Sou teu

Sou teu

Sei que não sabes, que não compreendes nem entendes, mas sou teu. Sou teu desde que o vento nos beijou os rostos e nos acariciou a alma como se fossemos feitos da textura do nosso amor. Agracio-te as palavras, admiro-te os gestos e compreendo-te as revoltas. Sou teu. Sou eu.

Como posso explicar em palavras a prisão mais livre que já encontrei? Não me interessa o chilrear dos pássaros quando eles não assobiam o teu nome. É uma melodia sem corpo, que me faz procurar-te a alma. Sou vazio, pareço vazio, mas confundo-te na minha imensidão. Falo para não estar calado, apresento respostas para não ter que formular perguntas, mas sou teu. Sempre teu. Acreditas?

Viajo pelas plumas de um Inverno que se constrói no céu e se destrói na tua alma. Crio combustões para disfarçar as minhas ausências, mas sou teu. E o que importa mais, para além da sensação de ser teu?

Nada.

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No teu olhar

No teu olhar

Aonde? Não te encontro em parte nenhuma. Procuro-te e procuro-te, desvanecido como um nuvem, e deparo-me sempre com a tua ausência.

Que saudades da tua voz, do teu tocar, do teu sentir. Não me apetece usar o ‘e’, a lista poderia continuar. Não é o amor que ferve nas entrelinhas do meu coração, é a saudade, a falta que me fazem as pequenas coisas. O olhar. A viagem que sempre fiz pelo teu olhar, os sítios onde me levavas quando me encaravas, as mensagens que me ditavas em silêncio. Uma mulher que olha assim, com o mundo dentro da menina do olho, é uma mulher especial. O cabelo deslizava-te, a pele torneava-se, o mundo acontecia, mas eu estava ali. No teu olhar.

Aquelas palavras curtas, certeiras, que me rompiam como uma aragem que erra por nós adentro. Trémulo, procurava a tua aprovação. Transitava os meus objectivos para ti, liquefazia-me nas minhas ideias, como numa procura infinda por uma resposta tua. Um orgulho, um elogio, sei lá, um beijo. E tu a aconteceres especial em frente a mim, subtil, mergulhada em certezas e incertezas, divagante como uma poeta. E eu a olhar para dentro, para dentro e para dentro. Com tudo a acontecer do lado de fora. O arrepio da pele, o toque do beijo, o aconchego do corpo. Sinto a tua falta nas palavras que não escuto, nos olhares que não vejo e nos ventos que não assomam.

É Outono ou Inverno, o vento sopra, mas é silêncio. Apenas zumbe, não reclama, não elogia, não oferece verdade. O mundo acontece além de nós. No teu olhar.

A carta em silêncio

A carta em silêncio

Não é no vagar que gasto nas palavras que demonstro o amor, é na resiliência dos silêncios. Shiu. As árvores a rangerem, o vento a soprar como uma respiração incontida de uma noite de inverno.

O teu corpo pousado no meu. Lado a lado, com a cabeça junto do meu batimento. Sinto-te as palavras como silêncios e os cabelos como condóis que me movem os poros da pele. Estremeço, sempre que as palavras não foram ditas. Trepo vida ao compasso dos silêncios que vou guardando e partilhando. Partilhar contigo um silêncio é fazer crescer em nós o amor. As palavras que não se dizem, os silêncios que se oferecem. Shiu. Deixa-te estar no encosto do meu peito e ouve as minhas palavras, ritmadas pelo meu batimento. Pum, pum. São sinceras, apenas desditas pelo tempo que galopeia pelas encostas da vida, como um cavalo solto.

Ouço Eugénio de Andrade nos meus pensamentos. Queria tratar-te como ele trata as palavras: sem temor e com carícia. Tanta ternura. É bonito ver como as palavras dele deslizam, na folha, como uma aragem que estremece as plantas. É uma natureza que nasce na ponta dos dedos de uma pessoa que não nasceu para morrer. Como ele escrevia, não nasceu para morrer. Talvez os amores também assim o sejam: nascidos para nunca morrer.

Há amores e amores, pessoas e pessoas, mas o que mais vingam são os que respeitam o silêncio. O silêncio dito e o silêncio não dito. Agora, dorme. Descansa no meu peito. Shiu.

Dúvidas

Sufocam-se as palavras, devastadas pela majestosidade de tudo o que as envolve. A dor que se propaga, a alegria que se profana, a tristeza que fica. Não há palavras, de jeito nenhum, para descrever a mescla de luz acesas e apagadas na subserviência de uma vida que prega partidas, qual criança de seis anos, a todo o instante.

A felicidade é tão preciosa como um rubi, pois a cada instante que chega logo se sobrepõem detalhes, tão petizes como elefantes, que nos desajeitam a forma de ver a alegria. É um ferro que atravessa os dentes, uma dor que se alastra na perna e se finda na cabeça, um ajuste que pondera se o tão certo é, afinal, certo. A cabeça, fechada sob si, é tão esperta como um pano sem vida que adorna uma mesa de centro. Puxa por nós, diferencia-nos e pode fazer-nos mais belos, mais sedutores, pela eloquência que se granjeia. Mas quanto mais se procura, mas dúvidas se criam.

Novidades para breve

Tenho-me mantido mais calado, sem grandes críticas à política, sem exaltação aos bons resultados do meu Benfica ou sem expor-me a pensamentos e sensações. Tenho andado quietito, por estas bandas.

Contudo, o meu silêncio não é falta de palavras, é nova canalização delas. Tenho estado com muito trabalho e muitos prazeres. Para breve, espero, haverá novidades. E boas, ao menos para mim. Esperando, claro, que também possam ser para vocês, meus queridos – conforme diria o Proença.

Até já.

Ai, as palavras!

Não se medem palavras, na ausência de sons. As palavras crescem dentro de nós, sempre, concisas e alargadas, medidas e desmedidas, mas morrem no ar. As desditas, as ditas na vagareza de uma preguiça de pensá-las, fazem-se defuntas de uma história sem história.

Um sábado mais cedo na cama, um domingo a crescer vespertino, mais pacato como um campo abandonado ao chilrear dos grilos, mas mesmo assim as palavras mantendo-se donas da sua existência. Não há escritor que as crie, há escritores é que as dominam, as domam como leões que fugiram das jaulas.

Eu ainda fujo. Um dia, quem sabe, apanharei esse leão de frente e não haverá sábados nem domingos, haverão dias inteiros de entrega uma ciência que não é estudada, é sentida. Bom domingo.

O futuro agora

Não sei muito bem o significado das palavras, muito menos das expectativas. De comum têm a forma como nos elevam para pensamentos e cogitações. Uma palavra acertada, ou uma expectativa oportuna, faz-nos viajar para um sonho, um idear de um futuro que rogamos seja presente.

Não sei o meu futuro, contudo penso muito nele. Em momentos, vejo-o como se fosse hoje. Isso baralha e desconstrói o agora. Ainda assim, é bom. Não devo, nem devemos, ser estáticos no tempo. Ele é curto. E eu quero ser mais do que ele. Sonho ser maior do que o tempo, excedente à vida.

Não sei quando vou morrer, mas sei quando quero viver. E é agora. Já.

Ral