Não há nada mais feio que estar em guerra com quem se amou por muito tempo

Não estou a falar de mulheres. Estou a referir-me a momentos passados. Quando gostamos muito de um sítio, sabendo e sentindo que lá passámos grandes momentos, tendemos a procurá-lo em todo o lado. Em todos os momentos.
Gostamos das sensações e vivemos presos a elas, a criar essa expectativa em cima de outros sítios e momentos – e mesmo pessoas. Isso é estar em guerra com quem amámos.

A paixão chama-se paixão por ser efémera. Se lhe tirarmos a vertente passageira roubamos-lhe a existência. O comediante tem na piada a sua maior virtude e defeito. O vilão tem na maldade o seu maior defeito e o seu maior fascínio. A vida é assim, feita de contradições. O bom e o mau estão sempre muito próximos e cheios de razões lógicas para se afastarem. Mas não se afastam.

A vida tem que ser vivida no limbo do bom e mau, porque é aí que ela acontece. No resto, só passa.

Por isso é que, em mais esta viagem sem viajar, acabei com a maldade do convívio dos Vampiros Grupo de Carnaval. Troquei o local e fui refazer as lembranças. Não era o sítio que fazia o momento. Eram as pessoas. E isso já era sabido. Mas estava em guerra com quem amava: com as lembranças dos bons momentos.

Agora, refi-los. E de um amor passei a dois. Três. Quatro. Tantos quantos viver sem a expectativa do que foi o passado. São as pessoas que fazem os locais, mesmo quando eles estão despidos delas. A ausência de pessoas também é uma forma de amar as pessoas.

Mas este fim-de-semana não foi o caso. Estive repleto de pessoas em redor e num sítio que não conhecia. Gostei.

A doença do medo


Doença do Medo

A modéstia, tão pomposa nas corriqueirices de vidas amordaçadas, é só uma segurança da cobardia. Ajustar as nossas vontades às nossas crenças é apagar os públicos e vivermos para nós.

Não é fácil anular as expectativas quando procuramos as maiores certezas de que não falharemos. Acertar é bom, mas não falhar é mais cómodo. Então, raras vezes dizemos que não sabemos porque não sabemos. Dizemos antes, isso sim, que temos uma ideia quando não sabemos e que somos mais ou menos quando temos a certeza que somos bons. Defendemo-nos. Passamos a vida a defendermo-nos.

Essas defesas, como paredões em praias desabrigadas, servem para baixarmos a fasquia e lidarmos melhor com as asseverações alheias que, tantas vezes, vêm de desconhecidos que valem tanto na crítica como a nossa própria consciência. Aliás, são talvez eles a nossa própria consciência. Criamo-la em função da manada e desligamos o interruptor da nossa criatividade. É melhor ser um em muitos do que ser o falhado, que falha (e falha e falha!) até acertar.

É mais confortável viver assim, sem dúvida, porque nos sentimos sempre mais protegidos e acompanhados. Mas essa sensação, sacana, não é mais do que uma falsa comodidade, que nos deixa presos ao sofá de molas soltas, quando temos um colchão de água, desafiante, com espelhos no tecto, do outro lado da porta. Mas a coragem é a crítica, a capacidade de ouvi-la e manter impassível a nossa crença – só ouvindo o que, realmente, merece ser ouvido.

A imodéstia, que é o mesmo que dizer coragem, quando trata assuntos que realmente dominamos, traz a responsabilidade e, pior, a responsabilização. E isso é que assusta! Há pessoas que dizem que temem apenas a morte e a doença, mas isso é mentira. A maioria teme a necessidade da escolha, a obrigação de decidir e a responsabilidade de assumir o erro, que só mais tarde poderá valer uma vitória. A doença é só uma fatalidade.

O futuro agora

Não sei muito bem o significado das palavras, muito menos das expectativas. De comum têm a forma como nos elevam para pensamentos e cogitações. Uma palavra acertada, ou uma expectativa oportuna, faz-nos viajar para um sonho, um idear de um futuro que rogamos seja presente.

Não sei o meu futuro, contudo penso muito nele. Em momentos, vejo-o como se fosse hoje. Isso baralha e desconstrói o agora. Ainda assim, é bom. Não devo, nem devemos, ser estáticos no tempo. Ele é curto. E eu quero ser mais do que ele. Sonho ser maior do que o tempo, excedente à vida.

Não sei quando vou morrer, mas sei quando quero viver. E é agora. Já.

Ral