Mar como testemunha

Mar como testemunha

Quanto mais percebemos, mais nos distanciamos. Pensar é uma idiossincrasia que nos atrapalhe tanto quanto nos favorece.

Se pensarmos no mar, é apenas o azul molhado que nos toca a costa; é o local onde esbarramos o corpo no verão e deixamos a salitra mergulhar-nos o olhar. O mar é onde vivem os peixes e onde se põe o horizonte. Mas o mar não pensado – o sentido – é o lugar onde afogamos as nossas agitações, o sítio onde mergulhamos a nossa alegria e o poiso onde criamos o nosso sorriso. Pobres dos que nunca o conheceram, mas mais pobres ainda dos que nunca o sentiram.

O mar não é frio nem é quente, é o momento. Gosto da paz dele para pensar, pensar tanto até ao ponto em que só sinto. E o pensamento só é bom para isso: para nos explodir. Se o pensamento nos explode em mais pensamentos, estamos tramados. Se o pensamento nos explode em sensações, estamos no mar da vida; aquele que desagua nos nossos desejos e cresce nos nossos sentidos.

O mar é sempre testemunha, no seu azul diurno ou no seu acastanhado de fim de dia. O mar é sempre o mar e eu sou sempre eu. Isto foi ontem depois do trabalho, mas podia ser hoje antes do labor. Importa é que, mesmo que o sol se ponha, o mar fique.

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Dias de tempestade

Dias de tempestade

Uma boa forma de nos conhecermos é sabermos que não nos conhecemos. Hoje somos uma coisa, amanhã outra. Não consigo almejar a constância dos predestinados e sou feliz nisso. Talvez não queira ser predestinado, ou previsível. Sou inconstante, sou uma procura de mim mesmo e é nessa luta que sou feliz. Procuro uma resposta que não tem pergunta.

Saio à procura. Gosto essencialmente do momento que me liberto da procura de respostas, para sair só à procura. Não existem objectivos tangíveis, não existem perguntas a serem feitas, mas existe um caminho que necessita ser percorrido. E é essa necessidade que me alimenta. Sou um raio de muitas cores, que fura a tempestade dos meus próprios dias.

É segunda-feira, está a chover como o diabo, estou abrangido pela melancolia de quem adormeceu tarde, não pela ausência de cansaço, mas pelo descontrolo de quem não encontrou o que o movesse para a cama, quando ainda tinha objectivos do fim-de-semana a pervagarem-se nos seus pensamentos. Estou a escrever porque tenho que escrever, não porque deva escrever. É um texto vazio que se enche por isso. Desresponsabilização, ausência de verdade, vazio de sentido. Tudo o que queremos ser em momentos. Eu sou esse momento, neste mote de águas que bate no meu vidro. Estou a abrir a semana à procura de perguntas, porque já tenho as respostas organizadas na folha de trabalho.

Gosto da sentença de melancolia que esta tempestade me traz. Não preciso de ser o que não quero ser. E isso é bom. Procuramos a felicidade, procuramos o sucesso e a realização, mas temos sempre a meta desses objectivos no sorriso de outros. E quando eles não nos encontram, debruçamo-nos no alpendre das nossas amarguras. Não precisamos de ninguém para sermos felizes, mas somos mais felizes com alguém. E esta dicotomia é que nos baralha. Não sabemos onde é terreno para ser lavrado e onde é terreno que já foi lavrado. E essa confusão que faz com que os dias passem. Mesmo que chova lá fora e faça sol aqui dentro.

Bichinhos da minha cabeça

Bichinhos da minha cabeça

Não se percebe nada do que não tem nome. Perdidos, vazios, derivantes e loucos, andamos pelo insano do que não tem nome.

Queremos nomear tudo, mas nem tudo tem nome. Somos vazios do que não conhecemos, por muito que sejam presenças sentidas em nós. Nunca senti um rato a caminhar-me na barriga, a dar os seus pequenos estalidos na minha pele, mas já vi muitos filmes em que, acasos de tortura, o faziam. E eu senti essa dor. Não a reconheci, por jamais a ter experimentado, mas senti-a. À minha maneira, inventada por mim, mas não menos dolorosa. É assim que me sinto: com ratos a roerem-me a barriga.

A inquietação maior de não sabermos se estamos a sentir a dor da maneira certa, no seu talho real, não nos ofusca da sensação que não era isto que desejávamos estar a sentir. Não é menos incómodo por isso. É mais incómodo. É uma coisa, no fundo sensação, que desconhecemos, de que nunca ouvimos falar, mas que nos prende à perna da mesa, como se não quisesse que nos movêssemos. Dói mais porque não tem nome. E, sem nome, sabemos lá nós onde procurar solução.

Titubeante, vagueio pelas memórias do passado, procuro paralelos do desassossego que me desvaria e me afasta do térreo. Mas não encontro nada. Não tem nome. Não tem forma. Não tem comparação. É uma dor nova. E não são ratos. Sei que não são ratos, porque nunca tive ratos na barriga. Mas desisto. Não posso batalhar com o invisível, porque o invisível só existe se por nós for criado. E aí percebo o que tenho. É vontade de andar para a frente, só vontade de andar para a frente. E, então, escrevo. Tudo desaparece. Fiquei eu e a folha e o mundo sorriu. Não eram ratos: eram bichinhos da minha cabeça.

Ricardoalopes – um novo ano

Ricardo Alves Lopes - Ral - TempestadideiasGostaria que o novo ano fosse feito de aventuras do passado, com criações bem presentes. Era isto que eu desejava.

Na enxurrada de ideias que nos desaguam quando um ano se apronta para findar, esta foi uma das que me assolou. Pensei nela uma vez, depois uma segunda e quando me dei conta uma terceira. Queria resoluções, como todas as pessoas querem quando julgam que algo de novo está a começar. Pensei deixar de fumar, mas comecei logo mal o ano: sem deixar. Pensei em ser menos ansioso, mas quanto mais dava por mim a pensar em ansiedade, mais ansioso ficava. Desisti.

Coexistia com essa romaria de pensamentos nas primeiras horas do ano, ou dias, até que peguei numa ideia do passado e reflecti: se o novo ano é para coisas novas, porque não reformular obectivos antigos?

E assim fiz. Comecei, ainda no segredo dos deuses, um plano que há algum tempo tinha para mim. Partilhá-lo com vocês é mera vaidade, um certo pretensiosismo de quem quer falar, falar sempre, mas nunca correr o risco de não ser escutado. Eu sou um bocado assim, mas tentar negá-lo só se for lá para 2016. Que este ano estou a principiá-lo com um novo projecto, feito de ideias antigas. Está para breve. Se quiserem, aguardem. Darei novidades, porque ‘ricardoalopes’ deixará de ser apenas a minha abreviatura de nome para o e-mail. Será algo mais, que espero que possam gostar.

Eu, por cá vou andando, sorrindo para os desejos e rangendo os dentes aos medos. Se um dia for ridículo, sei que todos mo dirão. E aí eu aguentarei. Até lá, vou testando os meus limites.

A luz do escuro

A luz do escuro

O mundo acontece na palma das nossas mãos. Desta forma padronizada que estamos acostumados a ouvir.

Quando penso em escrever, penso que não quero ser igual aos outros, mas quando penso que não quero ser igual aos outros, já me estou a tornar a mesmíssima coisa. É assim a vida complexa dos nossos pensamentos.

São bonitas as frases que circulam pelo facebook, que nos arrepiam, como se houvessem sido escritas para nós, mas não são, nunca serão, suficientes para nos fazer sair do sofá e abandonar a zona de conforto desconfortável.

Pecamos por não compreendermos bem o que desejamos, por derivarmos em caminhos que nem sempre são os nossos, atrás de algo que nos faça felizes momentaneamente.

Mas a felicidade, como o trabalho, a realização, ou qualquer outra coisa gratificante, é trabalhosa, custosa. E eu, na minha ingénua ideia de viver, na qual já errei, uma e outra vez, digo-vos: se me dessem o destino sem luta, jamais o quereria para mim.

Gosto de bater com a cabeça de vez em quando, gosto que me digam, olhos nos olhos: acorda, Ral. São as pessoas que me marcam.

Gosto desses choques, da necessidade de mudar de direcção e não saber como fazê-lo, de ter que arranjar algo de novo para mim e metamorfosear-me para continuar a ser eu mesmo. Apaixono-me pela luta, quando pressinto para onde anseio ir.

Vivo entre barreiras, a aproveitar o espaço ermo delas. Há luz até no escuro. E eu sou claridade, agora que sei para onde quero ir.

O Fado das viagens

o fado das viagens

Não tem que ser estranho ser feliz nos pensamentos. É vago, desejamos sempre a materialização do que pensamos, como forma única de alcançar o cume de um qualquer êxtase. Mas, por vezes, em razões que nem nós sabemos explicar, como palavras de médico num bloco de apontamentos, sentimos que nem tudo é assim.

Olhamos a noite e vemos, não ouvimos, vemos, o fado a percutir em todas as pedras da calçada, os navios a navegarem pelos mares, a serem soprados num velejar de que só os portugueses se podem orgulhar, e sentimo-nos felizes. Não materializámos o sonho, mas estamos a viver nele, a passear nele, a imaginá-lo e, nesses instantes, não temos que nos sentir culpados de sermos felizes. O sonho é bom porque, em casos, leva à acção. Mas quando não leva, quando não depende apenas de nós, não tem que ser mau viajar nele.

Temos que existir com os pés no chão, mas também temos que ir atrás do fado que toca nos ares. Ele não existe, é só uma especulação da nossa cabeça, mas já diziam os antigos, antigos mesmo, que o destino não é o fruto, é a viagem. E eu estou a viajar. Sempre. Umas vezes sorrio, outras choro. Mas viajo, viajo sempre. Sem sair de casa, consigo percorrer tantos caminhos, tantos corpos, tantas sensações, quanto desejo.

Não devemos viver na ilusão, mas também não podemos permitir que a realidade nos apague o candelabro dos sonhos. A candura depende de nós. O respeito também.

Miguel Torga

Ouvir e ver um documentário sobre o Miguel Torga, na aspereza dos seus pensamentos, faz-me pensar que, como em todos os grandes casos, as apoquentações de um português sentido passam sempre pelas mesmas coisas.

As governações aquém do que se deseja, os provincianismos de intelectuais bacocos que se assumem, tantas vezes, como os criadores dos pensamentos que devem ser seguidos. Ele era ibérico, e isso, só por si, já tantos trabalhos lhe causava. Gostei de ver e ouvir. Há mais a ser lido.