Qual destino?

Destino Douro

Quando não controlamos o rumo dos acontecimentos, o vento bate nas nossas convicções – como uma rajada que abana as velas vindo de estibordo – e obriga-nos a seguir outros rumos. Como desculpa, dizemos:

É o destino.

Quando as coisas se compõem, o cosmos une-se para nos acender uma luz no caminho e dizer: é por ali. Não hesitamos:

É mérito.

Mas a vida não é uma linha recta. Tem curvas, oscilações e marés. Como o Douro. Faz encostas e vales. No entanto, o segredo é sabermos que se olharmos só para uma encosta é uma montanha para subirmos. Se olharmos só para uma oscilação do terreno é uma barreira para o destino. Se olharmos só para as marés são um perigo. Mas se olharmos para a paisagem é uma das zonas mais belas do mundo.

O destino é uma farsa para o que não conseguimos controlar. Mas a maior lição dele é: quem conduz, se souber que o leme é para andar solto, apreciará muito mais a viagem. As oscilações são a viagem. O conjunto das montanhas, vales e marés são o destino. O que não guiamos, mas fazemos.

Leme solto e curvas a serem aproveitadas. Este é o segredo da maior viagem sem viajar que podemos fazer. A da vida.

O que está para lá dos montes?

Montes e Montanhas

Felicidade.

Tenho quase a certeza que cada montanha esconde alegria.
Do outro lado está relva por onde nos atiramos, a molhar as calças e a deslizar. A pintá-las de verde! Tenho a certeza disto. Sempre que passeava com os meus pais – e passávamos por montanhas – era isto que sentia.

Lembro-me, por exemplo, de passearmos pelo Minho e eu ver montes e passar horas – todo o caminho – a pensar como seria do outro lado. Sorria. Com o pensamento, as piadas dos meus pais e a música que tocava. Tantas vezes Kelly Family! Talvez os meus pais tenham mais jeito para fazer filhos do que para escolher música, mas é inevitável ela ser uma boa lembrança. É a banda sonora das férias na infância. Ou de umas que me marcaram.

Os problemas surgem na nossa vida e podemos vê-los como vales para coisas melhores. Sobem muito, descem e depois sobem novamente! A pique! Tantas vezes para pontos mais altos que os anteriores. Por isso, pelas ondulações, o desconhecido fascina e faz medo. É sempre assim. O fascínio tem que vir do medo. Mas porquê que não guardamos esta lembrança boa das montanhas que mostram o desconhecido como a capa duma coisa boa?

Não sei a resposta. Mas sei que hoje pensei nisto e não tive vertigens com a altura das montanhas. Tive saudades das férias com os meus pais. Não fumava, não temia o medo e procurava o desconhecido. Hoje ainda procuro. Mas tenho medo. E fumo (foda-se)!

Somos todos assim, tirando a parte do fumar, não é? Acho que isso é bom. Faz-nos novas montanhas. As russas que são a nossa vida. Sobe e desce. Sobe e desce. Sobe e desce. Vivemos.

E, pronto, foi nisto que pensei hoje ao ver as montanhas quem pintam a vista do meu emprego.
É bom ser feliz e ter recordações da infância – mesmo que elas impliquem músicas dos Kelly Family. Lembramo-nos que para lá das montanhas está a felicidade.

Obrigado, Oliveira de Azeméis. Lembraste-me a infância e fizeste-me viajar pela minha segunda viagem sem viajar. Este blog começa a ser real.

PS – Esta era a música dos Kelly Family que tocava: https://www.youtube.com/watch?v=1viSfRzI8to
Os gostos podem ser discutíveis. As lembranças não! São como o que está para lá da montanha: uma projecção nossa!

De uma troika à outra, ficou tudo na mesma.

troika, portugal, rural, tudo na mesmaNão era de grandes alturas, era pequenito até. Cansava-se todo na subida de escadas demoradas, era cândido na voz e meigo nos gestos. Era um homem normal, vindo do lugar das montanhas sem mar.

Tinha chegado do interior para o litoral, quando era novo. Pela Lisboa, badalada nos guias do turismo, fez família. Conheceu a sua Antónia nos anos oitenta, quando por cá andava a troika, montou casa e fez filhos, quando os fundos da europa enchiam as algibeiras, na década de 90. Foi feliz com o seu negócio das cozeduras, em parceria com a mulher que leva para a vida. Muitas vezes visitou a aldeia, com viagens de rapidez, pelas auto-estradas da moda. No interior encontrava tudo igual, com as famílias a almoçar e jantar no barro, a cozinhar na lenha e a viver no campo. Tudo coisas conhecidas, que as ruas da capital fizeram esquecer. Não tinha saudades graúdas, bastava-lhe as viagens no Natal, nas férias e em uma, ou outra, data do acaso.

Depois do Euro por Portugal, perdeu a Antónia para as foices da doença. Morreu-se nas mãos do cancro, e ele sofreu muito. Chorou muito as saudades grandes, mas manteve o negócio dos sonhos deles. Alimentou os filhos e deu-lhes estudos. Fê-los gente séria, senhores doutores.

Faz agora um ano que eles se foram para a França e Brasil. Ela enfermeira, ele do design. Diz-se que estão bem de vida e até enviam ajudas.  Mas o Cristóvão já tornou à terra, com o negócio falido e sem mais que almoços e jantares no barro, feitos no lume da lenha, enquanto anda pelos campos. De uma troika à outra, ficou tudo na mesma.

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