Qual destino?

Destino Douro

Quando não controlamos o rumo dos acontecimentos, o vento bate nas nossas convicções – como uma rajada que abana as velas vindo de estibordo – e obriga-nos a seguir outros rumos. Como desculpa, dizemos:

É o destino.

Quando as coisas se compõem, o cosmos une-se para nos acender uma luz no caminho e dizer: é por ali. Não hesitamos:

É mérito.

Mas a vida não é uma linha recta. Tem curvas, oscilações e marés. Como o Douro. Faz encostas e vales. No entanto, o segredo é sabermos que se olharmos só para uma encosta é uma montanha para subirmos. Se olharmos só para uma oscilação do terreno é uma barreira para o destino. Se olharmos só para as marés são um perigo. Mas se olharmos para a paisagem é uma das zonas mais belas do mundo.

O destino é uma farsa para o que não conseguimos controlar. Mas a maior lição dele é: quem conduz, se souber que o leme é para andar solto, apreciará muito mais a viagem. As oscilações são a viagem. O conjunto das montanhas, vales e marés são o destino. O que não guiamos, mas fazemos.

Leme solto e curvas a serem aproveitadas. Este é o segredo da maior viagem sem viajar que podemos fazer. A da vida.

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Portugal de Opiniões Generalizadas

Portugal de opiniões generalizadas

Custa-me muito que Portugal se esteja a tornar este país de opiniões generalizadas, cheias de éticas e brandos costumes, que não cabem na nossa vida, mas têm que caber no nosso mural de facebook. Eu gosto de ler clássicos da literatura, mas também gosto de dizer merda. Sou menos digno por isso?

A Control, uma marca de preservativos que, por natureza, apela ao sexo, mas protege das doenças e abranda a possibilidade de procriação, em idades menos sugeridas, mas em que já se mexe na sexualidade, fez uma activação de marca que metia bolas de pilates, talochadas no rabo alheio, mas de protecção posta – tudo com roupas vestidas e com um contador de traulitadas, para ver os mais ágeis na arte do coito, ou as mais lestas na experimentação da posição incomum para si – está, agora, a ser crucificada por não ter criatividade e por pôr a nu um país que não é o deles, em que não gostavam que os filhos (ou futuros filhos) vivessem.

Talvez preferissem uma palestra sobre as formas como não devemos fazer sexo, para não ir contra a epístola dos brandos costumes, do país onde se batia nas mulheres e onde se quer que elas satisfaçam os homens, mas sem demonstração pública de afecto ou desejo, porque isso está destinado às meninas da má vida. Gostar de homens e mulheres é feio. Aliás, não é, apenas não se pode dizer porque é uma pouca-vergonha e não devemos permitir isso nunca. Que se celebre a vida nas paredes do quarto, mas que sejamos sisudos no quotidiano onde a existência acontece e bacocamente diplomáticos e maldizentes nas redes-sociais. Se fizeram, está mal; se vão fazer, é que nem pensem; se não fizeram, é porque já se faz nos Estados Unidos ou na Alemanha – esses países de desavergonhados e ricos, mas onde nós não queríamos viver nem experimentar nada. Credo!

Em suma, é triste que a nossa boa-disposição tenha ido pela mesma caneja em que escorreu toda a riqueza que nunca tivemos. Podíamos salvar a salva de prata da alegria e a incomplexidade de só querermos ser felizes e estarmos de bem com a vida, mas não, que parece mal e não é fixe nas redes-sociais. Fixe é ser do contra e, se possível, que o contra seja fazer juízos de valor de toda gente, porque todos temos uma vizinha que é uma badalhoca, uma prima que emigrou e se meteu na má vida e um conhecido que é corrupto e mal-intencionado. No nosso quarto é que não se passa nada, porque só há a vida de um robot que não quer cometer erros no Facebook, nem sujeitar-se muito à opinião alheia. Mais vale a camisa fechada até ao pescoço e o perfil só para amigos, que assim controla-se a vidinha. E a vidinha é muito melhor que a vida!

À sombra da Palmeira

À sombra da Palmeira

«Nutrir o Planeta, Energia para a Vida» é o lema da Expo Milão 2015. Mas não pareceu relevante a Portugal estar nesta exposição, até porque nós somos bons é na indústria, fortes no avanços tecnológicos e revolucionários na ciência. Se fossemos bons na gastronomia e fossemos o país dos descobrimentos – que espalhou as especiarias indianas por África, ou brasileiras pela Índia – faria sentido lá estar. Mas como somos um país que não foi nada disso, mais vale não ir. Vendemo-nos exclusivamente com as praias, os eventos musicais e com as low-cost (que já muito nos trazem), porque o nosso target não são públicos mais velhos. Chamam-nos California da Europa porque são tontos, os que não percebem nada de crises e gestão de países. A marca Portugal não interessa nada, quando já ganhamos uns turistas à pala de companhias irlandesas que nos trazem pessoas sem nos chatearmos muito. E os New York Times desta vida até gostam de nós.

É por isto, amigos, que nunca iremos a lado nenhum. Temos boas notícias (o Turismo está a crescer), portanto, que se descanse na sombra da bananeira. Aliás, da palmeira, que as bananas podiam ser da Madeira.

Não é só futebol…

selecção de portugal

Escolho esta imagem, como poderia escolher outra. Sem cachecóis, sem relvado de futebol, porque o que hoje se disputa não é só um jogo de futebol, é um bocadinho mais do que isso.

Não formulo esta minha opinião com base numa pequena teoria, formulo-a apenas na certeza de que a minha mãe já falou deste jogo, e pelo menos duas vezes, mostrando alegria de sair a tempo do trabalho para ver. Isto é sinal de que é mais do que isso. Os jogadores calçarão as chuteiras, o relvado estará verde, as balizas aos topos norte e sul, as pessoas em toda a volta nas bancadas, Portugal a equipar de vermelho e a Alemanha de branco, mas os corações portugueses todos verdes, esperançosos.

Quando digo que não é só um jogo de futebol, digo que quando terminarem os noventa minutos, para o bem ou para o mal, não existirá pessoa que não esteja a comentar Portugal, perceba ou não de futebol. O que estará a provocar as discussões não serão os desenhos tácticos, os acertos ou erros, será o orgulho nas nossas cores.

Todos sabemos que não estendemos este orgulho, este fervor, a muito coisa para além do futebol, mas hoje não é dia de posts a criticar isso, como tantos intelectuais gostam de fazer, hoje é dia de elogiar isso. Se não apoiamos no resto, o erro não está no futebol, está no resto.

Agora, é olhar o computador, trabalhar o que falta, e às 17h, por entre as pilhas de documentos, pôr-me a olhar a televisão, para gritar: Portugal!

Não lhes vou pedir que vençam. Vou-lhes pedir que nos honrem, a vitória será a recompensa natural!

Força, Portugal!!

25 de Abril – A nossa liberdade

Revolução dos cravos - A nossa liberdade é o conhecimentoAmanhã festejam-se os 40 anos do 25 de Abril, numa Assembleia vetada ao povo descontente, em que os deputados da oposição são amordaçados pela maioria vigente dos PSD e pela abstenção do CDS. Mas isso não importa muito, porque a liberdade não se faz apenas na “casa do povo”, faz-se também nas ruas do povo, na vontade do povo expressar o que sente.

As dificuldades são inerentes à vida. Não à ditadura ou democracia, mas sim à vida. É óbvio que vivemos dias cinzentos, reflectidos num céu que teima em não se pintar de azul, contudo, não comparemos o imcomparável. Eu não vivi os anos anteriores ao 25 de Abril, mas sei que nunca os quereria viver.

Não podemos confundir a tecnocracia das políticas actuais, com a repressão de uma ditadura. Hoje, votamos mal e reclamamos passado pouco tempo, porque não temos onde votar bem. Há mais de 40 anos, não votavam, não reclamavam, não concordavam com tantas coisas.

O sentimento de impotência existirá sempre, em relação à política e em relação a tudo, tal como o desgosto, a descrença e a insatisfação. Não podemos é trincar os cravos e engoli-los. As demagogias são tão perigosas como o fascismo. Reclamemos, sim, pois as coisas não estão absolutamente justas, mas jamais viremos à extrema direita. Há a europa dos intelectuais a sucumbir, não sejamos iguais.

Existiu quem batalhasse pela liberdade, tivesse ou não interesses inerentes a isso, não deixemos, portanto, de fruir as vantagens de escrever, falar e ser inteligente. O Fascismo emburrece e disso ainda padece parte do país. A liberdade vem do conhecimento. E é isso que não podemos permitir que nos seja vetado. Que se matem no parlamento fechado, que nos cortem na cultura e no ensino, mas que passemos aos nossos filhos a liberdade do saber. Internet, livros, tertúlias, tudo são ferramentas de conhecimento e, consequentemente, liberdade.

Só valeria a pena “um Salazar por freguesia”, para quem ainda não descobriu o que é a liberdade. Eu descobri ao meu modo e luto por ela. Com ou sem capitães de Abril na Assembleia, lutarei pelo meu conhecimento!

Governo da mania

O erro maior deste governo não é errar, que errar todos os outros erraram. É a superioridade a que se subjugam, sim, subjugam foi o que quis dizer. O poder maior do governo impinge essa superioridade tecnocrática, que leva os restantes a reboque, para não raras vezes os criticar de seguida. “Quando Roma fala, está decidido”.

Na entrega do prémio Associação Portuguesa de Escritores a Alexandra Lucas Coelho fez um discurso memorável, que está disponível no jornal Público online ou na sua página do facebook, o que eu não sabia foi o que ela revelou hoje. O Secretário de Estado da Cultura, o vaidoso Barreto, estava na cerimónia e perante o discurso dela recusou-se a subir ao púlpito, falou da sua cadeira, para a avisar a escritora que deveria agradecer de estarmos em democracia e ela pode dizer aquilo, reforçou que os portugueses se endividaram mais do que podiam, que não mandaram ninguém daqui para fora e que ela devia algo ao governo, sim, porque eles financiavam parte daquele prémio – que já leva longos anos de existência e sobrevive graças a patrocínios.

No final, insatisfeito com a sua mesquinhez e após ter sido apupado, dirigiu-se à escritora e jornalista, já sem a cobertura da plateia, para a acusar de ser primária.
E é isto. Angola transporta-se para Portugal. Fazem o que querem, mas devemos agradecer estar em democracia, porque podermos criticar, sem nada mudar, já é um grande privilégio.

A política não se faz pelos bens pessoais, faz-se pelas pessoas. No dia que em Portugal se descobrir isso, seremos dos maiores. Se, mesmo assim, conseguimos vencer, imaginem se tivéssemos políticos cientes do que é a política. Portugal orgulha-me, alguns portugueses é que não!

Um estado inteligente…

Acho extraordinária a inteligência dos nossos governantes. A Alemanha, boa samaritana que é, está novamente a recrutar em Portugal. Em parceria com o nosso estado, note-se. Ou seja, ajudam a sermos empobrecidos e, depois, cientes das áreas em que os alemães não querem trabalhar, chegam a Portugal, como aliados, a levar mão de obra boa, qualificada e, essencialmente, barata! Não há ninguém, para os lados de Belém, que veja isto?!!!