O Monstro Sagrado partiu

LEGENDS_089Em pouco mais de um mês, são duas lendas que partem. Saem em fuga pelo flanco, deixando um rasto de grandiosidade no relvado da vida.

Não voltarão a marcar nas balizas dos estádios, mas deixarão sempre o seu legado nos apaixonados da bancada e dos campos. Até à morte, Eusébio chamou-o de senhor. O senhor Coluna. Também foi o Monstro Sagrado. Mas, para a memória, fica o tanto que fez em campo e o tanto que fez pelos seus em Moçambique.

Foi o pai do Eusébio e o dono do nosso orgulho. Até sempre, eterno Coluna!

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Lá foi o Aníbal

Não podia ser. Sozinho no cimo da cama, a passar a mão pelo vazio de um lençol que sequer se encorrilhou, muito menos se aqueceu. Sozinho.

As palavras presas no céu da boca, como um pedaço de carne empapada que não foi deglutida. A mão suspensa, procurando amizades que uma vida de partilha esculpe, como um dorso do poeta. As mesas da sala e da cozinha vazias, despejadas de conversa e à procura das chávenas que as lapidavam. Pungente, a chuva bate mas o coração abranda.

Onde estás, Lena? Responde-me, diz-me para onde foste que eu vou buscar-te, trazer-te para o meu sítio, que é o nosso. O corpo já não me permite novas vidas, como sabes. Estavas lá quando o doutor disse que isto agora era a caldos de galinha, que até o meu tintinho tinha que acabar. Anda-te embora, Lena, o teu sítio é aqui ao pé de mim, a sossegar-me as dores e a abraçar-me as angústias. Já sabes que a vida é para ser refilada, mas refilada sozinha já não tem graça. Eu até ao café deixei de ir, mulher, e agora é que tu me vais! Anda-te embora, Lena.

E o tempo passava no ponteiro como um comboio na linha de ferro de um apeadeiro, imparável. Os anos já não se moviam como forças a serem conquistadas, somente se amontoavam como recibos de contas da luz na gaveta do móvel de entrada. O Aníbal, certo de que o corpo já não respondia, compreendia que tinha que viver uma nova vida aos setenta.

Mas não, fechou os olhos, deixou a manhã cair na janela como uma gota de água na caneja. E partiu. Não foi o coração, não foi as artroses, tampouco o fígado. Foi a saudade.

Saudade é única

saudades, partida, sentimento, únicoSaudade é o sentimento sem nome, o aperto do coração que tem dificuldade de se descrever em palavras, em verdadeiras narrações. É abstracto e doloroso, na certeza das sensações boas.

É um sentimento antagónico, que dói, faz sofrer, espernear e chorar, mas que só existe pelas vivências indulgentes, pelas pessoas que nos fazem bem. Jamais sentimos saudades de quem nos fez mal, de quem pouco nos acrescentou. Sentir saudade é escrever nas linhas do vento, com palavras mudas: amo-te; adoro-te; desejo-te; quero-te; és especial; jamais deixarás de ter o teu canto no meu fulcro.

Eu amo e sinto saudades. Saudades dentro do amor, em escassos momentos de ausência. A saudade não é exclusiva dos que deixam de ver, dos que sabem que partiram, saudade também é do agora para o depois. É uma equação com um denominador comum, o amor, seja de que tipo for, porém dispõe de diversas variáveis que influenciam o cálculo e, respectivamente, o resultado. As minhas saudades não iguais às tuas, garanto-te! Podemos ter o coração a palpitar apertado, pelo adeus à mesma pessoa, que as nossas saudades não são iguais. Todos sentimos saudades, mas elas são únicas, pessoais. Cada pessoa, feita do seu tecido de pele e vida, transforma a saudade num sentimento uno. Sem replicações!

Saudosos são os tempos, como os corações apaixonados. O amor não vive só do beijo na boca, do aperto dos corpos, também se sente na palavra amiga, no abraço terno, na amizade pura. Saudades existem dos amores, amigos, familiares e desconhecidos que nos completam os dias. É um sentimento forte como uma montanha em avalanche, porém que se doma, que se torna mais brando. Mais brando não é desparecido. A saudade é eterna!

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As partidas… para o novo mundo!

Levam sonhos e esperanças mil, guardadas numa bagagem ligeiramente superior à das viagens de recreio. São ambições grandes que os movem. Uma fúria e força, fundidas a calor, que os levam a deixarem o seu berço. Heróis, sem dúvida, heróis!

São, na maioria, jovens que colocam a mochila às costas e levam a certeza que o melhor está para vir. Que pior seria abraçar estes tempos conglutinosos, que nos enleiam em austeridades que bloqueiam o país, o seu povo, e qualquer sorriso de um futuro melhor. Aquela exacerbante esperança que os caracteriza, que os faz acenar ao longe, do avião, ainda no aeroporto, para os que cá deixam, esconde uma tristeza dura. A tristeza de saber que isto não é uma aventura, que é, fatidicamente, a única saída.

Os meus pais, que vivem ali na casa dos 50 anos, sabem do que falo. A minha mãe nasceu pela Venezuela, veio cedo para cá, mas ainda tem dois irmãos por lá. O meu pai, ainda catraio, aventurou-se com os meus avós para o Brasil, na busca do tesouro que cá escapulia. Na minha família há este registo da busca dura por uma vida melhor, certamente não esperariam era ver o tempo voltar-se para trás e trazer igual fenómeno, tantos anos depois.

Já comecei a ver amigos partir, desfasados no tempo e com a certeza que por aqui não podiam continuar. Todos dizem o mesmo: se pudesse ficava. Pois, a verdade é essa, não podem. Não dá, é chover no molhado, bater no ceguinho. Mas dói como a porra, para quem vai e deixa outros; para quem fica e os vê partir. Felicito-me por vê-los no melhor, que nesta fase podiam ambicionar, por ver que as expectativas se construíram em bases que os respeitam. Ao contrario de cá, afinal.

Hoje partiu-me mais um, este é sangue do meu sangue, é família. Durante muitos anos andamos apartados pelas vísceras do dia-a-dia, no entanto há algum tempo, com o aumento da idade, começamos a partilhar mais experiências e percebi que o miúdo é de aço. Vai longe, não duvido. Fosse cá, ou no fresquinho chuvoso onde agora se vai meter. É, no fim de contas, mais um esboço da raça portuguesa. Destes jovens meio aturdidos, que não são mais que a personificação da crença e irreverência da nossa juventude.

Eu por cá me mantenho, movido pelos projectos que alimento, por muito que eles não me alimentem a mim. Estou preso a paixões, contudo receio que um dia as dores de estômago as superem e eu seja mais um a partir. Admito, não queria. No entanto, se sou filho desse sangue das viagens para um futuro melhor, vai-se lá saber se me mantenho!

Por agora, boa viagem e toda a sorte do mundo, primo! Que sejas tão bem-sucedido e feliz como mereces. Como sei que vais ser. Quanto aos que já lá estão, não desistam de melhorar, o vosso amigo Ral mantém-se orgulhoso de se ter feito homem no meio de pessoas grandes, como vocês!! Adoro-vos, com toda a lamechice que isto leva!

PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais detalhes sobre o livro que lançarei, lá para meados de Novembro, basta clicarem neste destacado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)