina o meu olhar. A trazer de volta a mim os sonhos que eu libertava pelos meus olhos castanhos. Será que enquanto caminhava, paralelo a ela, estaria a construir as bases para o mundo se tornar meu? Ainda hoje não sei, mas ainda hoje sonho com isso. Ainda hoje acredito nisso.

Aveiro, sei que me recordo mais de ti do que tu alguma vez te recordarás de mim, mas foram 3 anos e meio que não esquecerei. Não esquecerei pelo teu brilho, pela tua classe, pela forma como emanas glamour, pela forma carinhosa como, dia após dia, acolhes e recebes tantos jovens, pelo jeito como alimentas os nossos sonhos, como lhes dás vida. Não te esquecerei a ti, nem aos que me apresentaste. Os amigos, os que ficam para a vida!

As saudade que te guardos, que acalmo a cada visita, são meramente a prova da nossa cumplicidade!