A infância é uma farsa

Infância POrtoPrepara-nos para uma vida que não existe.

Ainda em miúdo, preparava os alicerces da minha vida adulta com um certo adubo de malandragem, a plantar sorrisos em todas as casas de família, ou de amigos dos meus pais, onde passava. Todos me diziam que sim, me acenavam com primaveras no rosto e verões no entusiasmo. Homens e mulheres.

Hoje em dia, já depois de adulto, para colher um sorriso mais rasgado, uma plantação de benevolências, não raras vezes temos que compor sonetos, sermos melhores do que somos e mentirmos. Falarmos da infância sem nos lembrarmos.

As recordações de infância são uma falsidade, não existem. Conforme defendia o Miguel Torga, a infância, para ser infância, tem que ser ingénua. E a ingenuidade não tem consciência. Portanto, hoje, o que referimos como recordações de infância são projecções da pessoa que somos, na criança que um dia fomos.

Mentimos. A infância não tem corpo. É um falsidade.

Projectamos nela o que queremos hoje. Por exemplo, para mim, em criança, ir ao Porto, onde hoje andei de manhã, era sinal que eu era um fixe. Que os meus pais eram uns fixes. Tiravam-me da pequena e humilde cidade que é Ovar, para me levarem ao Porto, que passa – e passava – nos telejornais, onde as pessoas são grandes e até as televisões estão. Era fixe. Era um refúgio.

E isto é a prova que as recordações de infância são uma falsidade. A palavra refúgio surge-me na memória por ilusão óptica. Porque olho para as cidades grandes, hoje, e vejo refúgios. Sou oculto. Sou desconhecido. Sou neutro.

Posso perder-me e sentir-me refugiado. E esse é o segredo das viagens sem viajar: partir sem saber o que encontrar. Romper com a infância lembrada e criar uma nova. Esta é a infância que eu quero. A de agora. A de antes é uma farsa.

O Porto (fora) do Instagram

O Porto (fora) do InstagramO mal dos nosso dias é a força com que pensamos, ao invés de sentirmos. Paramos a olhar uma paisagem e pensamos no quotidiano, pensamos há quanto tempo não estávamos ali no nosso Passeio das Virtudes, ou a mirar o nosso Porto desde a Serra do Pilar. Mas não sentimos. Não notamos o ar a entrar-nos pela respiração, em vez de apenas sair.

Vivemos uma agitação contínua que é comandada pela necessidade de desempenhar papéis. Temos que ser bons homens e mulheres, temos que ser bons profissionais, excelentes pais e mães, ainda melhores conselheiros e não podemos ser demasiado macios, nem contemplativos, ou corremos o risco de ser engolidos pela fervorosa onda de intrépidos conquistadores do quotidiano. Sobreviver não é difícil, é só ter capacidade de adaptabilidade, um certo jogo de cintura no pensamento, para agora sermos vorazes profissionais e a seguir melancólicos confidentes. Mas, no fim, não vivemos, porque queremos corresponder apenas ao que esperam de nós, ou ao que achamos que esperam de nós. E paramo-nos nos momentos, mas apenas para fotografá-los. De que me vale ir ao Douro, aos socalcos do vinho mais dourado do mundo, se não o fotografar, se os outros não souberem que lá estive?

E aí perdem-se as histórias. O Porto é para ser visto, mas é muito mais para ser vivido. Experimente parar-se nele, olhá-lo, viajá-lo em sensações e terá muito mais para contar que num filtro de Instragam.

Ricardo Alves Lopes (Ral)
Ricardo Alves Lopes – Marketing & Comunicação
www.ricardoalopes.com — com Ricardo Alves Lopes.

Texto escrita para a página de Facebook da Gbliss – Follow your Bliss

Porto, melhor destino europeu, outra vez!

Porto

Queres francesinha? Não, hoje vou nas tripas. Depois digiro-as a caminhar da Baixa à Ribeira, com um socalcozito pelos Aliados. Olha que também tens os mercados, estão renovados. Bem sei, mas não há pernas que aguentem, um passeiozinho de cada vez, que a cidade é para ser aproveitada aos pedaços, a saborear. E depois? Depois, é um café de digestão, sentado à beira rio, para regressar cá acima, que não estou para desperdiçar uma noite de Galerias. De uma ponta à outra, com desvio pelo túnel de Ceuta, festa é o que não vai faltar. E a Alfândega? Ai, que diabo, lá estás tu. Tudo de uma vez é perder pedaços. Aos poucos, confia. Eu confio, mas e os outros? Também confiam. Como sabes? Não se esqueceram da Foz. Como assim? Pensaram na Foz, nos Clérigos, na Sé, na Baixa, nos Aliados, em São Bento e na Batalha, na Ribeira e nos mercados, entre tantas outras ruelas e coisas mais, e fizeram do Porto, outra vez, o melhor destino europeu. Outra vez? Sim, ganhou hoje e tinha ganho em 2012. Carago, então é a valer. É mesmo. É como tem que ser, como o Porto merece.

Não há razão sem contradição…

O maravilhoso, depois de tudo isto, jornalistas britânicos a equiparam a cidade do Porto ao terceiro mundo, indignações com a Pepsi e defesas à falta de sentido do humor dos portugueses, Blatter e não Blatter, Ronaldo melhor do mundo e Ronaldo arrogante, o que prevalece é que ninguém nos percebe.

Há a manada e a há a contra-manada, como se nenhuma fosse manada, como se os outros é que gostassem de se guiar sempre pelos mesmos barroquismos e nós não. Há os que se expressam melhor e os que se expressam pior, os que ofendem e os que não ofendem, mas, no final, há sempre o sentimento de dever cumprido. E, sabem que mais, isso é que vale! Que se dane a razão, que se dane o apoio popular e erudito, vale a pena é viver. E viver é isto, não haver razão nenhuma que não tenha contradição!