Às vezes não sentimos

Fernando Pessoa - 129 anos

Principalmente, quando escrevemos. As palavras tornam-se elementos estéticos, as sensações viram personagens e as dores e alegrias fazem-se histórias. Ou, então, não é nada disto e inspirei-me numa frase do grande (enormíssimo) Fernando Pessoa:

“O que confesso não têm importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações”.

O poeta faria hoje 129 anos, mas esta leitura não foi uma homenagem. Foi uma feliz coincidência: um livro há muito parado na secretária, uma vontade de ler empoeirada e uma tarde de sol, após uma manhã de chuva, em que saí mais cedo do trabalho. Mas isto é que é viajar, não é?

Deixar a vida tomar o leme das ocorrências, ajeitando somente as velas das nossas vontades. Não dominamos nada. Só sentimos. Menos quando escrevemos. Aí: “faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.”

Parabéns ao Poeta! E a mim, que fiz mais uma viagem sem viajar.

Pedaços

Pedaços

Sou assim. Por vezes, pego numa peça de paisagem, que fotografo, e lanço-me aos pensamentos como se deles pudesse tirar a lucidez. Viajo nas linhas da imagem, como se elas não fossem o molde da minha fotografia, mas a imagem do que eu quero ser. E eu quero ser o que não sou. Toda a minha vida quis ser o que não sou.

Isso assusta, assusta muito, porque hoje quero ser o Alberto Caeiro, na natureza, e amanhã quero ser o Kurt Cobain no palco com dores de estômago. Às vezes, também quero ser o Aimar e fintar a vida sem perder o recorte técnico dos magos, dos que não se enervam quando a tempestade derroca no nosso quotidiano e não sabemos o que fazer. Eu sou assim – uma confusão. Queria não ser, mas também quero ser. Sou uma conserva de lembranças boas, embutidas numa ardósia de recordações más. Pego nas intermédias para fazer o dia-a-dia, enquanto tento olvidar as más, para me concentrar nas boas. Como todos os humanos: vivo no limbo. A linha nunca é grossa o suficiente para me deixar caminhar nela, mas também nunca é fina o suficiente para me fazer desistir da ideia de atravessá-la. O limbo, para mim, é mais um limbo. E de limbo em limbo vivo o meu dia-a-dia. Hoje quero ser bombeiro e amanhã quero ser ladrão. Depois de amanhã quero ser banqueiro e rico, para no dia seguinte querer ser poeta, como o Herberto que fugia das luzes. Hoje, porém, não sou nada. E enquanto não soubermos o que queremos ser, nada seremos. Só um amontoado de imagens belas, como esta, que fotografei no Alvão. Momentos que passam e lembranças que ficam. Caminhos que se fazem.