Não há nada mais feio que estar em guerra com quem se amou por muito tempo

Não estou a falar de mulheres. Estou a referir-me a momentos passados. Quando gostamos muito de um sítio, sabendo e sentindo que lá passámos grandes momentos, tendemos a procurá-lo em todo o lado. Em todos os momentos.
Gostamos das sensações e vivemos presos a elas, a criar essa expectativa em cima de outros sítios e momentos – e mesmo pessoas. Isso é estar em guerra com quem amámos.

A paixão chama-se paixão por ser efémera. Se lhe tirarmos a vertente passageira roubamos-lhe a existência. O comediante tem na piada a sua maior virtude e defeito. O vilão tem na maldade o seu maior defeito e o seu maior fascínio. A vida é assim, feita de contradições. O bom e o mau estão sempre muito próximos e cheios de razões lógicas para se afastarem. Mas não se afastam.

A vida tem que ser vivida no limbo do bom e mau, porque é aí que ela acontece. No resto, só passa.

Por isso é que, em mais esta viagem sem viajar, acabei com a maldade do convívio dos Vampiros Grupo de Carnaval. Troquei o local e fui refazer as lembranças. Não era o sítio que fazia o momento. Eram as pessoas. E isso já era sabido. Mas estava em guerra com quem amava: com as lembranças dos bons momentos.

Agora, refi-los. E de um amor passei a dois. Três. Quatro. Tantos quantos viver sem a expectativa do que foi o passado. São as pessoas que fazem os locais, mesmo quando eles estão despidos delas. A ausência de pessoas também é uma forma de amar as pessoas.

Mas este fim-de-semana não foi o caso. Estive repleto de pessoas em redor e num sítio que não conhecia. Gostei.

Agora

AgoraDe repente, nunca sabemos quem somos. O mundo está a acontecer ao nosso redor, com mortes em Nice, Ancara, Munique e tantos outros sítios que não são notícia e nós temos que pensar sobre isso. Temos dificuldade, porque a vida acontece a pouco mais que dois palmos da nossa testa, mas há uma rede social para defender e onde nos devemos situar. Passou a era de não termos opinião.

Cansa-me que tenhamos que ter opinião sobre tudo, mas assusta-me que não saibamos um pouquinho de tudo. E, enquanto isso, a vida acontece. Sentamo-nos à mesa e falamos de coisas que aconteceram há 10 anos. Ainda ontem eu estava sem saber se ia para a universidade e agora conto histórias com 10 anos. É assustador. Contudo, é também tão bom. Reflectimos no que vivemos, sentimos o que lá se passou e transportamos para estes dias. A vida acontece. E nós também.

Não temos muito tempo para sentir a vida acontecer, porque se sentirmos que o ontem já vai longe, e o amanhã está a chegar, sobra pouco tempo para o agora. E o agora é o único sítio onde vivemos, onde construímos o passado e desenhamos o futuro. E o meu agora foi a escrever este texto. Só porque me apeteceu.

O presente

O presente

 

Jorge Luis Borges dizia que todas as criaturas são imortais, excepto os homens; os que na morte colocam fé, sem dela se abstraírem. Eu gosto de me abstrair das coisas. Gosto da lembrança subcutânea de momentos incríveis.

Quando exercito a mente, num périplo por viagens idas, por momentos que ficam, furam-me recordações de ápices desconexos. Lembro-me de estar em Paris e recordar mais um velho senhor, elegante, a tocar guitarra e a cantar blues, em Montmartre, do que a vista magnificente da torre. Lembro-me de em Barcelona espantar-me tanto com a vista matinal, enublada, a partir do Museu Nacional d’Art de Catalunya como com o passeio pela rambla principal. Lembro-me, também, de ir a vários concertos num só dia e de me encantar mais com a paragem numa esplanada, de rabo alapado na relva a beber uma cerveja, do que com os acordes fantásticos duma dais quaisquer bandas que vi.

Tudo isto acontece porque, mais uma vez, Jorge Luis Borges está certo: “O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe”. E não existe mesmo, quando o queremos tactear. Raras são vezes em que a cabeça está desunida do passado e separada do futuro. O imediato quase sempre nos rouba a cabeça do agora. É a melhor hora para pensar no que vem a seguir, para memorar no que já foi feito e para apontar ao que se quer fazer. Como quando estamos de frente para a Torre Eiffel e queremos, obrigatoriamente, marcá-la em detalhe, qual raio-x, porque pertencia aos nossos sonhos do passado. Se pensamos que não queremos esquecer, esquecemos. É assim. Porém, se não queremos saber, se estamos só lá, sem estar a tentar medir os centímetros do presente, ele fica. É o presente que se torna passado, usando a pele dos irrepetíveis momentos. Como eu tive em Montmartre, no Museu Nacional d’Art de Catalunya, naquele jardim a beber uma cerveja ou nesta foto que tirei virado para o Tejo, também a beber uma cerveja. O presente é o exacto momento em que não existe passado nem futuro. E a linearidade disso é a complexidade de todos os que querem viver tudo, agora.

O futuro começa hoje

Por vezes sou arrebatado por uma vontade de escrever, sobre o quê não sei, sobre o que desconheço.

Não sei a sua textura, não consigo sentir o seu toque, mas ainda assim sinto-me enamorado. Não sei se por não saber do que ele é feito, se por acreditar que por muito bem que esteja hoje nele estarei sempre melhor, sei apenas que estou apaixonado. Ninguém imagina um futuro cinzento para si, assim quase todos o amam, são seus amantes. Eu não sou diferente.

Uns admitem que o futuro vai ser incrível, no entanto pouco se movimentam. Preferem esperar pelo destino. Outros focam-se tanto nesse futuro, que não percebem que também se deve viver o presente. Não é uma equação fácil de gerir esta. Só está ao alcance de alguns, dos audazes.

Definitivamente sou um, aborrecido, meio-termo. Não me defino nunca por extremos. Gosto pouco de vincos, de extremidades, vou sempre atrás de ondulações que me deixam à deriva. Estou aberto a críticas, claro.

Eu amo viver no futuro, hoje. Gosto de cometer loucuras, que sei que podem dar-me um rumo posteriormente. Hoje a adrenalina de me aventurar, amanhã o sorriso de ter audácia. Eu sou impulsivo, confesso, mas sou-o sempre com a certeza do reflexo disso no futuro. Caramba, assim tem mais piada, não tem?

Gosto de ter histórias para contar, gosto de as contar muitas vezes, até. Mas sabem como eu tenho essas histórias do passado? Vivendo o presente, com a adrenalina de saber o que quero para o futuro, sem saber se o terei. No fundo, no fundo, arriscando! É assim que sou feliz.