Desabafo de um leitor de hora de almoço

Todas as horas de almoço aproveito para ler. Sento-me, tomo o meu café, acendo um cigarro e viajo por linhas de livros. Hoje comecei Os Maias. Sem a responsabilidade da imposição curricular, decidi voltar às linhas do grande Eça. Mas a história não é esta. É mais divertida, porventura.

Num dos cafés que habitualmente ocupo, foi contratado, qual Cristiano Ronaldo ou Bale, um jovem empregado de mesa. Ligeiramente, em termo simpático, anafado, com calças largas, à medida de caberem dois dele lá dentro. Sorridente, com tiques de artista no falar, pergunta-me o que quero. Um café, claro, como sempre. Abeira-se com a chávena e diz-me: ler tanto até te faz mal, pá. Sem hesitar, por impulso, respondo: sabes, puxar pela cabeça faz bem. O ar dele foi sobranceiro, ao género de me acusar de ‘coitado’, e riposta: se é para dar dores de cabeça, bate com ela contra uma parede. Não contente, prossegue, tens que experimentar ir atrás de umas miúdas. Sem necessidade de me alongar muito, e com um sorriso na cara, não me contenho de lhe dizer: agradeço a preocupação, amigo, mas não te chateies com a minha vida. Sabido como é, obviamente, já tinha justificação. Claro, já te topei, queres vir para aqui dar uma de intelectual, mas olha que elas acham é que és um marrão. Parecendo-me cada vez mais interessante o Eça, optei por deixar a conversa morrer por si. Pese embora, ele possa ter razão e elas pensem isso, as senhoras de quase setenta anos que lá costumam estar, ou as mulheres que vão com os maridos e os filhos, ao mesmo tempo que os empregados do banco.

Antes de eu sair, não resistiu a um: xauzão e não te esqueças de ler muito!
Com toda a certeza, irei fazer-lhe a vontade. Talvez ele já não possa é assistir a isso. Pode estar coberto de razão e as mulheres acharem o que ele diz, mas atendendo ao facto de que isso não me impedirá de ler e de que nunca lhe solicitei a opinião, talvez opte por outro café. O empregado poderá não ser tão espevitado e disponível para fazer de mim um homem apetecível, contudo poderá ser um silencioso que compreenderá que os meus sessenta cêntimos pagam o meu café e a minha ocupação do tempo, à minha maneira, sem pretensões de ser um sex-symbol de calças largas e barriga XL – por muito que já a tenha tido, sem alcançar a voluptuosidade deste CR do serviço às mesas.

Autoconfiança é boa e eu elogio, logo que não me atrapalhe a leitura do Eça ou seja, supostamente, bem-feitora. Ele que seja sensual à medida dele, que eu continuarei feliz, em outro café, com o meu companheiro Carlos da Maia.

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