Olhar o mar, apreciá-lo e… Fazer ou pensar?

Mar - pensar ou fazer

É uma pergunta que me assola muitas vezes. Nós somos o que fazemos, não o que pensamos. Mas se fazemos sem pensar, também não estaremos a ser demasiado vazios?

É complicado, isto de ser existencial. Viver para experimentar. Pensar para compreender. Tudo está agarrado a algo, como se vida fosse um ventríloquo. Os braços do pensamento dão voz à existência. E ela acontece fora do nosso alcance. Desprevenida, descontraída e impossível de prever. Como tem que ser.
Mas, depois, porra. Não basta ser. É preciso parecer. Fazer!

Mais do que ser, fazer. Porque o fazer é que nos faz ser. A prova disso? Pensei muito em mergulhar, mas só depois de mergulhar me senti livre. Molhado. Feliz. A viver.

O pensamento é um subterfúgio do não fazer. Pára. Estanca. Pensa. E, se pensas, não fazes. Portanto, fazer sem pensar não é o ideal. Mas é melhor que não fazer. Dá aprendizagem, crescimento. Faz pensar. E o bom do fazer é isso:

Permite pensar com conteúdo.

Portanto, mergulhei. E, depois, pensei: está fria. Se tivesse pensado antes, o frio já me estaria a alarmar antes de o sentir. E o que pensamos antes de sentir não é accionável. Não é controlável. É só dor.

E o frio depois do mergulho foi, afinal, o alívio do calor. Tão bom.

#MaisUmaViagemSemViajar

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A morte dá respostas à vida. Viaja!

A morte dá respostas à vida

(photo: @mickeyoneil)

Pessoas próximas, que não conhecemos tão bem assim, fogem-nos. Desaparecem num infinito que gostamos de imaginar como mar, o céu ou a terra. Mas não conhecemos. Sabemos apenas que é infinito.

Essa noção de distância inalcançável assusta-nos, tira-nos o chão forte para ser pisado e coloca-nos à procura de respostas, da costa. Não para a partida de quem foi, mas para o significado da nossa permanência. Misturamos o medo, o desespero e a esperança. É estranho, mas é assim. A esperança nasce, quase sempre, da ausência limite de esperança ou explicação.

A vida é curta.

É assim que elas nos aparece quando a ausência de sentido para as partidas assoma. Fugimos do medo, gradualmente, para nos aproximarmos da vida. Por isso, que, a partida de alguém tão próximo e jovem, seja sempre a abertura para algo novo. Uma nova nau que parte para a turbulência que é vida, mesmo quando o mar está calmo.

Porque, assim, a morte responde à vida – ou a vida dá resposta à morte. E essa é – e deve ser – a nossa homenagem para todos os que vão, mesmo os mais jovens. Um dia encontramo-nos todos. Na festa do costume.

Ontem punha-me um gosto num texto a brincar. Hoje não está entre nós. Descansa em paz, Paiva! E um abraço a todos os grandes amigos, família e meros conhecidos como eu, que se emocionam com estas coisas. A vida é curta e o descanso é eterno. No meio está o que podemos aproveitar. A viagem.

 

Ano Novo

Ano NovoSol, mar e alegria. Peles morenas. Pensamentos vazios. Noites mal dormidas. Luares a nascerem entre festas de arromba e músicas do Henrique Iglesias e DJ Snake. Bailando.

Assim é o agosto. O agosto que hoje termina e põe à prova todos os que um dia leram o texto da Sumol e pensaram se estavam ou não na idade do chinelo, se desejavam ou não dizer-lhe “não te falo” quando ela chegasse. Se ficavam todos nervosinhos se não trocassem de carro de 4 em 4 anos. Este é o mês que afoga as preocupações em mares revoltos e deixa a alegria à tona como uma bóia de menino em uma tarde de piscina. É o mês em que se trocam as mesas de restaurantes com toalhetes brancos de papel pelas beiras de piscina e relvados ao lado da churrasqueira. É o mês onde se estoura mais dinheiro e se diz: Eu mereço!

Setembro é o mês onde se olha para a carteira e se diz: foda-se, não devia ter gasto tanto. Onde aparece o sol entre as nuvens e se pega nas toalhas e vamos à praia. Mas já não é igual. É mais morno, mesmo que o sol queime mais. É uma tarde de praia, não é um mês de praia. Custa. Faz sofrer. Leva a partilhar fotos nas redes sociais a dizer “volta, verão”. Mas também é o mês onde os meus pais fazem anos de casados, o meu pai celebra mais um aniversário, vários amigos meus fazem anos e um amigo e uma amiga até se vão casar. Setembro é o mês que desejamos que ele seja.

Não pomos o corpo ao sol tantas vezes, não gastamos tanto dinheiro em especiarias da vida que nos fazem sentir mais felizes, mas é um mês. E um mês que merece ser vivido. Um mês que nos diz que, depois dele, já só faltam 11 meses para o próximo agosto. E que pelo meio vai meter outono, inverno e primavera. É um mês onde começa o ano. E ai de quem diga que é em janeiro. Setembro é o começo do ano. Do novo ano.

Notas de Verão #2

Notas de Verão #2Bom, tão bom que tenho andado a escrever notas sobre o Verão (esta é a segunda). E o verão também é isto. Um fininho de fim de tarde, numa esplanada, no café com os amigos, a deitar fora uma conversa com pessoas que nos cruzam o cosmos de uma vida que é mais ligeira nesta altura em que os fatos se substituem por calções e tshirts, as botas por sapatilhas e, no limite, as sapatilhas por havainas.

O verão é uma ligeireza que nos contagia. Mas também tem desporto. As caminhadas até à praia e ao mar, as elevações até ao topo do guarda-sol para apanhar as frutas guardadas na geleira e as flexões para sairmos da toalha. Tudo é desporto. Contudo, também há os jogos de pré-época, para os mais doentes, como eu, vibrarem. É o clube que regressa aos treinos, os jogadores que precisam de ser avaliados se não estão acima do peso e os jogos contra os distritais de outros países, em campos no meio das montanhas. É tão bom!

No entanto, de 2 em 2 anos há um corte nestas rotinas. Há grandes competições de futebol, mundiais e europeus. Que maravilha! Os melhores do mundo a desfilarem no ecrã ao fundo da esplanada onde nos sentamos, a tocarem de calcanhar e a rematarem de fora da área, ao compasso de cada um dos nossos goles na cerveja. O que há de diferente este ano é Portugal na final. Estamos habituados a vibrar até aos quartos e a relaxar até à final, já a ver os jogos de pré-época dos nossos clubes. Este ano é diferente. Há história para ser escrita no domingo. Já há uma escrita, até hoje. Mas domingo é para melhorá-la. E beber uns canecos!

Mar como testemunha

Mar como testemunha

Quanto mais percebemos, mais nos distanciamos. Pensar é uma idiossincrasia que nos atrapalhe tanto quanto nos favorece.

Se pensarmos no mar, é apenas o azul molhado que nos toca a costa; é o local onde esbarramos o corpo no verão e deixamos a salitra mergulhar-nos o olhar. O mar é onde vivem os peixes e onde se põe o horizonte. Mas o mar não pensado – o sentido – é o lugar onde afogamos as nossas agitações, o sítio onde mergulhamos a nossa alegria e o poiso onde criamos o nosso sorriso. Pobres dos que nunca o conheceram, mas mais pobres ainda dos que nunca o sentiram.

O mar não é frio nem é quente, é o momento. Gosto da paz dele para pensar, pensar tanto até ao ponto em que só sinto. E o pensamento só é bom para isso: para nos explodir. Se o pensamento nos explode em mais pensamentos, estamos tramados. Se o pensamento nos explode em sensações, estamos no mar da vida; aquele que desagua nos nossos desejos e cresce nos nossos sentidos.

O mar é sempre testemunha, no seu azul diurno ou no seu acastanhado de fim de dia. O mar é sempre o mar e eu sou sempre eu. Isto foi ontem depois do trabalho, mas podia ser hoje antes do labor. Importa é que, mesmo que o sol se ponha, o mar fique.

Parabéns, Mãe!

Parabéns, MãeDecidi trazer a minha mãe para a internet. Nem ela nem o meu pai aderem a estas modas do facebook, ou mesmo das tecnologias. Podemos chamá-los de desactualizados, retrógradas, desinformados, que tudo isso pode ser verdade, mas não é nada disso que me importa.

Nenhum deles tirou um curo superior, nenhum deles teve uma vida com o glamour que merecia, todavia, sempre me entregaram tudo numa bandeja. Até bem tarde, nunca percebi tantas das dificuldades que atravessaram, tantos dos desertos que me transformaram em praia. Eu olhava, é certo, mas via apenas o mar. Eles é que sentiam a areia, rochosa, a espezinhar-lhe os pés, enquanto me levavam num colo caloroso. Estendiam-me a toalha, para eu não sentir como a areia fervia; punham-me atrás o para-vento, para eu não notar como as nortadas afligem. Faziam tudo para que eu não me magoasse, para que não percebesse que o vento nem sempre sopra a nosso favor. Para alguns, isso será errado. Para mim, em parte, também o é. Hoje sei que eles deviam ter vivido ainda mais, que não se deviam ter privado de tantas coisas para mim, porque eles mereciam, merecem e vão merecer sempre uma vida incrível. São pais. São as pessoas que mais amo no mundo.

Sentimos a carência de quem nos faça bater o coração com o ruído dum mar agitado, mas acabamos sempre a dar um abraço sentido aos nossos pais. São eles que nos suportam na ausência doutros, como botes para dias em que marés desencadeiam naufrágios. Mas também são eles que nos fazem mover quando amamos, quando vivemos, quando nos libertamos. Querem sempre o melhor para nós. E a minha mãe, em especial, é exímia nessa arte de me ver como o mais especial do mundo. Tento avisá-la que não, que num instante lhe posso mencionar quatro ou cinco pessoas mais especiais que eu. Mas ela diz-me que não, defende-me no indefensável e depois ataca-me no impensável. Os elogios estão guardados para quando não os mereço e as palavras de desafio para quando mereço os elogios. Vê os problemas onde eu, inebriado pelo fulgor dalgum sucesso ocasional, não os estou a detectar. E depois, nas horas que sei que não tenho defesa – e ela também sabe – guarda-me palavras que me memorem do bom que já fiz. Já chorei muitas vezes com ela. Já chorei muitas vezes com o meu pai. E já chorei muitas vezes com ambos. Em todos os casos, foram choros diferentes. Mas nunca nenhum me doeu tanto como quando senti que os estava a desiludir.

Andei perdido na escola, estive quase para não ir para universidade nenhuma, nem sequer acabar o secundário. Eles atacavam-me, mas doías-lhes mais do que a mim. No dia que o percebi, soube que tudo faria para que eles nunca mais o sentissem. Não o consigo sempre, às vezes resvalos nas pequenas dunas da tentação e perco o rumo da praia que eles esperam, e eu também espero, me esteja sempre guardada. Desde aí, sou demasiado exigente comigo. A maioria dos que me rodeia não o compreende, vê em mim um miúdo que tem sonhos, sim, mas que vive embalado na leveza de uma onda que o traz ao areal. Mas eu, por essa sensação que percebi tarde e pela vontade de ter sempre o que não tenho, ando a maior parte do tempo no revolto das maresias que chocam nos rochedos do paredão. Ando sempre à luta comigo, com os pensamentos que não domino, porque sou dono de uma insatisfação que não consigo explicar. Tenho os receios de perder a base que me suporta, de ter que exigir mais dela, quando já tanto me deram, quem sabe demasiado. Mas, ao mesmo tempo, apetece-me saltar do cimo do paredão para um mergulho longo, sem rumo, que talvez me leve até aquela linha do horizonte que os meus pais sempre me desenharam ao fundo daquele mar que eu via em miúdo – e tantas vezes não ia existia.

Tenho uma sensação de frustração constante, pela necessidade de mais que a minha mãe me passou, mesmo que na maioria das vezes não se apercebesse que o fazia. A vida não é uma praia fácil de encontrar, quase todos ficam no primeiro descampado com mar que lhes aparece. Mas a minha mãe, mais em gestos que em palavras, sempre me disse para não me satisfazer com a primeira praia, para ir atrás da segunda, porque, possivelmente, será melhor. Quase todos estão na primeira apenas por preguiça de procurar uma melhor. Se aqui está bem, não vejo motivo para procurar melhor, pensam eles. No entanto, trouxe também da minha mãe a hesitação. Parados na primeira praia, com um sítio livre, mesmo à nossa frente, também criamos amarras se não estaremos a perder um bom lugar. Eu sou assim, a minha mãe também é assim. A indecisão pesa em nós como a merenda de uma família num domingo de praia. Mas hoje, no dia dela, quero agradecer-lhe por tudo isso. Vivo num carrossel de expectativas e quase sempre salto para a segunda praia. Demoro o meu tempo, dou um passo e pondero, paro mais um pouco, e volto a seguir. Até que chego à segunda praia e penso que a terceira será ainda mais incrível. Avanço mais um pouco e recuo mais um pouco. Será boa ideia? Se calhar essa já será deserta, e a solidão assusta. Então, estanco de novo. Mas volto a andar e encontro a terceira. E depois quero a quarta. Invento uma quinta que já não existe e ando sempre insatisfeito. A minha mãe é isto, uma insatisfação constante que não consegue explicar, uma hesitação castradora e um impulso incontrolável nas palavras. E eu sou isso, também. Devo-o a ela. A ela e ao meu pai, que se completam. Mas hoje o dia é dela e quero dar-lhe os parabéns, nesta internet que ela não frequenta, para que todos saibam: amo-a. Trago na minha genética as incongruências dela, a insanidade de querer mais, quando às vezes estamos bem onde estamos, a incapacidade de estar calado em relação ao que sinto, a vontade incontrolável de, mesmo expondo-me, deixar que todos habitem o meu mundo e percebam o que eu sinto. É óbvio que nunca perceberão, mas é satisfatória a sensação de que nada temos a esconder. A consciência é o nosso nome do meio e a insatisfação o apelido de família. Mas sou feliz, à minha maneira, sou feliz. Porque tenho, tal como vocês todos, a melhor mãe e o melhor pai do mundo. E hoje celebro-o, na pessoa da minha mãe. A mulher a quem posso dar os parabéns, prendas, beijos, abraços, apoio, mas nunca poderei dar o que ela me deu. Uma vida! Obrigado e parabéns, Mãe!

 

Mar do Furadouro e do Mundo

Mar do Furadouro e do Mundo

 

Olho-te, desse modo, com as pálpebras pousadas no extenso areal que te compõe o rosto e apenas te imagino assim: terno, sossegado e abençoado. Penso em ti e em nós, eu menino a jogar-me nos teus braços, a espernear nas poças que criavas antes da tua imensidão. A minha mãe a olhar, sempre desconfiada, sempre galinha. O meu pai a pedir-me cautela, mas a aventurar-me. Meio certo, meio não. Confiavam em mim, nenhum confiava era em ti. Mas eu confiava. Se me puxasses, nesses teus braços do tamanho do mundo, seria para de seguida me trazer de volta. Só quererias abraçar-me.

Olhava-te, com calma e receio, a ‘pontapear’ os surfistas. Não a tratá-los mal, apenas a empurrá-los nas tuas ondas, como fios de cabelos, onde eles tanto desejavam deslizar. E ainda desejam, eles gostam de ti como poucos. Como os que se alimentam de ti, põem o pão na mesa com a tua diversidade. Trabalhei numa marisqueira, e lá estavas tu. A alimentar a marisqueira que me dava alimento, as primeiras ganas de ser algo mais na vida. Já fumava, feito estúpido. Mas parava para fumar a olhar-te. Sentia a tua areia a tocar-me os pés e a vontade de mergulhar na tua imensidão a dominar-me, a tomar conta de mim. Chegava o final da tarde e lá ia eu. Já não estavas com tantos admiradores, mas com o sol escuro de fim de tarde a bronzear-me o olhar, atirava-me a ti. Furava as tuas paredes de água e com as costas para o areal e o olhar para o infinito admirava-te. Sentia-te como uma parte de mim. Minto, sentia-me uma parte de ti.

Esta sempre foi a minha relação contigo, mar. Aqui, no nosso Furadouro, mas também em todos os outros lugares onde pacificas a vida das pessoas. Confia, és mais belo assim. Roubas-me sorrisos que só se explicam pela vontade de te escrever um texto às nove da manhã, antes do café e muito antes de começar a trabalhar. O tempo é de carnaval, mas o dia é teu. O texto é para ti, mar do Furadouro e do mundo. Não te voltes a portar mal.

(foto Salvador Malheiro​)