A morte dá respostas à vida. Viaja!

A morte dá respostas à vida

(photo: @mickeyoneil)

Pessoas próximas, que não conhecemos tão bem assim, fogem-nos. Desaparecem num infinito que gostamos de imaginar como mar, o céu ou a terra. Mas não conhecemos. Sabemos apenas que é infinito.

Essa noção de distância inalcançável assusta-nos, tira-nos o chão forte para ser pisado e coloca-nos à procura de respostas, da costa. Não para a partida de quem foi, mas para o significado da nossa permanência. Misturamos o medo, o desespero e a esperança. É estranho, mas é assim. A esperança nasce, quase sempre, da ausência limite de esperança ou explicação.

A vida é curta.

É assim que elas nos aparece quando a ausência de sentido para as partidas assoma. Fugimos do medo, gradualmente, para nos aproximarmos da vida. Por isso, que, a partida de alguém tão próximo e jovem, seja sempre a abertura para algo novo. Uma nova nau que parte para a turbulência que é vida, mesmo quando o mar está calmo.

Porque, assim, a morte responde à vida – ou a vida dá resposta à morte. E essa é – e deve ser – a nossa homenagem para todos os que vão, mesmo os mais jovens. Um dia encontramo-nos todos. Na festa do costume.

Ontem punha-me um gosto num texto a brincar. Hoje não está entre nós. Descansa em paz, Paiva! E um abraço a todos os grandes amigos, família e meros conhecidos como eu, que se emocionam com estas coisas. A vida é curta e o descanso é eterno. No meio está o que podemos aproveitar. A viagem.

 

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O poeta enigmático – Herberto Helder

Herberto Helder

O poeta enigmático, que recusava prémios, não aceitava entrevistas, que foi pai de um famoso jornalista/político e que via os seus livros voarem das estantes, partiu hoje, com 84 anos. A poesia não fica mais pobre porque a obra perdedurará.

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

O Monstro Sagrado partiu

LEGENDS_089Em pouco mais de um mês, são duas lendas que partem. Saem em fuga pelo flanco, deixando um rasto de grandiosidade no relvado da vida.

Não voltarão a marcar nas balizas dos estádios, mas deixarão sempre o seu legado nos apaixonados da bancada e dos campos. Até à morte, Eusébio chamou-o de senhor. O senhor Coluna. Também foi o Monstro Sagrado. Mas, para a memória, fica o tanto que fez em campo e o tanto que fez pelos seus em Moçambique.

Foi o pai do Eusébio e o dono do nosso orgulho. Até sempre, eterno Coluna!

No Meco não era só praxe, percebam.

XPQUQowXX239035pNpAsNJhx9ZKUVivemos, normalmente, uma vidinha tão desinteressante, tão acelerada quanto um filme em pause.

As redes sociais, a mim me culpo, são um laboratório que necessita de histórias para misturar com opiniões e criar experiências explosivas. Algumas, digamos, oscilações nas nossas vidinhas, tristonhas e arreliantes. Qualquer fenómeno descontextualizado do costumeiro é um alarido. A saia da assessora do Cavaco, infeliz, fez esquecer que a mulher possa ser uma boa profissional – por muito que tenha dúvidas de qualquer qualidade num assessor do Cavaco e, notem, não por causa das saias. Mas mais do que isso, há insinuações e processos sumários a esvaziarem-se pelas redes sociais como rios pelos trilhos das montanhas.

Até aqui era o luto, agora é a luta de praxe e anti-praxe. Não me coloco em posição de assumir se houve ou não praxe, por muito que acredite que tenha havido. O que me parece descabido, conforme já havia dito, é que se continue a discutir tudo isso, nos fóruns de comentários, como se aqueles rapazes e raparigas, coitados, morreram, mas o caso é maior e nem interessa muito falar deles, são detalhes, figurantes do filme maior que rola na vitrine da vida. Depois, nos chicos-espertismos de defesa e ataque, lá aparece um defensor da praxe a dizer que a culpa foi dos pais que os deixaram ir, maldita seja a desgraça da inconsciência, ou então, do lado oposto, em cada trajado estúpido está um reflexo do país inteiro, bendita generalização.

Passei pelas praxes, fi-las, mais ou menos súbdito, mas nem por isso me interessei muito por elas. Não sou a favor nem contra, tiro um bocadinho de tudo. Borrei-me em ovos, ouvi palavrões e, a seguir, fui para um jantar, entornei uns canecos e socializei, conforme me apraz, com vários amigos. Sei, porém, que em alguns sítios as praxes passam o limite. No entanto, isso é irrelevante para definir um todo. Os recibos verdes também eram bons, alguns oportunistas é que os desvirtuaram. A liberdade de escolha deve existir – e existe -, porém, conforme sabemos, na juventude, sair da manada é assinar uma sentença de “betismo” ou de fim de vida social. Ou seja, será que o que devemos discutir as praxes ou os valores enraizados na sociedade, nomeadamente jovem?

Ao fim ao cabo, só queria dizer que a discussão é muito maior que abolição de praxe. Deixem-na lá, onde está, preocupem-se mais é com a capacidade que os jovens têm, ou não têm, de tomar decisões, gerir a sua liberdade, sem temerem a rejeição. O bullying acontece pelo mau de alguns, mas, também, pela falta de informação dos pais em relação a isso, pela incapacidade de preparar filhos para serem aptos a decidir, a saber que cada caminho que se escolhe é um que se deixa para trás. Isto não é uma crítica, é uma opinião.

E no fim, respeitem isto tudo que se passa. O que é que interessa defender e atacar a praxe, quando ali, naquela praia, só estavam alguns, poucos, e que morreram?

A ser verdade que foi praxe, só se define a certeza de que um Dux era parvo, inconsciente, e possivelmente os outros, os que tristemente nunca mais cá estarão, também não tiveram a coragem de decidir por outro caminho, ou seriam iguais ao que estava seguro da areia. Não sabemos. E essa é que é a resposta: não sabemos, porra.

Lá foi o Aníbal

Não podia ser. Sozinho no cimo da cama, a passar a mão pelo vazio de um lençol que sequer se encorrilhou, muito menos se aqueceu. Sozinho.

As palavras presas no céu da boca, como um pedaço de carne empapada que não foi deglutida. A mão suspensa, procurando amizades que uma vida de partilha esculpe, como um dorso do poeta. As mesas da sala e da cozinha vazias, despejadas de conversa e à procura das chávenas que as lapidavam. Pungente, a chuva bate mas o coração abranda.

Onde estás, Lena? Responde-me, diz-me para onde foste que eu vou buscar-te, trazer-te para o meu sítio, que é o nosso. O corpo já não me permite novas vidas, como sabes. Estavas lá quando o doutor disse que isto agora era a caldos de galinha, que até o meu tintinho tinha que acabar. Anda-te embora, Lena, o teu sítio é aqui ao pé de mim, a sossegar-me as dores e a abraçar-me as angústias. Já sabes que a vida é para ser refilada, mas refilada sozinha já não tem graça. Eu até ao café deixei de ir, mulher, e agora é que tu me vais! Anda-te embora, Lena.

E o tempo passava no ponteiro como um comboio na linha de ferro de um apeadeiro, imparável. Os anos já não se moviam como forças a serem conquistadas, somente se amontoavam como recibos de contas da luz na gaveta do móvel de entrada. O Aníbal, certo de que o corpo já não respondia, compreendia que tinha que viver uma nova vida aos setenta.

Mas não, fechou os olhos, deixou a manhã cair na janela como uma gota de água na caneja. E partiu. Não foi o coração, não foi as artroses, tampouco o fígado. Foi a saudade.

O grande Lobo Antunes

Permitam-me. Sei que, para a maioria, é impossível ler Lobo Antunes, que é chato e difícil. E lá isso é, difícil, agora chato é uma questão de hábito. Não fosse o facilitismo dos livros de história contada na contra-capa e ele aqui, no nosso Portugal, estaria a gozar do estatuto que tem lá fora. Mas, pronto, isso há-de discutir-se na altura devida, quando partir e se falar da Amália e do Eusébio no Panteão, que aí, por ser escritor, há-de ser uma vergonha não ir para lá.

Porém, isto foi só desabafo. Leiam-me, mas é, esta crónica:
http://portugalglorioso.blogspot.pt/2014/01/brutal-portugal-visto-por-lobo-antunes.html

O preto na aldeia

aldeia, preto, morte, caféChamava-se Nuno e vestia sempre uma camisa aberta. Não importava a cor, o padrão ou o corte, sempre camisa. Ao menos, desde que chegará à aldeia. O Nuno era negro e vinha de Angola. Montou lá um negócio, onde era o patrão da construção das estradas. Diziam os velhos da terra:

– Isto está tudo mudado, agora até os pretos mandam!

– É verdade. – Respondiam os outros, sem ordem. Numas vezes falavam uns, noutras outros, mas falavam sempre.

Era uma aldeia de costumes, sempre distante dos computadores e televisões por cabo. Os tdt’s só chegaram por prenda de natal. No café, o Central, era onde morava o casal jovem. Patrícia e Carlos. Depois de alguns anos fora, como todos os outros petizes, decidiram regressar. Aliás, o Carlos decidiu voltar e a Patrícia não teve outro remédio. Ela não queria, estava de bem na vida que fruía. Já era uma advogada bem paga.  Mas ele, o Carlos, com a chegada dos imigrantes de África e do leste, estava desempregado das obras que tanto lhe haviam dado de comer nos primeiros anos. Andava sublevado e resolveu pegar nas poupanças dos pais dele e da Patrícia, para montar o café da aldeia. Os velhotes agradeceram, já dava para bater as cartas e falar do nada que por lá se passava.

Não gostavam do Nuno, contudo ficavam felizes de o Nuno por lá estar. O preto era conversa. E conversa era coisa que havia pouco por ali. Ele, apreciava acabar o dia de labor e ir beber uma cerveja ao Central. Punha-se, de camisa aberta, no balcão e pedia uma, duas, três, quatro, cervejas. Comia uma sande e chegava-lhe. A Patrícia servia e o Carlos comentava com os velhos da fraca figura, do repúdio que lhe dava. Eles assentiam e diziam como se ele lá não estivesse. E não estava. Não lhes ligava.

Um dia, chegou o Máximo, um dos velhos da aldeia, e disse:

– Já viram o preto morto junto à obra? Acho que lhe deram com um martelo no peito.

A Patrícia carpiu, disfarçando mal a inquietude, das saudades do peito do negro à vista.

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