Às vezes não sentimos

Fernando Pessoa - 129 anos

Principalmente, quando escrevemos. As palavras tornam-se elementos estéticos, as sensações viram personagens e as dores e alegrias fazem-se histórias. Ou, então, não é nada disto e inspirei-me numa frase do grande (enormíssimo) Fernando Pessoa:

“O que confesso não têm importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações”.

O poeta faria hoje 129 anos, mas esta leitura não foi uma homenagem. Foi uma feliz coincidência: um livro há muito parado na secretária, uma vontade de ler empoeirada e uma tarde de sol, após uma manhã de chuva, em que saí mais cedo do trabalho. Mas isto é que é viajar, não é?

Deixar a vida tomar o leme das ocorrências, ajeitando somente as velas das nossas vontades. Não dominamos nada. Só sentimos. Menos quando escrevemos. Aí: “faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.”

Parabéns ao Poeta! E a mim, que fiz mais uma viagem sem viajar.

O sentido da vida!

transferir (1)É só futebol, eu sei. Vou saber sempre, mas nem por isso vou mudar a minha forma de estar. Tudo o que procuro na minha vida são momentos de diversão, de adrenalina, de emoção, de coragem é até de conquista. E o futebol, em parte, dá-me isso. Ou seja, não menosprezo, e se para alguns é sobrevalorizar, para mim não é. Nem para mim, nem para tantos que o acompanham.

Hoje, mais uma linha se escreveu no mundo futebol, com caligrafia e sonoridade portuguesa. Não foi só o Ronaldo que ganhou, por muito que todo o mérito deva seguir para ele. Um país tão pequenino, de tão pouca gente e dinheiro, ter quatro bolas de ouro é obra. Mais ainda pensando que já se perdeu uma, em 66, por um voto dado por um português a um inglês, e, mais recentemente, ter existido, pelo menos uma, que foi dada ao Messi, discutível. Ou seja, quatro bolas de ouro e duas muito próximas de o serem. É obra. Como é obra, neste mesmo país pequenino, termos visto um homem, serralheiro, tornar-se nobel da literatura, com alguns críticos a referirem que os grandes escritores têm um grande livro, os formidáveis têm dois ou três e o Saramago tem seis grandes livros. Fernando Pessoa é, também, ainda hoje, das vozes poéticas mais solenes do mundo. O Camões, oh o Camões, é o que sabemos. O Aristides de Sousa Mendes é o retrato da decência humana, no mundo inteiro – talvez mais do que cá seja sentido. A Amália mostrou ao mundo que há música tão nobre, que antes dela não era conhecida. O Mourinho, regressando ao futebol, está no cume desde que começou. Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro serão sempre marcos no nosso desporto e no mundo. Um dos bancos mais importantes do mundo é gerido por um português, Horta Osório. O melhor empresário do mundo do futebol é português, desde que o prémio existe. O Figo, com todas as trocas e baldrocas da sua carreira, nunca foi indiferente a ninguém e não escondeu o quão grande foi a sua qualidade. Nélson Évora também não pode ser esquecido, como não pode ser o nosso enorme Rui Costa, campeão mundial de ciclismo. Os Beatbombers, DJ Ride e Stereossauro, são campeões do mundo de Dj’s, na categoria de show. E entre outros, tantos outros, sem sequer viajando até aos longínquos anos das conquistas marítimas.

Somos pequenos e nem sei se estas pessoas são representadas por quem somos enquanto povo. Vivemos anos disformes, que não nos podem descrever. Muitos estão longe, outros estão tristes, outros privados de oportunidades. Mas se olharmos a estes exemplos, Ronaldo veio da miséria, Saramago era serralheiro, Rui Costa é de famílias humildes, o Dj Ride trabalhava numa loja de bicicletas para ganhar dinheiro para comprar material de som, o Eusébio foi o que soubemos por estes dias. Ou seja, não somos feitos de oportunidades, somos feitos de desenrasca, de crença, de vontade, de paixão.

O Ronaldo, hoje, se é que isso existe, mostrou a raça lusitana. Todos o crêem como arrogante, mas como é que um arrogante pode chorar na emoção do imprevisível? Ele não é arrogante, ele acredita nele e defende-se dos que não acreditam, sendo forte, escondendo-se da necessidade de se justificar, usando golos para isso. O futebol é só futebol, mas de lá, por estes dias, assisti duas vezes a uma coisa maior que essa diminuição, que só não percebe quem não quer.

Maior do que o futebol, é o sentido da vida. E Ronaldo e Eusébio foram exemplos nisso. O que vale nestes momentos, não é a importância relativa do futebol, é a promessa que o Ronaldo, vindo da miséria de uma rua da Madeira, disse que ali chegaria. E chegou e quis voltar a chegar. E voltou a chegar e quer voltar a chegar. E aqui não há futebol, nem literatura, nem música, nem ciência, há trabalho, há crença, há esforço, há devoção e há um sentido para a vida. E o que vou sempre admirar, e invejar no sentido mais puro e menos feio da palavra, será esse sentido. Olham o céu e chegam lá, habitam lá, indiferentes às pessoas que querem fazer parecer que, afinal, o céu não fica assim tão longe.

A Fifa fez uma homenagem tão sentida ao Eusébio como o Blatter estava à-vontade ao entregar a bola de ouro ao Ronaldo, o Péle durante a semana disse que o Eusébio era irmão, mas não lhe dedicou uma palavra, centrou tudo nele. Mas o Ronaldo, o homem que superou tudo em silêncio, a chutar a bola como um escriturário aponta as reuniões do patrão, a cabecear como uma empregada de limpeza passa a vassoura, explodiu. Explodiu em lágrimas de emoção, de quem sabe o tanto que trabalha para ali estar, de quem sabe que nem sempre percebem do que ele abdica para tantos e tantos anos depois continuar no cume, disparou o nome do Eusébio e do Mandela, humanizando um prémio que para ele era muito mais que um reconhecimento. Porque não estando na cabeça dele, penso saber o suficiente dele, para compreender que ele trabalha por ele, para ele. E só por isso se emociona tanto com o reconhecimento alheio. Ele habituou-se a vencer pelos objectivos dele, pela felicidade dele, pelas promessas que se faz, ao contrário do que dizem, e por isso chorou. A arrogância que lhe atiram, nunca lhe permitiu ter a certeza que tantos o admirassem como ele se admira a ele.

E sabem porquê? Porquê ele tem o que eu sempre vou admirar, da literatura ao futebol. Ele tem, conquistado por ele, o sentido da vida. E isso é lindo, caramba!

Parabéns, Ronaldo! O prémio é teu, mas permite-me, a mim e a tantos portugueses, levar um bocadinho disso connosco. Hoje, chorámos contigo. Ou, se calhar, chorei só eu, que sou um parolo nestas coisas da conquista humana, de um sentido muito superior à nossa existência! O tal imortal, tal como já és.

Politiquices

Começo este texto afirmando a minha total incapacidade para fazer comentários políticos. Correcção, comentários políticos fundamentados! As minhas opiniões em relação a quem nos governa ou como nos governa, como bom cidadão português, ou do mundo, são em longas conversas de café, acompanhadas de um ou vários copos, em que imerge uma necessidade de discussão. Ora política, ora futebol! Em duas dessas conversas surgiu o mote para este texto. Uma realizou-se há meses, outra esta semana.

Recordo-me de em uma das minhas longas intervenções, autênticos monólogos a partir da terceira frase, dizer algo do género: “Já viste este Sócrates? Mente-nos com todos os dentes que tem! Tenta fazer-nos acreditar que está tudo bem.”. Passaram-se alguns meses, em nova conversa de café, disse: “Já viste este Passos Coelho? Diz para a malta ir para fora, é o que toda gente pensa, mas daí a dizer. Ficou-lhe mal!”. Aproveito estas minhas duas intervenções para me personificar na imagem do “Zé Povinho”. Vivemos a fase de paixão nas eleições, “Este sempre é melhor!”, a condescendência inicial, “Opa é chato, mas tem que ser!” e a rotina destruidora, “São políticos, é tudo mais do mesmo!”. Criando em nós a necessidade de criticar, não fundamentar, criticar! Um era mentiroso, o outro é sincero de mais! Nós somos contestatários, como devemos ser, ajuda-nos a criar uma necessidade de mais e melhor, mas devemos abstrair-nos da necessidade de criticar pelo simples prazer de criticar.

– Vim para aqui porque sou da geração à rasca! Abaixo o governo!
– O que gostaria de ver melhorado?
– Tudo, isto está uma miséria, pá!

Sendo eu um recém-licenciado, não posso estar feliz. Porém dou o benefício da dúvida a quem lá está, ou será uma resignação encoberta? Eu acredito que quem lá chega não é corrompido pelo poder, chamem-me inocente, é sim flagelado pela necessidade de tomar decisões. Já alguém pensou no peso de uma decisão que influencia, não só a nós, como a um país inteiro?

Com tudo isto não quero defender a classe política, que tanto me prejudica, quero é fazer um apelo. Eles têm a responsabilidade e com ela o direito de nos tirar regalias, oportunidades de carreira e mesmo dinheiro, não vamos é deixá-los tirar-nos o direito de sorrir. Vamos ganhar a capacidade de nos rirmos de nós mesmos. França e Alemanha nunca nos olharão com outros olhos que não de gozo, mas se nos rirmos de nós mesmos, perderá, para eles, a piada de o fazerem. Devem estar a pensar, “Olha este a dizer para sermos uns palhaços!”. Eu respondo, para mim, sorrir não é atestado de parvoíce, é o comprovar de inteligência. Já pensaram que para nos rirmos de uma piada temos que a perceber?

Dou-vos a liberdade de com isto interpretarem este texto a vosso bel-prazer. Não deixando de dar mais uma “bicada”, com uma citação de Fernando Pessoa.

“Gostava de ter a tua alegre inconsciência, com consciência disso!”