Olhar o mar, apreciá-lo e… Fazer ou pensar?

Mar - pensar ou fazer

É uma pergunta que me assola muitas vezes. Nós somos o que fazemos, não o que pensamos. Mas se fazemos sem pensar, também não estaremos a ser demasiado vazios?

É complicado, isto de ser existencial. Viver para experimentar. Pensar para compreender. Tudo está agarrado a algo, como se vida fosse um ventríloquo. Os braços do pensamento dão voz à existência. E ela acontece fora do nosso alcance. Desprevenida, descontraída e impossível de prever. Como tem que ser.
Mas, depois, porra. Não basta ser. É preciso parecer. Fazer!

Mais do que ser, fazer. Porque o fazer é que nos faz ser. A prova disso? Pensei muito em mergulhar, mas só depois de mergulhar me senti livre. Molhado. Feliz. A viver.

O pensamento é um subterfúgio do não fazer. Pára. Estanca. Pensa. E, se pensas, não fazes. Portanto, fazer sem pensar não é o ideal. Mas é melhor que não fazer. Dá aprendizagem, crescimento. Faz pensar. E o bom do fazer é isso:

Permite pensar com conteúdo.

Portanto, mergulhei. E, depois, pensei: está fria. Se tivesse pensado antes, o frio já me estaria a alarmar antes de o sentir. E o que pensamos antes de sentir não é accionável. Não é controlável. É só dor.

E o frio depois do mergulho foi, afinal, o alívio do calor. Tão bom.

#MaisUmaViagemSemViajar

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O Porto (fora) do Instagram

O Porto (fora) do InstagramO mal dos nosso dias é a força com que pensamos, ao invés de sentirmos. Paramos a olhar uma paisagem e pensamos no quotidiano, pensamos há quanto tempo não estávamos ali no nosso Passeio das Virtudes, ou a mirar o nosso Porto desde a Serra do Pilar. Mas não sentimos. Não notamos o ar a entrar-nos pela respiração, em vez de apenas sair.

Vivemos uma agitação contínua que é comandada pela necessidade de desempenhar papéis. Temos que ser bons homens e mulheres, temos que ser bons profissionais, excelentes pais e mães, ainda melhores conselheiros e não podemos ser demasiado macios, nem contemplativos, ou corremos o risco de ser engolidos pela fervorosa onda de intrépidos conquistadores do quotidiano. Sobreviver não é difícil, é só ter capacidade de adaptabilidade, um certo jogo de cintura no pensamento, para agora sermos vorazes profissionais e a seguir melancólicos confidentes. Mas, no fim, não vivemos, porque queremos corresponder apenas ao que esperam de nós, ou ao que achamos que esperam de nós. E paramo-nos nos momentos, mas apenas para fotografá-los. De que me vale ir ao Douro, aos socalcos do vinho mais dourado do mundo, se não o fotografar, se os outros não souberem que lá estive?

E aí perdem-se as histórias. O Porto é para ser visto, mas é muito mais para ser vivido. Experimente parar-se nele, olhá-lo, viajá-lo em sensações e terá muito mais para contar que num filtro de Instragam.

Ricardo Alves Lopes (Ral)
Ricardo Alves Lopes – Marketing & Comunicação
www.ricardoalopes.com — com Ricardo Alves Lopes.

Texto escrita para a página de Facebook da Gbliss – Follow your Bliss

A minha viagem aos Açores

A minha viagem aos Açores

Apetece-me sentar neste muro. Olhar o infinito, no infindo espaço entre a  minha memória e o presente que vivo.

A felicidade, como o Saramago dizia, é egoísta, é um espaço só nosso onde cabem as nossas boas memórias e as nossas alegrias constantes, a harmonia, a que também ele definia, é onde cabe tudo em paz. E neste espaço, neste arquipélago que tive o prazer de conhecer e fotografar, conheci essa paz. O bucolismo dos locais é-me desconfortável, transporta-me a lugares da minha memória que não gosto de percorrer, a escombros de pérfidos momentos, mas é aí que encontro a paz que me potencia a harmonia. Não sou harmonioso a correr, não tenho harmonia na voz, contudo encontro a paz nas palavras. Nas que escrevo e nas que penso.

Os locais inabitáveis, escondidos do nosso quotidiano, são todos os que mais me disparam. Nunca me imagino a viver neles, nunca me imaginarei a viver neles, e quase sempre tenho momentos em que me sinto desconfortável neles. Porém, é nesse desconforto, em que a vontade se confronta com o incontrolável, que encontro o espaço onde desenho a luz dos  meus dias. A minha luz é desenhada, não é escrita. É desenhada pelas minhas vontades, construída pelos meus desejos e consolidada pelas minhas acções. Escrevê-la seria só sonhá-la.

Mas eu também gosto de sonhá-la, atenção. E, por isso, é que não gosto de me imaginar a viver nestes locais bucólicos, cheios de naturezas tão vivas que nos assombram os dias. Eu preciso de movimento, de me ausentar dos meus pensamentos, para criar os meus dias. Se penso, páro. E escrevo. Só escrevo parado, agarrado nos meus pensamentos e a viajar nas minhas ideias. E viver não é só isso, é mais, é luz, é acção, é desenhar e não escrever. Gosto de escrever, gostarei a vida toda, mas só porque ela – a escrita – me rouba dos meus dias, para me levar aos meus pensamentos. Aos tais que tento evitar. É confortável evitá-los, mas é indispensável visitá-los, para crescer, para melhorar, para voltar a sonhar.

Eu escrevo para voltar a sonhar. E visitei os Açores para nunca deixar de sonhar.

É um local onde se viajam ideias, onde se pensam momentos e onde se criam futuros. Futuros de amizade, futuros de amor, mas, acima de tudo, futuros de nós mesmos. Os Açores agarra-nos pelos pés na sua lava, queima-nos por dentro e faz-nos caminhar. E eu quero caminhar sempre, andar para frente, pisar, pé ante pé, a rocha vulcânica da minha vida. Os Açores deram-me isso.

Toda a minha vida terei vontade de voltar a visitar os Açores, os Alpes, ou qualquer outro dos sítios que me levou a locais tão incríveis como a natureza, mas jamais quererei viver num deles. Desiludir-me-iam. Não sou capaz de viver a pensar, preciso de fazer. A minha consciência pesa mais que a beleza dos locais. Mas a beleza das pessoas está nisso: na diferença. Tantos são os que lá vivem e são felizes. E eu, sem os conseguir invejar, consigo admirá-los como só um fã de ocasião o poderá fazer. Os Açores, os Alpes, as Serras ou os Interiores, nunca me desiludirão, mas também nunca me preencherão. E a certeza disso é que me faz visitá-los.

Os dias

Não há dia que não nasça com vontade de ser dia. Seja mais chuvoso ou mais alegre nos raios de sol como um menino nos jardins de infância, não há dia que não nasça a querer ser dia. Ele é abstracto, sem sentimentos aparentes e vontades próprias, mas não deixa de ser dia. No Inverno, como nós, fica melancólico, chora e obriga-nos a usar o guarda-chuva, no Verão, por outro lado, sorri e alegra-nos os dias com o brilho do seu olhar, em forma de raios que batem no dorso do seu mar.

Os dias nascem a querer ser dias, nós também devemos nascer a querer ser homens. Hoje, amanhã, como ontem ou anteontem. Sem passado nem futuro, duvidosos do presente, mas sempre a querer ser homens. Homens e mulheres, claro. Seres-humanos pensantes.