A salvação do Nestor

No dia em que iam matá-lo, o Nestor acordou sobressaltado.

O tempo estava quente, a própria chuva tépida e o sol a recolher-se numa encosta ao fundo da montanha que pintava a piscina do seu jardim. O Nestor foi para o jardim. Sentia os assassinos a chegarem, as suas vozes as perscrutarem-se por entre as folhas. Os arbustos rangiam.

Olhava para trás e seguia. Sem destino. Sem rumo. Seguia.

E seguir, sem saber para onde, é fugir. O Nestor fugia. As vozes repetiam-lhe que não ia conseguir, que ia falhar. Atormentavam-no. Diziam-lhe: não tentes. O erro é o destino. O sofrimento é o caminho. E ele assustava-se mais e mais.

Corria cada vez mais. Lembrava-se das vezes em que verdadeiramente não conseguiu – e escorregou. Caiu à piscina. Caiu na água como uma folha. Leve. Ele, que pesava mais de 100 quilos e não sabia nadar, caiu na água leve. Era o Nestor a nadar.

Conseguiu. Porque não tentou.

As vozes da nossa cabeça são isto: assassinas. Por isso, quando me perguntam o que é preciso para ser feliz, eu respondo:

– Não querer ser feliz.

Quando queremos ser felizes, empurramos a felicidade à nossa frente como um carro de bois, numa descida, empurra os próprios bois. Passa a ser um objetivo. E os objetivos, quando não são tangíveis, materiais, fogem. Estão sempre a seguir ao ponto onde estamos. Por mais perto que estejam. Assim, ou o objetivo é material ou não é alcançado.

Isso é o que move os génios e inquieta os infelizes. A felicidade é o não procurá-la. É apenas a disposição para viver.

PS – Nesta piscina vivi uma bela festa. Uma viagem sem viajar. Em que criei uma moldura para este texto: a salvação do Nestor.

Naturalmente mãe

Foram 9 meses, com crescendo de dores, de mal-estar, de peso, de enjoos e apetites. Tudo sem saberes quem eu era, como eu iria ser, se sairia a ti ou pai ou se renegaria aos traços de ambos e iria buscar uma genética esquecida, os traços de outros tempos. Aguentaste a devoradora incerteza com um sorriso que me contam, que ainda não podia ver, mas que hoje consigo facilmente desenhá-lo no bloco das minhas memórias. O teu sorriso.

Foram horas de aperto, de sôfrego, com enfermeiras a dizerem «força Emília! Faça força» como se elas naquele momento fizessem alguma ideia do que estavas a sofrer, do esforço que já estavas a fazer, da forma como ansiavas por aquele instante que eu saltaria cá para fora e choraria, o único choro que eu iria ter que transmitiria alegria. O choro da vida. Eu sai, com percalços, com dias de atraso, mas sai. O teu esforço, a força que empregaste enquanto a chuva batia violentamente nos estores, arrastava cada ranco de árvore, criando uma chiadeira típica de um apocalipse, do crepúsculo. Mas eu sai, mãe, acima de tudo pela força que empregaste… não em ti, mas em mim!

Eu nasci, os primeiros meses não me mexi, levava a vida que hoje, em dias tristes, todos ambicionamos: comer, dormir e chorar. Talvez, quem sabe, também sorrisse. Mas sorrindo ou não, tu sorrias. Sorrias para a vida, porque eu sei, hoje mais que nunca, que para ti sou vida. Tu e o pai têm uma vida, uma vida em conjunto, mas eu vim dar-vos mais vida. Nem sempre certo, nem sempre correcto, mas sempre com vida. A vida que eu tenho é vossa, também é vossa. Obrigado, parece tão escasso, mas é o melhor que o dicionário me permite dizer: Obrigado!

Já fui rei, já fui roque, mas também já não tive rei nem roque, mas tu, vocês, sempre lá estiveram. Obrigado? Continua a parecer-me pouco. É impossível vocês saberem quem eu seria, no que me iria tornar, mas ainda assim não baixavam os braços, lutavam com uma cana a desbravar as silvas do incerto. Para, eu, um dia, não saber como essas silvas arranham, como provocam dor. Era só isso, quando me gritavas, que querias, não era mãe? Não querias que eu sofresse, que eu tivesse que pegar na cana que um dia foi tua, com a qual me abriste caminho para uma vida, que não sendo de sonho, é um sonho.

Hoje o dia é teu, mãe. Não é por uma imposição comercial dos dias de hoje, é pela forma como batalhaste na selva da vida, para que eu gozasse apenas na cachoeira que ao fundo conseguias ver.

Vem, traz o pai. Venham nadar neste pedaço de céu, na terra, nesta cachoeira em que me permitiste construir a minha vida. Esquece a selva, já a desbravaste, já me deste o céu.