Carnaval de Ovar

Carnaval de Ovar

Nunca será fácil para quem é de fora compreendê-lo. Nem é esse o objectivo. Vestir calças aos xadrez e camisas às riscas, usar óculos escuros à noite, trajar o casaco dum grupo todos os dias, durante um mês e tal, não falar de mais nada, jantar sempre juntos ao sábado, e talvez à sexta, quem sabe à quinta e até ao domingo. Passear com orgulho a presença num grupo, sabendo que há trabalho para fazer na sede, que a pressão aperta, que a família sofre, que os olhos pestanejam no emprego e as pernas latejam. Sair de casa à quinta e voltar ao domingo. Fazer uma noitada e estar desperto para desfilar logo no fim dela. Atirar os foguetes e apanhar as canas quando ficamos em primeiro, em segundo, em terceiro, em décimo ou em centésimo. Explicar que não vamos “fantasiados de quê”, que vamos a fazer um espetáculo de rua. Dar a entender que todos os caminhos se lotam de pessoas em euforia e que isto não é só um feriado ou uma tolerância de ponto, é uma forma de estar, uma época que é ansiada, uma adrenalina que não é partilhada. Correspondida, mas não partilhada. Vivida, somente!

Isto é nosso. É o nosso carnaval. O que ninguém percebe, mas admira. O que ninguém gosta, mas só até experimentar. Este grupo são os Vampiros, o meu, num ano há algum tempo ido, mas que tão grandes memórias me deixa. O valor é de todos. Todos mesmo, sem excepção. Os elementos, os apoiantes, os foliões e até os desconfiados. Todos eles fazem o Carnaval de Ovar e sem algum deles seria impossível. Portanto, não se esqueçam: desfilem, trabalhem, saiam de casa, bebam copos ou água, reclamem, digam que podia estar melhor, que antes é que era, mas nunca deixem de falar do Carnaval de Ovar. Isso é que faz de nós grandes. Os maiores!
Viva o Carnaval de Ovar!

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Ovar em dia de chuva

chuva

 

Ovar a compasso da chuva que cai. A água a deslizar, cambaleante entre as brumas dos passadiços que nascem até à Escola de Artes e Ofícios.

O centro inundado de pessoas que se deslocam no abrigo dos seus carros, no fugidio passo acelerado, por debaixo dos seus guarda-chuvas, a esconderijo das goteiras que enxurram as águas como dilúvios de dias invernais. O frio já chega.

As lareiras, nos mundos ocultos de cada existência, já vão ficando acesas, da Cova do Frade até à ponta mais distante de Arada. Não há ricos nem pobres, há lareiras e aquecedores, salamandras e mantas mais grossas. A agricultura prossegue, nos lados do Sobral, nos caminhos de Cimo de Vila, nos tratores que cruzam Cabanões. O Furadouro respira o aroma do mar a furar pela Avenida, Esmoriz, Cortegaça e Maceda exalam esse mesmo odor de mar, de maresia forte embebida na ondulação da chuva.

Os carros embaciados, as estradas molhadas, os passeios escorregadios, as escadarias do tribunal como autênticas montanhas do Everest. Tudo a acontecer e o Neptuno a descansar na sua poltrona de intempéries. O Santa Camarão, agora mais disfarçado, também espreita por entre os combatentes aquela queda de água que leva caminho de São Miguel para o centro. O cinema, tão antigo, tão cansado, tão em desuso, fica a pensar se aguentará mais este Inverno com todas as suas pedras. Ao lado, a antiga casa, agora no Parque Urbano, sorri. Terá nova vida, como teve a outra mais à frente, logo a seguir à BP, onde agora nasceu mais uma discoteca.

Lisboa tem o Tejo, o Porto tem o Douro, Coimbra tem o Mondego e Aveiro partilha connosco a Ria (o Cáster é nosso). Somos diferentes, todos somos diferentes, mas somos iguais em tantas coisas que não vemos. Nos invernos que chegam, nos Verões que foram, nos Outonos que nunca apareceram.
Os passeios pela Avenida da Régua desapareceram, as noitadas ao relento da Praça das Galinhas fugiram para o interior do café, os guarda-chuvas pingam no balde da entrada, os casacos despem-se a medo e as vitrinas embaciam-se. As pessoas falam mais sussurrantes, menos sumptuosas na ânsia de viver, mas o mundo acontece.

A Câmara abre todos os dias, as fábricas laboram no compasso das máquinas que aguardam os trabalhos vindos de fora, os computadores teclam e nas escolas o giz deslize pelas ardósias ou os marcadores pelos cavaletes. Os cadernos estão abertos e a atenção dispersa (não é todos os dias que temos dezasseis anos). As mulheres trocam o assento da porta de casa pelas Tardes da Júlia, os homens não desistem do dominó.

O café Ideal sente a falta de alguém, mas o bilhar está lá posto, o Bagunça não sussurra, o João Gomes não fecha as portas a ninguém que queira um petisco e o XS mostra a evolução dos tempos. Temos uma nova gelataria, um outro café/bar a mudar de gerência, uma praça sempre em movimento, um Progresso de há muitos anos em roupagem nova e contemporânea, a Casinha Júlio Dinis e o Oxalá a marcarem ponto, o Passo do Horto a nunca deixar ninguém indiferente, o João da Vareirinha a ser sempre o João da Vareirinha, as casas de Pão de Ló de Ovar, agora movidas a contemplação da sua Confraria, o Paciência com as bicicletas, o Ramada com o ferro, a Flex com os colchões, o Malaquias com o retalho, tudo a mover-se. E a chuva a cair.

Ricardo Alves Lopes (Ral)
https://tempestadideias.wordpress.com
ricardoalopes.lopes@gmail.com

http://www.ovarnews.pt/ovar-em-dia-de-chuva-ricardo-alves-…/

Exposição Ovarmemorias

Exposição Ovarmemorias

Ovar é uma cidade com história, famosa pelo seu pão-de-ló e resplandecida pelos seus azulejos, que não se esgota aí.

Ovar tem futuro e tem memórias. Aliás, o Ovarmemorias é o grande potenciador desta exposição que nos retrata o passado longínquo, o contemporâneo e a liberdade de expressão, para vivermos o presente e imaginarmos o futuro.

Com uma presença online, no Facebook, por todos reconhecida, o Ovarmemorias tem tido o papel fundamental de nos avivar o passado, para melhor compreendermos as tradições e os locais por onde passamos diariamente. Um dos marcos deste projecto tem sido a recordação saudosa que desperta nas pessoas, mas também a participação activa de tantos e tantos cidadãos que disponibilizam fotos suas e experiências. A Camara Municipal de  Ovar e o Museu de Ovar também têm tido um papel fundamental na projecção desta colectânea. Seja em foto, filme ou vídeo, somos presenteados semanalmente com estas viagens pelas idas décadas da nossa cidade. Ninguém fica indiferente às fotos do Furadouro, às imagens de uma Igreja Matriz, bonita e majestosa, posta no seu alto, no tempo em que os flashes disparavam a preto e branco, ou simplesmente nas ruas coloridas a carros que já nem nos recordávamos que um dia circularam.

Os mais jovens, sem essas lembranças, devem ao Ovarmemorias a possibilidade de conhecer uma urbe que, apesar de sua, nunca viveram. Enquanto os mais velhos, com a comoção de quem ama o seu recanto, regressam à sua juventude, ou até um pouquinho mais atrás.

Assim, pode-se constar que o Ovarmemorias, pela mão do Guilherme Terra, tem um alicerce do passado, mas nunca negando a evolução que a época que vivemos doutrina.

Fazendo uso de parte do espólio que nos tem apresentado e com a colaboração dedicada, e incansável, destas 24 pessoas que, com amor à fotografia e à cidade, subiram a gruas, procuraram os enquadramentos exactos, para captar a mesma foto tantos anos depois, criou-se esta exposição. Nela, pela óptica dos mesmos 24 fotógrafos, podemos encontrar ainda uma terceira fotografia dos mesmos locais, que surge como um complemento, uma expressão máxima da liberdade criativa de cada um, permitindo-nos a todos viajar pela nossa cidade, através da sua óptica e olhar, mas sempre mantendo as nossas percepções e sensações.

Não percam a oportunidade de apreciar cada detalhe, esmiuçar cada recanto, porque a nossa cidade é feita de futuro, mas também possui um passado e presente que nos deve honrar.

Ricardo Alves Lopes (Ral)

(texto redigido para a exposição fotográfica “1 Ano de Ovarmemorias 24=24+24”, da autoria de Guilherme Terra, em parceria com 24 fotógrafos ) 

Exposição Ovarmemórias

10567524_4273752937758_1566056214_nA minha contribuição é diminuta. Ofereci apenas algumas palavras, pequeninas, para enquadrar uma exposição e fotos que valem por si. Falam sozinhas.
São 24 fotos antigas, do maravilhoso projecto Ovarmemorias, que se vêem colocadas lado a lado com igual perspectiva dos dias de hoje e liberdade artística, por 24 fotógrafos convidados, dedicados e talentosos.
A inauguração é amanhã às 18h30 e estão todos convidados. Para o vosso bem. Vale a pena.
Parabéns pelo ano de existência, Guilherme Terra! Ovar agradece!