A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.

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A Liberdade

A liberdade pode ser muitas coisas. Há presos livres e cidadãos sem cadastro acorrentados.

Liberdade não é só o prazer de opinar, é a força de sentir desde dentro que somos livres. Nenhum de nós o é totalmente, creio. Mas isso não diminui a conquista que foram os cravos. Diz-nos só que a sociedade deve ser moderada ao ponto de nos ajustarmos ao meio onde vivemos. Mas termos um meio onde vivemos, podermos escolher se é este ou aquele, é uma conquista. É essa a conquista que devemos celebrar.

Tenho família na Venezuela e vejo, diariamente, que o líder da oposição está preso, que outro opositor está impedido de exercer cargos públicos por 15 anos, que somos apoiantes de Maduro ou dos outros e que os outros devem ser abatidos. É esta distância tão longínqua para o que é os nossos dias que não nos faz perceber a conquista que foi o 25 de Abril. Claro que podemos concordar mais ou menos com o que foram os percursos dos homens que fizeram a revolução, duvidar mais ou menos de quais foram as suas intenções com essa revolução, mas não podemos esquecer nunca: se duvidamos, se estamos a ter a liberdade de pensar por nós e opinar em relação a isso, sem que tenhamos que fugir para outros países ou ser presos por isso, devemo-lo a essas pessoas.

E eu valorizo isso. Mas ainda não sou livre: serei no dia que souber que uma parte da minha família também poderá ter essa fortuna, sem ter que abandonar um país que os acolheu e onde construíram a sua história sem ter que abdicar de tudo para poder dizer: o Maduro é uma merda. Eu posso, mas não é a mesma coisa. Eles também deviam poder. E merecem.

Viva a Liberdade!

O 25 de Abril é usado e abusado!

25 de Abril Usado e Abusado

 

Este mote é um bocado estúpido de ser aplicado, num dia como o de hoje. Porém, os valores de Abril são a liberdade, sim, que deve ser celebrada sempre, com toda a exaltação que o direito à nossa opinião merece, mas não se esgotam aí e todos os demais podem e devem ser discutidos. Não porque tenham sido errados na altura, mas, sim, porque o mundo evoluiu. E se não percebermos isso seremos mais uns a navegar num mar revolto, protegidas por umas naus por nós construídas, que são um orgulho, contudo fáceis de serem ultrapassadas pelas lanches do capitalismo. E, sim, uso o termo capitalismo porque ele é o que desperta a fúria dos que dizem que esquecemos o 25 de Abril quando acreditamos que o investimento externo pode salvar-nos.

Não acredito em ditaduras, não acredito em fascismo, mas também não acredito que todos tenhamos capacidade de decisão. E não porque sejamos burros, apenas porque quantos mais formos a mandar, mais seremos a desresponsabilizarmo-nos. E isso é um problema. As leis devem ser mais rigorosas, os detractores devem ser punidos e a trafulhice deve ser irradiada. Mas isso não é um problema de esquerda nem direita, como o nosso país e o Brasil já tão bem o demonstraram. Portanto, não se deve usar o 25 de Abril como forma de ataque a quem acredita em coisas diferentes das que os que nos proporcionaram a liberdade acreditavam. Senão, estaremos somente a trair a memória deles, certo?

Os Capitães de Abril, foram, são e serão icónicos. A eles devo-lhes tudo – sem ter vivido a ditadura. Mas acreditar que eles estavam certos em tudo é chacinar a liberdade pela qual eles lutaram. Lutar pela liberdade é dar espaço a que todos pensemos por nós. E isso não é ser contra eles, é honrá-los.

Esta é a minha homenagem ao 25 de Abril, num dia em que apanhei sol, trabalhei um bocadinho, fui tomar café com amigos e ainda me dei ao luxo de escrever sobre futebol e política, sem ter que olhar por cima do ombro. Isso é o 25 de Abril, não o respeitar tudo o que os outros, os “filhos dos capitães de Abril”, nos obrigam a aceitar como ideologicamente bonito, e crente, e incrível, e respeitoso. Aliás, como o nosso Presidente da República, um ilustre pop-star, oriundo das catacumbas da direita, hoje conseguiu num discurso cheio de respeito pelo passado, prezes pelo presente e esperança pelo futuro.

A liberdade foi cancelada

Liberdade Cancelada

O decreto da liberdade foi cancelado. Saiu, por entre as páginas do Diário da República, um memorando (que palavra tão em voga!), que decreta que a liberdade foi cancelada.

Durante muitos anos, ela foi estupidificada, aldrabada e mal aproveitada, pelo que se decidiu cancelá-la. Tornou-se chancela dos predestinados. Doravante, meus caros, só os predestinados terão a liberdade de ser livres. A escolha de ser livres. Porque a escolha, meus amores, é a liberdade. E isso é o que não se percebe. Tão subjugados na inerência de compreender os defeitos dos que se elevam, ou as minudências dos que não se levantam, deixámos de perceber que a liberdade é, tão-somente, uma escolha. A possibilidade do escolher entre o fazer ou consentir, ou falar ou calar. Tudo isso é uma liberdade.

Porém, com o volver dos anos e a generalidade das ocorrências, temerou-se a vontade incólume de sermos quem somos. Não podemos ser passivos, se a receita do sucesso é a pro-actividade. Não podemos ser calados, se só os faladores são triunfantes. Não podemos ser distraídos, se só os hiperconcentrados são bem-sucedidos. Não podemos ser nada do que somos, por risco de não sermos iguais aos outros – aos exitosos. Portanto, que se termine com a liberdade. De nada ela serve, quando não a queremos.

A liberdade, agora, é como a comparação entre um relógio que foi oferecido a todos, numa feira de Carcavelos, e um que comprámos numa loja do centro comercial Colombo. O da feira de Carcavelos, mesmo sendo o mais bonito, elegante e bem trabalhado, é o que todos escondemos, porque é o que todos têm. Enquanto o outro, mais feio e mal costurado, é o que ostentamos na mesa do café. Não é porque achemos que o vão admirar, é só porque não o vão reconhecer e não nos associarão à Feira de Carcavelos. É mais cómodo e in.

A liberdade é igual, não a valorizamos, porque é de todos. E, então, tentamos criar cópias obsoletas de tudo o que os outros já foram. Saindo mal, claro. Porque nem nós somos eles, nem eles são nós. Muito menos os caminhos são iguais. Assim, a liberdade foi cancelada. Quem quiser, que a conquiste com o seu dinheiro de vagos grãos de carácter, para que seja merecida. E ostentada.

Ironias

Há com cada ironia. Este fim-de-semana, na sexta, vi uma peça de teatro, chamada A Noite, escrita por Saramago, algures na segunda metade da década de 70. Retrata a noite de 24 para 25 de Abril, de 1974, numa redacção de jornal.
Hoje, finalmente, assisti ao filme/biografia de Mandela. Não sou um entendido em cinema, mas gosto de coisas que mexem comigo e o filme mexeu. Trouxe-me sensações. 
Mas, no final, de que vale tudo isso? Somos um povo que não sabe valorizar o que tem. Estamos formatados para desejar sempre mais do que temos. E isso não é mau, só é mau não valorizarmos o que temos. Sabem o quanto custou a liberdade, aqui ou noutra parte qualquer? Sabem o quanto alguns desejavam tê-la, mesmo não sabendo que é isso que desejam?
Isto não é verdade só na política, é verdade em quase tudo das nossas vidas. Para desejarmos muito o que não temos, precisamos ignorar o que temos. Não devia ser assim.
Estou envergonhado desta abstenção. Estou mesmo.

Tenham juízo

Hoje comemora-se a liberdade, que virou quarentona. Muita coisa está mal, muitos se aproveitaram dela, o défice cresceu aceleradamente, os políticos, na sua generalidade, são uns incompetentes, estamos sujeitos a ajudas e ordens alheias, mas, por favor, não me publiquem citações do Marcello Caetano e do Salazar, como se eles é que fossem os correctos e perfeitos. 
O ideal seria termos tudo por igual, existir equidade, não estarmos sujeitos a ordens externas, não era? Pois era, mas não sei os cubanos pensam o mesmo. Pelo menos, os que morrem a tentar fugir para Miami e assim.
Não há sistemas políticos perfeitos. Mas nada justifica uma ditadura, seja fascista, comunista, ou o que for.

25 de Abril – A nossa liberdade

Revolução dos cravos - A nossa liberdade é o conhecimentoAmanhã festejam-se os 40 anos do 25 de Abril, numa Assembleia vetada ao povo descontente, em que os deputados da oposição são amordaçados pela maioria vigente dos PSD e pela abstenção do CDS. Mas isso não importa muito, porque a liberdade não se faz apenas na “casa do povo”, faz-se também nas ruas do povo, na vontade do povo expressar o que sente.

As dificuldades são inerentes à vida. Não à ditadura ou democracia, mas sim à vida. É óbvio que vivemos dias cinzentos, reflectidos num céu que teima em não se pintar de azul, contudo, não comparemos o imcomparável. Eu não vivi os anos anteriores ao 25 de Abril, mas sei que nunca os quereria viver.

Não podemos confundir a tecnocracia das políticas actuais, com a repressão de uma ditadura. Hoje, votamos mal e reclamamos passado pouco tempo, porque não temos onde votar bem. Há mais de 40 anos, não votavam, não reclamavam, não concordavam com tantas coisas.

O sentimento de impotência existirá sempre, em relação à política e em relação a tudo, tal como o desgosto, a descrença e a insatisfação. Não podemos é trincar os cravos e engoli-los. As demagogias são tão perigosas como o fascismo. Reclamemos, sim, pois as coisas não estão absolutamente justas, mas jamais viremos à extrema direita. Há a europa dos intelectuais a sucumbir, não sejamos iguais.

Existiu quem batalhasse pela liberdade, tivesse ou não interesses inerentes a isso, não deixemos, portanto, de fruir as vantagens de escrever, falar e ser inteligente. O Fascismo emburrece e disso ainda padece parte do país. A liberdade vem do conhecimento. E é isso que não podemos permitir que nos seja vetado. Que se matem no parlamento fechado, que nos cortem na cultura e no ensino, mas que passemos aos nossos filhos a liberdade do saber. Internet, livros, tertúlias, tudo são ferramentas de conhecimento e, consequentemente, liberdade.

Só valeria a pena “um Salazar por freguesia”, para quem ainda não descobriu o que é a liberdade. Eu descobri ao meu modo e luto por ela. Com ou sem capitães de Abril na Assembleia, lutarei pelo meu conhecimento!