Saídas à noite

O que trabalhei na noite foi a servir copos, em barzinhos. Nada de muito glamour, era mais cerveja que Gin. Não obstante, sempre gostei de divertir-me, estar entre amigos, ouvir músicas e dizer baboseiras. Enfim, ser muito feliz com muito pouco. Porém, há coisa que nunca me há-de caber. O que é que faz de uma noite mais especial? Estar no mesmo sítio que nós uma moça ou moço, que apareceu na televisão por mérito duvidoso de personalidade, que não sabe dizer duas frases sem as asneiras ou três palavras sem erros? Sei lá eu bem o que é sair à noite, afinal.
E assim descobri que sair à noite não é coisa que me agrade, o que gosto é de estar com os amigos, seja na companhia do sol ou da lua.

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Conheço parte do Algarve

Estão a chegar ao fim, os dias pelo algarve. Têm sido intensos, vividos como se de uma rotina de trabalho se tratasse: pequenos planos a serem cumpridos.

Tenho visitado praias assombrosas, com penhascos de luz solar, com águas alternadas entre o azul céu e o verde esperança. É indiscritível a sensação de mergulhar por águas gélidas, com fundos reluzentes, com luminosidade própria, com rochas enfeitadas e peixes mexilhões. Nem a picada do peixe-aranha me faz mover desta opinião. Depois de anos e anos, férias e férias, pela primeira vez conheci parte do Algarve. Viajei pela nacional 125, deixei o sol crescer no pára-brisas e pôr-se no tejadilho. Permiti que a rádio tocasse movidas soltas, enquanto as árvores me desenhavam herdades, pequenos campos planos, até então desconhecidos.

Portimão é Portimão, tem praias tão belas, que me faz colocar a Rocha para segundo plano. Vive de uma urbe nocturna, que me leva ao R&B ou aos desvarios do Aoki. Vale muito a pena. Ferragudo é pacífico, inspira e expira paz, leva-nos a pequenos paraísos na terra, com mar. Um dos sítios mais belos por onde passei, entre rochas e rochedos, foi lá. Como se o mundo se tivesse alheado daquele pedaço de areia, coberta de rochas e banhado de mar. Alporchinhos, escadaria abaixo, leva-nos a mais um precipício de felicidade, a mais um banho de mar. Lagos tem uma agitação nocturna, por entre vielas, prazerosa, com o bónus de uma ginja servida num espaço a preceito. Não esquecendo uma praia, que dá pelo nome de Ana e se pronuncia com Dona, que apesar de lotada, nos fazia descolar para um voo de rapina, nos fazia mergulhar no céu e planar no mar. O que dizer de Sagres? Daquele Algarve tão mais ventoso, tão mais ondulado no mar, mas com uma beleza que se põe no horizonte, onde em tempos se pensava que era o fim, a falésia de água para outro mundo. Amo sítios que me remetem para uma pequenez, que tão grande me torna. A forma como fico pequenino a contemplar tão imponentes paisagens, tão perfeitos desenhos do além, faz-me sentir livre para viver. E como eu gosto.

Sábado, pela manhã, sairei para a última etapa destas férias, que tão feliz me tem deixado. Não me manterei por cá, mas continuarei ao sul. É mesmo o finzinho que se aproxima, contudo enchi os pulmões de um ar tão puro, tão puro, que espero me mantenha vivo até às próximas férias.

É bom viver.

 

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Rasgos de saudade

Com as férias entranhadas em mim; com o sol a dominar o meu dia; com as luzes brilhantes da noite a pedirem-me o relaxamento; a escrita tem estado presa, um emaranhado de dificuldade tomou conta dela. Não é perca de prazer, nem por sombras, é somente um desligamento momentâneo, um átimo de descanso.

Um ano é comprido, é extenso em responsabilidades e ingreme em tarefas, merecemos, por lei, uns dias de bloqueio, de paragem do movimento cerebral brusco. Estou a pensar com cordas presas na margem, sinto-me a correr dentro de água. Estou em descanso.

Não consigo, não tenho conseguido, escrever o que vocês merecem, o que eu gosto de vos dar. Não é presunção de assumo de qualidade, é somente a certeza que a cada dia. que vos escrevo, dou tudo de mim. Seja isso bom ou mau, é com certeza um relaxamento que daí em diante poderei aprender.

Quanto às férias, vou coleccionando memórias visuais, que jamais os anos apagarão por completo, seja pelas fotos que as máquinas e smartphones captam, sejam pela leveza de espirito que os mergulhos, por entre rochedos, me dão. Estou a saborear, a saborear muito.

Não estou esquecido, só merecia oferecer a mim estes dias. Dia quatro, estarei novamente em plena força, até lá vou tendo estes rasgos de saudade.

PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais detalhes sobre o livro que lançarei, lá para meados de Novembro, basta clicarem neste sublinhado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)

Estamos a horas do verão

Falta pouquinho, quando passarem nove minutos da meia-noite estaremos na estação do éden. Estaremos no papel, pois no céu falta-lhe cor. Qual cumprir calendário.

Estou farto de olhar para cima, feito tolo, sempre à espera que o éter me mostre o azul vivo, que Junho anuncia, Julho confirma, Agosto realça e Setembro despede. Era atestar a trivialidade da minha vida, dizer que vivo para o Verão, todavia a verdade é essa. Não vivo só no Verão, mas vivo, essencialmente, para o Verão. É um facto, que posso eu fazer?

Aquela sensação do saltar da areia para os pés, do gélido da água a entranhar-se no corpo quente do sol, da toalha sempre encorrilhada, das bolas coloridas a saltarem, dos guarda-sóis a ornamentarem a praia, dos corpos desnudos, das peles reluzentes amaciadas pelo astro-rei, das crianças a gritarem a inocência da idade, de tudo o que alegra os dias mais longos do ano.

E caipirinhas? De camisa, calções e havaianas, com a noite quente, a esplanada na areia, a lua a iluminar e o pessoal a curtir? Sem palavras. Aliás, como não há para os finos ou refrescos, de fim de tarde, com a namorada e os amigos. Ainda se lembram de como é sair do trabalho, ou das aulas, e ir directos a uma esplanada, que vos mimoseia com conforto e ilumina com o pôr-do-sol? As gargalhadas, ou sorrisos traquinas e alegres, são sem dúvida a melodia dessas horas.

Esqueçam a chuva que agora começou a cair… amanhã é Verão!

Por falar em Verão, se puderem passar em https://www.facebook.com/SamsonitePT/app_198028816891495 e fazer gosto no roteiro: “Ricardo Lopes – Barcelona, a fuga perfeita”, eu agradecia bastante : )

A ida a Coimbra

Este texto participou num concurso da revistaVolta ao Mundo, não foi seleccionado e agora partilho-o com vocês!

Maio de 2007, já conhecia a adorável Coimbra como a palma da minha mão. Já por ela havia viajado vezes sem fim, com loucas noites académicas, com divertidos passeios pelas faculdades, com românticos fins de tarde junto ao rio. Não eram mais que as viagens mentais que acompanhavam cada história, cada peripécia, que um amigo estudante me contava das suas semanas na famigerada Coimbra. Só tinha vagas passagens de infância por aquela cidade e já a amava como se fosse pertença do meu dia, da minha vida.

Chegou o referido Maio, o calor já emanava no ar, as t-shirts já substituíam os casacos, o sorriso dos dias solheiros já preenchia os rostos, quando me decidi que era o momento: o fascínio iria tornar-se lembrança. Armei o itinerário, conversei com o meu velhinho Renault 5, companheiro de aventuras, e telefonei, telefonei com o entusiasmo de quem sabia que era ali, Coimbra, onde queria estar. À mesma velocidade que essa excitação me dominou, quatro amigos me disseram que sim. Parceiros de vida e para a vida.

– Estou? Como é, vamos ter casa para o fim-de-semana? Somos cinco.

Ele respondeu que já lá deveríamos estar. Questionei se o outro e o outro não se iriam importar, prontamente me avisou que seria o contrário, que agradeceriam a visita. Então o que me falta para me tornar mais um apaixonado pela arrebatadora Coimbra? Falta-me combinar horas e seguir viagem. Assim fiz.

Naquele meio de tarde tomávamos um café na nossa terrinha, a ânsia não podia ser escondida dos nossos rostos, bem como o aumento de cinco para dez. Já não era apenas o meu companheiro, o meu Renault 5, que faria aquela viagem, já um Clio, cinco amigos, se haviam juntado a nós. A minha ânsia era agora o nosso desejo. Uns pelo anseio de regresso, outros pelo nervosismo de uma nova paixão que se criava, que se aproximava.

Em plena auto-estrada, o velhinho Renault movia-se pelo regozijo de quem nele estava instalado, o gasóleo a queimar era substituído pelo fumo da irreverência dos nossos cigarros, o barulho do motor pela sonoridade dos sorrisos sinceros, a chauffage pelos vidros abertos.

Desembarcados em Coimbra, uma viagem de carro por toda a cidade, não premeditada, apenas na procura do acesso exacto ao nosso aconchego para o fim-de-semana. O amor já crescia em mim, a cada traje que via a passar, a cada pessoa que me fascinava por espelhar o Mondego no seu olhar, a cada rua, esplanada, que me parecia tão diferente de todas as outras que já tinha conhecido na minha vida. Descobrimos, meio ao acaso, quando ligamos para saber o sítio exacto, estávamos à porta. Era na parte superior de Coimbra, bem juntinho ao hospital, numas galerias que tinham tanto de banal, como de apaixonante para mim naqueles dias. Seria a marca, a lembrança, da minha primeira grande experiencia em Coimbra. Foi mesmo.

Mochilas descarregadas, surpresas maiores. Qual o nosso espanto, não eramos os únicos a brindar Coimbra, a casa dos nossos amigos, com a nossa visita, talvez lá estivessem mais umas dez pessoas. Sacos-cama no chão da sala, quartos com cobertores no chão, cozinha enfeitada por sumos extra que fariam a delícia do pós acordar, das bocas secas.

A responsabilidade de saber que não era o momento para continuar a condução fazia-nos ligar para uma central de táxis: são 7 táxis para o hospital. Eles vieram, vieram mesmo, e levaram-nos ao restaurante, já bem pertinho do Mondego, daquela azáfama de uma Coimbra que só quem por lá passa compreende. Descíamos as escadas para a sala de jantar e ouvíamos os cânticos académicos, víamos os trajes a cruzarem-se connosco, os empregados loucos de trabalho sem tirarem um sorriso típico de quem faz a Coimbra que nos apaixona. Depois, veio a passagem da ponte já em grandes cantorias, a entrada no recinto, os encontros e desencontros típicos de quando a luz se baixa, de quando a noite é o palco de todas as histórias. Havia bandas a actuar, agora não consigo precisar de quais se tratava. Sei que havia também a tenda do Licor Beirão, do Red Bull, da venda do tabaco, as típicas roulottes para matarem qualquer apetite repentino. Acrescer-se-iam algumas histórias que agora não irei contar. Agora a ponte era atravessada já com a luz do dia, os cânticos já não eram gerais, alguns vergavam ao cansaço, outros às novas amizades, mas todos seguíamos o mesmo rumo, agora sem os táxis. Tudo o que desce também sobe. Subíamos cada rua como se fosse uma planície, tal o entusiasmo. Os vergados ao cansaço vinham passos, metros, atrás, viam uma Coimbra diferente, nunca a que irei guardar na memória.

Já era sábado, os sumos faziam de almoço com as torradas, as pessoas multiplicavam-se no chão, os vinte pareciam trinta, quarenta, cem, tal era a forma como preenchiam cada cantinho da casa. Saímos sem destino, só para sentir o cheiro, o calor, daquela Coimbra que, não passando a ser minha, seria um pouco minha. A passagem nos jardins da academia era obrigatório, não me tornava um estudante de Coimbra, mas tornava-me mais apaixonado pelos estudantes de Coimbra. Como poderia não me sentar junto ao Mondego, naquelas esplanadas ligeiramente abrasadas por um calor de Maio? Como poderia não calcorrear todas aquelas escadarias, aquelas pequenas entranhas, que tornam uma cidade num marco de história, de simbolismo?

Caiu a noite, a rotina da transacta vinha ao de cima, mas a sensação era a mesma do instante que lá havia desembarcado. Nervoso miudinho, de uma paixão para a vida.

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Rosto da Verdade

Joguinhos de sedução, enredos de conquista, palavras de proveito, criam o emaranhado de folias da vida estouvada, da dita curtição.

A loucura do sistema bem bebido, a dislexia dos movimentos, a turve da visão, o esconderijo das luzes baixas, os movimentos libidinosos dos corpos, as músicas de batida assertiva, a multiplicação dos copos de whisky, a soma dos de gin, vão fazendo o furor dos egos. O elogio, a palavra aprazível, torna-se a nota dominante de cada abordagem, das fugacidades de uma noite que se prolonga até o sol raiar. Vivemos anestesiados pela doce sensação de conquista, pelo acréscimo de auto-estima que a dormência de uma noite agitada em nós provoca.

Os dias são divididos pelo pagamento das horas que o corpo fica a dever à cama, pelas mensagens, via sms e facebook, que vão dando um prolongamento à loucura noctívaga, as fotos mais tarde irão asseverar que não temos a lembrança minuciada de cada pormenor que fez o furor daqueles badalados ensejos, os comentários ofensivos serão as brincadeiras a que nos vemos obrigados a aceitar. São os nossos loucos anos.

Repentinamente, com o sol a iluminar o nosso dia, com a clareza dos pensamentos lavados: um rosto de traços delicados; um cabelo longo entrelaçado entre si; um sorriso com um brilho difícil de descrever; um olhar enternecedor, pacífico; umas palavras de timbre doce, deleitoso; uma mulher incrível.

O nosso mundo está abalado, o amor entranha-se em cada pensamento, em cada movimento ou gesto de uma banalidade até ali desconhecida, os anseios de imprudência ganham contornos de indiferença, a determinação de viver a loucura da vida metamorficamente vira-se para um único ser, para um único olhar, cabelo, sorriso e rosto… rosto da verdade! Não é um rosto que emana a sua beleza de um desejo de descompromisso, é um rosto que nos espelha, um rosto puro e de contornos reais, sem imaginação bêbeda.

As cicatrizes de um coração trancado, de pessoas de índole mais dúbia, não nos deixam ver além de palavras, de desconfianças. O hábito dos elogios prazenteiros, não nos deixa perceber as falas de aviso, de demonstração de trilho de futuro. Existem mágoas de um dia termos magoado e termos sido magoados, existem receios de não ser o momento, existem resquícios de uma certeza forte: sozinhos é que é o nosso caminho.

Afinal onde estão os elogios?

Eles agora não surgem no momento exacto, não os podemos adivinhar. No momento que os ansiamos chegam as palavras mais duras, as advertências necessárias, no momento que não os aguardamos eles atacam-nos com a força que nos derruba as pernas, que nos faz o coração saltitar, que nos provoca um sufoco da respiração e um frio ameno que se propaga de extremidade a extremidade.

Este rosto, não é o que entra em joguinhos, o que se deixa entorpecer pelos desvairos de uma vida amontoada de diversão, é o rosto do amor, o rosto que não nos diz as coisas na hora que as esperamos ouvir, diz na hora que as merecemos ouvir… é o rosto da verdade!