O medo

Medo - BenficaTenho medo. Não há dia que não tenha medo. A maioria de nós passa a vida com medo, aliás. Medo que não nos percebam bem, que nos interpretem mal, que não vejam como somos incríveis, ou de errar. Todos temos muito medo de errar. Mas não pelos motivos certos. Temos medo de errar porque temos medo do que os outros pensam. Mas no futebol, este ano, não. Tenho um medo diferente. Tenho medo de nós. Tenho medo que a época passada nos tenha feito acreditar que podemos tudo, independentemente de tudo. Não é verdade. Ganhámos porque respeitámos os outros. Não mereciam o nosso respeito, mas respeitámos. Só não tivemos medo. Fizemos das fraquezas forças.

Esta época, tudo será diferente. As fraquezas continuam a ter que ser forças, mas é preciso mais. A pressão é maior. Não é um, são dois a querer derrubar-nos. Mais do que nunca! A hegemonia de qualquer um necessita ser combatida, mas a do maior (que movimenta mais pessoas, jornais, estados de espírito) muito mais. E isso engrandece-nos, mas também nos assusta. Somos adeptos de coração: derrotistas quando uma pedra cai da montanha, como se viesse derrocada; e optimistas de mais quando nasce uma flor, como se fosse sempre primavera. Temos que controlar isso. O ano passado foi o ano passado, este ano é este ano. E ser bons não chega, precisamos ser invencíveis.

Eu acredito, mas tenho medo. Medo de nós, não dos outros. Medo que possamos acreditar que tudo está mal e se vai recuperar porque o ano passado foi assim, ou medo de que à primeira vez que corra mal já nada possa correr bem porque já correu o ano passado. E nada funciona assim. Cada ano é um ano. E este pode – e deve! – ser novamente o nosso ano!

Ontem, o resultado foi feio, mas o sol foi lindo. O sol da nossa presença. Que nunca o percamos! ‪#‎RumoAoTetra‬

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A doença do medo


Doença do Medo

A modéstia, tão pomposa nas corriqueirices de vidas amordaçadas, é só uma segurança da cobardia. Ajustar as nossas vontades às nossas crenças é apagar os públicos e vivermos para nós.

Não é fácil anular as expectativas quando procuramos as maiores certezas de que não falharemos. Acertar é bom, mas não falhar é mais cómodo. Então, raras vezes dizemos que não sabemos porque não sabemos. Dizemos antes, isso sim, que temos uma ideia quando não sabemos e que somos mais ou menos quando temos a certeza que somos bons. Defendemo-nos. Passamos a vida a defendermo-nos.

Essas defesas, como paredões em praias desabrigadas, servem para baixarmos a fasquia e lidarmos melhor com as asseverações alheias que, tantas vezes, vêm de desconhecidos que valem tanto na crítica como a nossa própria consciência. Aliás, são talvez eles a nossa própria consciência. Criamo-la em função da manada e desligamos o interruptor da nossa criatividade. É melhor ser um em muitos do que ser o falhado, que falha (e falha e falha!) até acertar.

É mais confortável viver assim, sem dúvida, porque nos sentimos sempre mais protegidos e acompanhados. Mas essa sensação, sacana, não é mais do que uma falsa comodidade, que nos deixa presos ao sofá de molas soltas, quando temos um colchão de água, desafiante, com espelhos no tecto, do outro lado da porta. Mas a coragem é a crítica, a capacidade de ouvi-la e manter impassível a nossa crença – só ouvindo o que, realmente, merece ser ouvido.

A imodéstia, que é o mesmo que dizer coragem, quando trata assuntos que realmente dominamos, traz a responsabilidade e, pior, a responsabilização. E isso é que assusta! Há pessoas que dizem que temem apenas a morte e a doença, mas isso é mentira. A maioria teme a necessidade da escolha, a obrigação de decidir e a responsabilidade de assumir o erro, que só mais tarde poderá valer uma vitória. A doença é só uma fatalidade.

Política do Charlie Hebdo e cães abandonados

Charlie Hebdo - Política

Em Paris, a cidade luz que ontem tentaram apagar, hoje nasceu mais um dia cinzento. Os acontecimentos do Charlie Hebdo já rogavam um pesar rugoso, que ainda se alastrou mais hoje com um tiroteio logo ao começo dia. As manhãs estão a ser sangrentas, sejam ou não movidas pelas mesmas facções.

Eu não sou um entendido das matérias religiosas, pela minha descrença em relação a cultos. Compreendam, tenho fé, acredito piamente que todos devemos ter fé, apenas não creio que devamos medir os nossos credos pelas regras que nos ditam. Acho que o extremar, como em tudo, é malicioso. Mas vivemos numa sociedade que, inconscientemente, apela aos extremismos. Não podemos ser donos de personalidades fortes, se não atacarmos um lado para comprovar o nosso; não podemos ser a favor de algo, senão estivermos contra outra coisa; não podemos ser demasiado centristas (sem conotação política), senão só estaremos a tentar agradar a deus e a diabo. E vamos vivendo em saltos de um extremo para o outro.

Claro que nenhum destes extremos acima referidos se pode comparar aos que ontem assistimos, mas podem levar-nos a outros males que não estamos a idear. A Le Pen, como sabemos, ganha terreno em França. Imaginam quanto mais terá ganho com as ocorrências de ontem?

Ela, certamente, esfregou as mãos, por muito que possa ter sentido a dor de ver pessoas serem assassinadas daquela forma. A política não se separa da tragédia, conforme a nossa caríssima Ana Gomes, eurodeputada do PS, fez questão de lembrar no seu Twitter. Mas há algo em que não cogitam: o mal que se passa no lado de lá, no Médio Oriente, é o que passa para cá. Xiitas e Sunitas nunca se vão entender, entre outros grupos dispersos de uma religião que tem tanto de confuso, com os primos que deviam ter liderado, por testamento, e não lideraram, como de sangrento.

Mas o que podemos fazer? Levantar uma guerra contra eles? Usar as mesmas armas que eles usam para atacar-nos? Não creio. Acho, antes, que devemos ser todos um pouco de Charlie Hebdo. Mas temos que ser Charlie Hebdo na política. E, garanto-vos, ser Charlie Hebdo na política não é simplesmente expulsá-los, isso seria apenas fazer o jogo que eu fazia com a minha mãe: esconder os brinquedos debaixo da cama, para ela acreditar que tudo estava arrumado.

Sermos Charlie Hebdo na política é termos coragem de os afrontar, esquecendo petróleos e armamentos, e deixarmos de ser uma Europa e um Mundo, que tenta esquecer a existência deles, na esperança que eles próprios se matem uns aos outros. No fundo, a política mundial, perante o Alcorão, deve ser o que eu sou perante um cão raivoso que me assusta. Se correr, ele vai correr mais atrás de mim; se mostrar medo, ele vai atacar-me na hora; mas, se for indiferente, ele vai ficar confuso e, em certa medida, bloqueado.

A política europeia e mundial tem que passar a ser o transeunte que caminha, sem mostrar receio do cão abandonado e com raiva. Muitas vezes, ele só quer atenção e carinho. Mas, se vivermos toldados pelo medo, a procurar sucessivamente atravessar a estrada, só lhe estaremos a dar mais motivos para nos atacar.

E, para finalizar, deixo uma nota, que espero compreendam: a generalidade dos cães abandonados não são raivosos, esses são uma minoria. A maioria dos cães abandonados são dóceis, sofridos e só procuram abrigo atrás dos mais fortes.

O medo

medo, receio, cobardia, desacompanhados

Podia temer o não conhecido,
É aceitável, uma mesinha comummente
Utilizada pelos cobardes, pelos escondidos
Nos arbustos da desgraça.

Ele choca no vento, bate no oceano,
Colide com a natureza
E fortifica-se no humano.
Ele é o medo.

Eu sou o antídoto, o mal do mal,
Como um ataque do imperial,
Uma oferenda do incerto,
Um caminho caminhado do certo.

Na verdade, eu sou o que sou,
Seja lá eu o que for.
E ele, ele é o medo,
O companheiro dos desacompanhados.

Ral
http://www.bubok.pt/livros/6257/Realidades

Os meus medos

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Não é fácil falar de medo, temos medo. As palavras são, normalmente, muito pesadas e quase proféticas. Proféticas no oposto, umas tantas vezes. Pensamos nelas e dizemos, transmitimos aos outros e, de repente, num assomo, estamos acorrentados a elas, a caminhar no sentido inverso.

Quando era mais miúdo, depois de uma experiência traumática, ganhei medo dos cães, ficava apavorado se eles viessem na minha direcção. Hoje, já não é assim, sou menos medricas e já posso aproveitar um bocadinho da maravilha que eles são. Desde sempre, tive vertigens. É uma coisa chata e que nos rouba paisagens lindíssimas, mas agora até já consigo estar em alguns sítios altos e relaxado. Primeiro, consegui ver alturas no horizonte, actualmente até já vejo algumas a pique. Fiquei feliz, claro, contudo ainda existe caminho a ser feito, para sonhar subir no elevador da Torre Eiffel, por exemplo. Aos pouquinhos.

Outro medo grande que tenho é do fim e do bloqueio de vida. Temo uma vida desinteressante e sem utilidade, como que uma vida que aguarda o fim. Gosto de agitação, que não precisam de ser férias, festas ou grandes loucuras, gosto somente de saber que tenho um objectivo, que quando tudo falhar ainda terei alguma coisa que me faça mover. Preciso de objectivos, quase como preciso de ar. Talvez até precise mais de objectivos, pois eles são o meu ar. Respiro-os. Não fui sempre assim, é certo, mas cada vez mais me revejo nessa vontade de ter algo que fazer. Amedronto-me, de verdade, com a possibilidade de não ter o que me mova. Temo, também, a morte, por ser uma sentença. Não gosto de sentenças, gosto de permeabilidade, gosto de ajustes a novas realidades.

Tenho companhias de sempre, como a minha cabeça e os meus pensamentos, mas temo que também eles me fujam na fraqueza. Admito, sempre temi a velhice, o receio de um quotidiano demasiado pacífico, porém isso mudou. Percebi que a pacificidade só acontece se não tivermos paixões e vontades. E eu tenho. Não tive sempre, fui conquistando. Hoje já não temo tanto a velhice, penso que se chegar a ela com força nos braços e poder no pensamento, terei sempre a escrita, e isso é um conforto. No fundo, escrever tornou-se o meu regaço, o sítio onde me recolho quando tudo o resto falha.

O medo que tenho, afinal, é que a escrita seja o meu único refúgio. Quero escrever para sempre, mas quero escrever para sempre do que vivi e sinto. Gosto de ficcionar, mas gosto de me encontrar em cada ficção. Enfim, tenho medo de deixar de ter medo. É isso, tenho medo de deixar de ter medo. Quero um refúgio, e para ter um refúgio preciso de ter medo de ficar sem ele. Ah, e também tenho medo de não ser tudo o que quero ser. Mas isso não é medo, é ambição!

Ral
http://www.bubok.pt/livros/6257/Realidades

O sol que nasce em nós

Não está absolutamente pesado, mas está diferente. Sinto uns nós, de atacas, que não me permitem que o ar circule normalmente. Custa, faço cara de esforço para o ar descer, lento, pelas paredes da minha garganta. O caroço parece estar maior.

É sufoco, portanto. Não estou triste, mas não estou feliz, estou pensativo. Com saudades e medos. Sei o que quero, e quero sempre o que quero. Não existem complicações ou demasiadas derivações. É simples assim: quero o que quero e pronto. Quero-te a ti, claro. Quero-te sempre juntinho a mim, com doces prazeres de vida, com sorrisos de elixir de vida eterna. É a ti que eu quero, como sempre foi, como não me imagino a deixar de ser. É a ti e pronto.

Hoje o sol nasce ao fundo, lá para os lados de Marrocos e vai subindo, devagarinho, devagarinho, até chegar a minha casa. Vem com aquele amarelo alaranjado dele, fica-lhe tão bem. E mexe comigo, faz-me sorrir para ele, como se sorrisse para ti, ele é afinal mais uma coisa em comum entre nós. Vemos, e sentimos na nossa pele, o mesmo sol. São as mesmas estrelas que caiem sobre nós e o mesmo vento que nos sopra. São tantas coisas em comum.

Não vim para aqui fazer declarações, vim sorrir para o que sinto por ti, como sorri para o sol que nasceu em ti e que se vai pôr em mim. Que vai anunciar a chuva de estrela, que vem no reluzente da noite, e nos apadrinha o beijo. O tal beijo, aquele que quero mesmo dar, sorver e oferecer. É o tal beijo que eu quero. Sempre.

PS – Já sabem que para saber mais sobre o livro que, em princípio, irei lançar, é só passarem aqui: https://www.facebook.com/groups/118634761614210/