Não juntes dinheiro

não juntes dinheiro

Bayona, Espanha

Junta amigos, uma praia e uma cidade desconhecida. Traz à memória histórias de infância, adolescência e cria novas. Vive.

Faz felizes os de quem gostas e sê feliz. Muito feliz. A felicidade é paz. Saber que foste, saber que viveste. Acontecer. Não importa se é bom, se é mau ou desenxabido. Importa é que tenha acontecido. Que o mar tenha beijado a costa. Que a garrafa tenha sido esvaziada e que a vida tenha acontecido. A vida acontecer é ser feliz.

E o dinheiro não paga isso. Mesmo que faça falta para outras coisas.

Desabafo da precariedade

Não estava à espera de ser inundado por este desgosto. Tenho as paredes da pele a escoarem os excessos de sonhos que se evaporam.

Não, não entrei em depressão nem me deixei cair da vontade de ser alguém que deixe a sua marca. Não ambiciono uma marca muito grande, só uma marca que esteja á vista dos que amo e me amam ou amaram. Quero uma marca pequena, só um rasto de felicidade. Não preciso de uma casa principesca, de um carro que abalroe o alcatrão à passagem, só reconhecimento. Admito, o reconhecimento para mim vale muito. Mas, às vezes, o reconhecimento também devia ter cor de dinheiro. Não faço da vontade de ser rico o mote da minha vida, faço é da necessidade de ver-me a fazer o que gosto e a viver disso com leveza. Leveza não é riqueza, é desafogo.

Também tenho culpa, a verdade é essa. Sou demasiado romântico nos sonhos. Não ambiciono controlar uma empresa que lidera no mundo, não desejo ser o responsável máximo de um país, tenho mais a ambição do trabalho da proximidade. O sonho tolo de tocar corações e viver disso. Seja num uso abusivo das palavras, seja num trabalho feito com a minúcia de saber a cara de quem mo pede. Sonho mais agradar as pessoas que me rodeiam do que revolucionar o mundo. E pago por isso. Ou melhor, não recebo por isso.

Vivo num país que não quer saber muito de quem se preocupa com um, vivo num país que é feito de generalidades, de número abissais. Ou chegas a multidões, ou não mereces atenções especiais. Fazes o que tens a fazer bem e és só um mais que faz que o deve, até um que merece atenção especial para se perceber se não está a trafulhar. Sejas uma empresa bem-sucedida e todos te caiem em cima, do estado aos invejosos, aos oportunistas. Ou és Belmiro ou estás mal. Ou és Amorim ou estás à rasca.

Neste país não se quer individualidades preocupadas com o detalhe, quer-se frios que cheguem a multidões, onde não se distinguem caras, onde não se percebem desabafos únicos, onde não se tratam as pessoas pelos nomes.
Sonho errado, é o que eu percebo. E canso-me. Tristemente, e contra mim, começo a cansar-me. Pouco a pouco, ganho vontade de deixar isto. Não quero dinheiro em abundância, quero só um reconhecimento pela vontade que entrego às coisas. E isso, sim, tem preço. E não é o de cá. Estou triste. Não gosto de estar, não é disso que gosto de falar, mas hoje é assim que estou. Aqui, não somos prostitutas, somos piores. Não nos vendemos, temos que nos oferecer, dar-nos de borla em busca de uma exposição que, dizem, abrirá oportunidades. Por vezes, como hoje, penso se alguma vez elas chegarão.

Não quero ser rico, mas também gostava de não ser dado. Não sou triste nem vou ficar, mas precisava de dizer isto. Não sou um boneco. Sou romântico, mas não sou um boneco.

Há dias cinzentos, hoje foi um deles. Amanhã, não. Amanhã há-de haver luz, nem que seja eu o interruptor. Que se foda o país que não me liga, mesmo estando cá, eu não hei-de precisar dele. Eu sou eu e faço-me de mim, vivo de mim. Pobre, sem direito a nada, sem reconhecimento de quem nos oferecemos com brio, com vontade, com respeito. Mas nem que viva da água das chuvas e do peixe pescado, hei-de marcar quem amo. E isso é que me fará feliz. Hoje, amanhã e sempre. O resto é o local, não é o momento. Hei-de marcar-me nos que amo.

Ral

Portugal – Angola

Faz de conta que eu, Portugal, sou um catraio de escola primária, a brincar à bola no campo de terra batida.

Atirei-me com tudo e fiz um raspão na canela do outro menino, do menino que veio de fora com os pais, mas que agora eles ganham muito dinheiro. Ele era meio caladito e eu fazia-lhe companhia, agora, como todos o querem ao lado, ele fala-me mal.

Não lhe acertei na canela de propósito, foi sem querer. Só queria jogar a bola com justiça. Não deu e acertei. Ele, como é claro, ficou bravo. E eu, ao invés de calar-me, por ser coisa que faz parte do jogo, pus-me cheio de desculpas.
Resultado? Ele, para se armar para os amigos novos, fala quezilento de mim, fala com desdém. Faz aquelas coisas do quem diz é quem é.

E assim estamos, eu, Portugal, e ele, Angola. Eu é que o descobri, ele é que tem o dinheiro e os amigos novos.

Vai ganhar ele, acho. O dinheiro ganha sempre.

Ral
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Preço das inimizades

Vens-me ao rumo dos olhos
E depois abalas na várzea da água,
Que te debanda em açougues de folhos,
Mas que a mim na recordação flutua.

És mais que uma mera memória,
És uma certeza, uma vénia do passado,
Que me define uma trajectória.
Não sou o que fui, contudo sou também o que havia desmemoriado.

Ficaste-te por aqui, no seio
De mim e de ti, como se aquele nosso passeio
Fosse muito mais que um dia normal,
Do que um ensejo usual.

Não te marcaste pela água que deslizava no rio,
Ou pela lembrança que podia criar contigo,
Decidiste que querias ser mais do que isso,
Que necessitavas de fazer aquele golpe preciso.

Atiraste-me a faca, pegaste no dinheiro,
Porém, sem pensar que eu podia reagir primeiro
E sair de perto de ti, como vencedor,
Como, no fundo, o maior conquistador.

A ti, valia a fortuna,
A mim, valiam as folhas que deslizavam no vento
Do céu, no caminho que fazia de ti réu.
Era o dinheiro? Pedisses,
Não necessitavas dessas mesquinhices,
Que fizeram de ti só,
Fugitivo e triste que dá dó.

As amizades enchem barriga,
Acolhem sóis e abrigam tempestades,
O dinheiro traz por tudo inverdades.

A escolha era tua,
Fizeste-a e eu venci.
Fiquei bem sem ti.

Ral
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A rebaldaria do dinheiro

dinheiro, precariedade, falta, escassez

O dinheiro, o maldito do dinheiro,
Funciona como uma prisão,
Acorrenta-nos na verdade de prevermos
Que ele será sempre a nossa perdição.

Cogitamos no prazer, na astúcia da vida,
E lá vamos nós fazer as contas,
Para ver que uma já está perdida.
Enfim, o ordenado não dá para tantas!

Sonhamos com o fim do mês,
Espreitamos a conta uma e outra vez,
Mas no fim lá nos conformamos
Que ainda se mede é pela escassez.

Nós trabalhamos, laboramos,
Mas ele foge como se nos acomodássemos,
Como se do trabalho nos apartássemos,
Só para não termos o que nos alimentar.

Fico triste, pois tenho que ficar.
Não é que eu seja ganancioso,
Ou só tenha vontade de ganhar,
Não quero é prender-me em vida de ocioso.

Ele mede-se pelos cifrões,
Aliás, pelos zeros.
Quantos mais para a direita, mais milhões,
Mas isso para alguns, para outros desesperos.

O dinheiro, o que não traz felicidade,
Também não traz alegria.
Na sua ausência inflige precariedade
E isso provoca uma triste rebaldaria.

Ral
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O dinheiro não pode ser uma bênção, tem que ser uma recompensa!

dinheiro, vinte euros, liçãoAs expectativas são um balão, pronto a rebentar. Enchemo-las á velocidade de acontecimentos que se catapultam pelos nossos dias, pela nossa existência.

Nem sempre conseguimos ser modestos. Em momentos diversos, é impossível o âmago ignorar o apreço com que nos vão falando, a admiração com que nos apontam valências. No entanto, essa exaltação do nosso ego, tende a não se perdurar pela eternidade. Existem, sempre, ensejos que nos levam de volta a sítios esquecidos, mais escuros. Comigo isso também acontece. Gosto de ser modesto, não por achar que fica bem, essencialmente, por já conhecer este ciclo natural das coisas. Jamais teremos a capacidade de agradar a todos, em igual porção, e torna-se doloroso quando os não agradados são os que nos podiam despontar para outro patamar. Foi o que sucedeu.

Alimentei uma expectativa, que era suportada nas vossas palavras tão meigas, tão doces a percorrer-me o ego, e fui abalroado por uma pessoa que me poderia ser útil. Era um alemão – o que não me ajuda a apreciar mais a Merkl – que, com justiça, tinha fundamentos de verdade, na apreciação que me fez. Humildade não é dizer que há melhores, é perceber o que temos a melhorar. E, com este senhor, aprendi coisas que tenho a melhorar.

Não fiquei desiludido, ou com tendências para desistir, fiquei somente mais rico, mais capaz de perceber o que tenho a aperfeiçoar. Dizer que não fico triste é mentir, mas dizer que vou desistir também é mentir. Não é o dinheiro que me move, contudo sinto uma necessidade grande de nele, também, ver um reconhecimento do meu trabalho. Para isso, necessito amadurecer em muitos aspectos. O dinheiro não pode ser uma bênção, tem que ser uma recompensa. Isso, sim, é o que me move.

Para finalizar, um obrigado ao alemão que me espetou uma faca, mas me mostrou o caminho do hospital. As cicatrizes fazem-nos mais fortes!

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Que saudades do tempo em que ainda sonhava

IM000163.JPGOs dias eram mais curtos, passava mais tempo na cama a recuperar de noites com cervejas na mesa, com o corpo expedito nas pistas. Na loucura dos anos desgovernados da irresponsabilidade, revestida de sonhos.

Fosse em Espinho a ouvir pistas do Turismo ou em Aveiro doutrinas do marketing, existia em mim um tecido de sonhos, uma esperança abstracta do futuro que ainda não havia chegado. Nuns dias imaginava-me com umas dificuldades imensas, a ser tolhido pelos receios e a não me desenvencilhar em nada digno de registo; em outros imaginava-me em fatos glamorosos a percorrer os hotéis mais luxuosos em reuniões e formações, em negócios e resoluções. Não era sempre coerente, todavia alimentava-me sempre um desconhecido magnetizante, sedutor. Era vestido com as cores que eu desejava, por ser intangível era propriedade do meu imaginário. Dispunha do direito de fazer dele tudo o que me aprazesse, de viajar por ele com a leveza de um pássaro sem fronteiras na vertigem das nuvens.

Mas o amanhã chega. Chega sempre. E chegou, afortunado por uma rápida resolução de futuro, por um emprego que se desembocou ainda sem licenciatura concluída. Era, afinal, bem-aventurado. Felizmente, felizardo. Sorri para o futuro que, em certa parte, já era presente. Não demorei períodos longos atrás das oportunidades, ela surgiu-me numa porta entreaberta e eu cacei-a, fiz dela minha posse. Não pude deixar de emanar sorrisos, uma certa altivez pela minha posse de funções importantes. Porém, não deixei alienar-me do mundo ao meu redor, do jugo das empresas, e tentei sempre estar a par. Participar em experiências que me aproximassem de outras realidades de negócios, de outras pessoas envoltas em ideais diferentes. Achei que me enriqueceria e enriqueceria o meu trabalho. E  achei bem, foram experiências trajadas de botija, com boquilhas para o oxigénio. Os meses seguintes foram uma catadupa de ideias, de movimentos ferozes para isto e para aquilo.

Hoje, visitei alguns sites de emprego, na procura de desafios que pelo menos me alentassem o ego, que me fizessem pensar que, mesmo não saindo de onde estou, existem possibilidades para além da janela onde bate a chuva, criando uma melodia de melancolia, uma música de dormência. Mas não existem. As possibilidades reduziram-se a metade. E mais de metade da metade é para estágios, alguns sem remuneração. Outros com o apoio do estado, que sendo um estado que não defende a nação, não alenta nem um alentado.

Onde estão aqueles sonhos que sempre me moveram? Estão aqui, mas o cinzento do céu, o apreço da realidade, estão a sodomizá-los, a encolhê-los. Eu não vou desistir deles, pois estou-me a marimbar para o dinheiro e para os luxos. Não quero passear grandes carros nem ter empregadas ucranianas a fazer-me os favores todos, só quero um tecto que me abrigue, um computador onde escrever, algum dinheiro que me dê para viajar. E desafios. Quero tanto hoje como nos tempos de faculdade, desafios. O dinheiro não me move, só me entristece. Os desafios é que fazem tudo isso ser esquecido. Trabalho de graça para projectos que me desafiam. Não posso é ser burro para toda a vida. Algum dia terei que perceber que o dinheiro também faz falta. Que não possa viver eternamente no contar dos tustos, a contrariar os que me vêem como rico. Sou faustoso, sim, mas é na vontade de viver, de me desafiar.

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