Exposição Ovarmemorias

Exposição Ovarmemorias

Ovar é uma cidade com história, famosa pelo seu pão-de-ló e resplandecida pelos seus azulejos, que não se esgota aí.

Ovar tem futuro e tem memórias. Aliás, o Ovarmemorias é o grande potenciador desta exposição que nos retrata o passado longínquo, o contemporâneo e a liberdade de expressão, para vivermos o presente e imaginarmos o futuro.

Com uma presença online, no Facebook, por todos reconhecida, o Ovarmemorias tem tido o papel fundamental de nos avivar o passado, para melhor compreendermos as tradições e os locais por onde passamos diariamente. Um dos marcos deste projecto tem sido a recordação saudosa que desperta nas pessoas, mas também a participação activa de tantos e tantos cidadãos que disponibilizam fotos suas e experiências. A Camara Municipal de  Ovar e o Museu de Ovar também têm tido um papel fundamental na projecção desta colectânea. Seja em foto, filme ou vídeo, somos presenteados semanalmente com estas viagens pelas idas décadas da nossa cidade. Ninguém fica indiferente às fotos do Furadouro, às imagens de uma Igreja Matriz, bonita e majestosa, posta no seu alto, no tempo em que os flashes disparavam a preto e branco, ou simplesmente nas ruas coloridas a carros que já nem nos recordávamos que um dia circularam.

Os mais jovens, sem essas lembranças, devem ao Ovarmemorias a possibilidade de conhecer uma urbe que, apesar de sua, nunca viveram. Enquanto os mais velhos, com a comoção de quem ama o seu recanto, regressam à sua juventude, ou até um pouquinho mais atrás.

Assim, pode-se constar que o Ovarmemorias, pela mão do Guilherme Terra, tem um alicerce do passado, mas nunca negando a evolução que a época que vivemos doutrina.

Fazendo uso de parte do espólio que nos tem apresentado e com a colaboração dedicada, e incansável, destas 24 pessoas que, com amor à fotografia e à cidade, subiram a gruas, procuraram os enquadramentos exactos, para captar a mesma foto tantos anos depois, criou-se esta exposição. Nela, pela óptica dos mesmos 24 fotógrafos, podemos encontrar ainda uma terceira fotografia dos mesmos locais, que surge como um complemento, uma expressão máxima da liberdade criativa de cada um, permitindo-nos a todos viajar pela nossa cidade, através da sua óptica e olhar, mas sempre mantendo as nossas percepções e sensações.

Não percam a oportunidade de apreciar cada detalhe, esmiuçar cada recanto, porque a nossa cidade é feita de futuro, mas também possui um passado e presente que nos deve honrar.

Ricardo Alves Lopes (Ral)

(texto redigido para a exposição fotográfica “1 Ano de Ovarmemorias 24=24+24”, da autoria de Guilherme Terra, em parceria com 24 fotógrafos ) 

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Poema a Ovar

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Aqui fica o poema que escrevi a Ovar, publicado no OvarNews a 28/08/2013.

Há quem diga que o teu nome, Ovar,
Veio dos peixes cá virem desovar.
A bom rigor, não se sabe se é verdade se não,
Não há como saber, mas o que importa é a tua compleição.

Consegues juntar o mar e a ria, o ecléctico e o urbano,
Fazes-nos devanear em vielas de ti, num estado puritano.
As Capelas dos Passos não são alheias, são assinaladas.
São exemplares da tua beleza, que as pessoas levam memoriadas.

Falam, também, das tuas gentes, do teu povo,
De todos, do mais velho ao mais novo.
Dizem, sorrindo, que são gente boa,
Que dá tudo aos de fora, que recebe como apregoa.

Não te esgotas aí, crias uma paisagem do além,
Tua e de mais ninguém,
Com o azulejo de arte, de paisagem,
Que nos faz entrar nas telas de cerâmica, como quem vai numa viagem.

Aguças o apetite, a gula do prazer,
Com o pão-de-ló que é operado com querer,
Com outorga e paixão,
Pois só assim, poderia sair com aquela forma de perdição.

No Carnaval lembras aos bandos como são felizes,
Fazes até dos mais idosos petizes.
As figuras da cidade saem à rua, com cor e alegoria,
Largando desmedida marca de simpatia.

Já viveu em ti o Júlio Dinis e o Santa Camarão,
Que servem de inspiração a este novo diapasão
De miúdos e graúdos com apetites de vitória,
Com ganas de chegar à glória.

Sabes, Ovar, está a chegar a hora de me cessar,
De fazer este texto se findar,
Mas não é por isso que não te faço mais uma jura,
Que é tão simples como pura.

Hoje, amanhã e seguidamente,
Viva aqui ou no caminho do infinitamente,
Serei sempre português e ovarense, vareiro,
Por este amor que te tenho por inteiro.

Ricardo Alves Lopes (Ral)

És Ovar

Cedo caí nos teus braços, ainda vinha embrulhado nas mantas de bebé, engalanado nas chupetas e, pontualmente, nos biberões. E tu seguravas-me. Seguravas-me como se temesses que eu me perdesse, que eu caísse.

Sorrias-me no brilho dos teus azulejos, pela altura do verão. A forma como cada raio do astro-rei se batia contra as varinas ou os vareiros, desenhados com uma geometria de corpos de mulheres em tábuas de pedra, em azulejos coloridos. Casas, igrejas, calçadas, edifícios públicos, nada escapa à beleza dessa tua marca. Dessa nossa marca. No inverno, cai-se a chuva, tomba-se o mau tempo, e eles mantêm-se majestosos. Vêem a intempérie deslizar una, como se escrevesse um poema a cada gotícula; como se contasse uma história a cada pingo.

Não renegas a nossa marca de pesca, expões barcos com o brio de quem sabe que o mundo maior, o imenso, está no revolto do mar; no pacífico do transpor a linha do horizonte. São homens de camisas grossas, adivinhando o frio que o mar põe, que com valentia se atiram às ondas, como se todo o Universo dependesse daquela pescaria, como se uma sardinha salvasse uma criança em África, ou um carapau o velhinho em Timor. São heróis esquecidos pela austeridade, perdidos nas regras comunitárias, mas que divulgas nos teus painéis, nas tuas publicações pontuais. São heróis a quem fazes justiça, com a beleza que cedo captei em ti.

Fala-se do aglomerar das freguesias, do aglutinar das sedes sociais, e tu continuas com o Neptuno a vociferar que somos Ovar. Que não temos fronteiras, nem barreiras linguísticas, somos Ovar. Todos somos Ovar. Dizemos quilhómetros ou posjolhos, na troca natural de quilómetros e para os olhos, como marca da nossa unicidade. Como se um dialecto sem gramáticas, esdrúxulas ou graves, fosse uma marca nossa. Demonstramos sede de viver, de nos movermos, no aglutinador natural de vocábulos que fruímos. Ainda era miúdo e já ia pasjaulas, que não eram uma prisão, expressavam apenas a minha intrepidez de enfeixar palavras, para acelerar caminho. Para fazer futuro. Ovar é assim.

Desfilamos no Carnaval, criamos um PIB de sorrisos, capaz de saquear a fortuna dos bávaros, capaz de amedrontar o crescimento dos brasileiros. Somos uma medida de alavanque, um expoente de solidariedade alegórica. Com apoio na alegria, com extremo na exaltação. Não sabemos ser de outra forma, nem nos passos da Páscoa, onde solenizamos o catolicismo – que não pertence a todos -, com um respeito de quem sabe que em Ovar há espaço para a mescla da humanidade.

Crias artistas, sejam de novela, da televisão, da música ou da escrita. Somos uma cidade de miúdos atrevidos, que ambicionam ser filhos do mundo, com uma paternidade vareira que jamais negarão. Chegou o meu dia, lanço o meu livro e o palco é Ovar. Tenho mãe e pai, tenho namorada e amigos, tenho colegas e conhecidos, mas tudo se deve a ti, minha Ovar. Estás sempre aqui, a olhar-me, a segurar-me e a apoiar-me, como se ainda hoje estivesse naquelas mantas em que me acolheste. És a minha Ovar, do azulejo ao pão-de-ló, do Carnaval à procissão dos passos, dos pescadores aos pequenos artistas. És Ovar.

Para encomenda de livros, sem portes: ricardoalopes.lopes@gmail.com

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Ovar, meu berço de ontem, hoje e amanhã!

A vida trouxe-me até esta bela e pequena, em tamanho, cidade, aos três anos. Não mais a deixei!

Aquele cantinho, oculto na periferia, deu-me a minha primeira morada. Deu-me também a segunda, até hoje definitiva. Foi o meu berço, os braços que me seguraram. Viu os meus supremos choros de birra, as minhas primeiras sonâncias próximas a vocábulos, as minhas primordiais brincadeiras com bola, com vizinhos. Foi o sítio que me ensinou que os meus pais não traduziam o mundo, apenas o meu mundo.

A casa dos pescadores, nas traseiras da Segurança Social, deu-me o primeiro contacto com a educação escolar, com o respeito da hierarquia. Deu-me os primeiros amigos, fez-me sentir, pela primeira vez, parte integrante de um grupo, de um conjunto. As lembranças não são vastas, mas marcantes são certamente.

A Ponte Nova, bem juntinho à linha do comboio, preenchia-me as tardes. No reconfortante aconchego dos meus avós, nas parvoíces divididas com os meus primos, nas loucuras saudáveis da idade dos “porquês”.

A praia do Furadouro, a bela avenida central, abrilhantava os meus fins-de-semana. Embalados pelos passeios de mão dada com os meus pais, pelos cafezinhos de pós-almoço. Mais tarde viria a ser o palco do meu primeiro emprego, do meu primeiro part-time, das minhas primeiras aventuras de bicicleta, da minha independência de verão.

O largo dos Combatentes, a fonte, embelezavam o meu ensino primário, os meus primeiros traços de personalidade. As primeiras amizades duradouras. Hoje, posso afirmar que são para a vida.

A meio deste trilho de vida cruzei-me com o velhinho Raimundo Rodrigues, com a Ovarense. Anos e anos de conquistas conjuntas, de histórias escritas nas inapagáveis linhas da memória.

Veio, naturalmente, a António Dias Simões, vulgo ciclo, que em apenas dois anos me marcou para a eternidade. A ludoteca, o campo de futebol, o horário no bolso e diferente todos os dias. Como poderia alguma vez me esquecer?

Júlio Dinis ou José Macedo Fragateiro? José Macedo Fragateiro por opção, por facilidade de transporte e talvez por afinidade. Foram cinco anos, intensos, nada pacíficos. Desvirtuei raízes de educação, pus em causa valores familiares e da escola, mas certamente levei uma lição, uma enorme lição, para a vida! Obrigado e desculpem-me.

Não fiquei por aqui, prossegui estudos, arranjei emprego, tudo em outras cidades. Porém, é Ovar que dia após dia, mês após mês, ano após ano, me vê adormecer.

Tenho ambições, sonhos, planos, mas jamais me conseguirei desligar do sol do Furadouro, do encanto da ria, da loucura do carnaval, do adocicado do Pão-de-ló, da voluptuosidade dos azulejos, do catolicismo das Capelas dos Passos, da omnipresença do Santa Camarão, da imponência do Neptuno, da frescura do Cáster, da juventude da Avenida da Régua, da minha morada  e agora do som dos, já famigerados, Pevides de Cabaça.