Sextas-feiras treze!

Acordou e o corpo receava as entranhas de um dia que nascia da penumbra, fosca, de uma noite mal dormida. Vizinhos ruidosos, chuva estridente a embater no claustro do estore, fendas a serem abertas no ar puro de inverno.

A vida não lhe corria mal, mas também não lhe corria especialmente bem. Simplesmente, corria. Amorfa, parada na contingência de mais um dia em cima de outro dia, seguido de outro que já, antes, o havia sido. O corpo, mecânico, saltou do pijama, passou-se na água turva de um chuveiro relampejante e, logo de seguida, torneou-se para dentro de umas calças, de uma camisa e de um casaco impermeável, conforme o tempo rogava.

No olhar, trazia o breu da noite, o escuro da tempestade, o revolto dos ventos. O carro circulava cilindrado pela força da rotina e só a vontade de um café que o acordasse fez suster a viagem, numa primeira estação de serviço.

Com o jornal a desfolhar-se, quase sozinho, tal a sua automatização das rotinas, pediu um café. Ele veio numa chávena ligeiramente esquentada, a ferver, que ele logo tratou de levar do poiso seguro do balcão até à boca. Numa viagem tão curta, meros segundos, viu a chávena jogar-lhe o azar em cima, com um quente forte a verter-se da louça para a sua roupa.

O empregado, prestável e atrapalhado, fez-lhe chegar um pano, mas ele não reagiu à oferta e findou um dia ainda mal começado.

– Foda-se para as sextas-feiras treze! Já vivo nelas há vinte anos!

Ral

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O raio do destino…

Podia ter sido tão feliz, podia ter conquistado o mundo, podíamos ter ficado juntos para sempre… mas o destino não quis!

O destino é tramado!

Ele é totalmente abstracto, mas veste-se de rigidez, para arcar com as culpas das falências, de milhares de seres espalhados por esse mundo, por esse planeta. O destino é danado! Eu não o conheço, não o consigo tocar, mas conheço tantas pessoas que já viram a sua vida destruída por ele. Será ele um Deus do mal? Omnipresente e maldoso? Maléfico e perverso?

Nunca ouvi ninguém elogiá-lo, dizer que conseguiu isto ou aquilo, conquistou este ou aquele, porque o destino assim o quis. Nunca, nunca, nunca. Ouço sim que perderam isto ou aquilo, não conseguiram conquistar este ou aquela, porque o maroto do destino lá se pôs no caminho. Esse malvado, o destino. Por que é que ele não junta as pessoas? Por que é que as pessoas só falam dele quando roubou algo?

Ele é um bocado larápio, não é? Rouba a vida, a felicidade, às pessoas. Eu não o conheço, mas pelo que ouço falar dele não tenho curiosidade nenhuma, também. Pensando bem, até tenho. Eu, qual psicólogo, imagino-o como um coitado, frustrado e desesperado, por arcar com as frustrações de um mundo inteiro. Cansado de viver. Cansado de viver as frustrações dos outros.

Ele não será como um amigo imaginário? Na infância, criamos esses amigos, com nome, traços de personalidade, que servem para nos acompanhar, para nos dar alegrias que, nos momentos a sós, não seriam possíveis, de outra forma. Na idade adulta, criamos o destino, igualmente imaginário, mas sem traços de personalidade. Pois, não convém que ele tenha personalidade. Não convém porque se a tivesse não aceitaria ser culpado por todas as frustrações sem ripostar, sem exclamar que tu e tu é que se deviam ter mexido por isto e aquilo e não culpá-lo a ele pelo que não fizeram.

O raio do destino… é o amigo imaginário dos pouco audazes!

 

PS – Já sabem que para saber mais sobre o livro que, em princípio, irei lançar, é só passarem aqui: https://www.facebook.com/groups/118634761614210/