Qual destino?

Destino Douro

Quando não controlamos o rumo dos acontecimentos, o vento bate nas nossas convicções – como uma rajada que abana as velas vindo de estibordo – e obriga-nos a seguir outros rumos. Como desculpa, dizemos:

É o destino.

Quando as coisas se compõem, o cosmos une-se para nos acender uma luz no caminho e dizer: é por ali. Não hesitamos:

É mérito.

Mas a vida não é uma linha recta. Tem curvas, oscilações e marés. Como o Douro. Faz encostas e vales. No entanto, o segredo é sabermos que se olharmos só para uma encosta é uma montanha para subirmos. Se olharmos só para uma oscilação do terreno é uma barreira para o destino. Se olharmos só para as marés são um perigo. Mas se olharmos para a paisagem é uma das zonas mais belas do mundo.

O destino é uma farsa para o que não conseguimos controlar. Mas a maior lição dele é: quem conduz, se souber que o leme é para andar solto, apreciará muito mais a viagem. As oscilações são a viagem. O conjunto das montanhas, vales e marés são o destino. O que não guiamos, mas fazemos.

Leme solto e curvas a serem aproveitadas. Este é o segredo da maior viagem sem viajar que podemos fazer. A da vida.

A decisão é nossa

A decisão é nossa

Os dias esvaem-se nas goteiras de chuva que caem no estore, na rua, nas pessoas. Não é fácil a entrada do inverno em pessoas do verão.

Não sou uma pessoa de verão pela tez morena, ou pelo gosto de andar de calções e havaianas, por muito que também aprecie. Sou uma pessoa de verão pelo aflorar de entusiasmos desmesurados, pela vontade louca de fazer história, nem que seja a história instantânea de um momento que nos marca. Gosto de viver. Não gosto de intervalos. Sei que eles fazem falta, que são eles que nos englobam do prazer maior de sentir tudo o resto, o êxtase, com mais veemência, mas não me convencem.

Preciso das borboletas.

Sinto muita necessidade disso, do desassossego de não saber se vai dar tudo certo, da vontade de estar na montra do certo ou do errado, com as mãos expostas para o aplauso ou para o arremesso dos frutos. Sou ansioso. Eu sei, sou ansioso, poucas são as coisas que me bastam. Labuto e labuto por mais, tantas vezes cometendo o erro de não estar a aproveitar os intervalos. A minha mãe nasceu na Venezuela e o meu pai viveu no Brasil, não sei se são esses ares dos trópicos que me avassalam o interior. Nem eles sabem.

Sei lá, é como se o inverno me apagasse parte desse calor, como se os cachecóis me atafegassem a respiração e os casacos me condicionassem movimentos. Só quando chega o cansaço desmesurado é que sinto necessidade de parar. E isso não é saudável, rapta-me os momentos de contemplação, pura contemplação, como o olhar no vazio que nos mostra além do visível. Consigo ter esses momentos no meio da agitação, bem no seu fulcro, mas por breves instantes, para logo regressar ao redemoinho que me catapulta para a tão grande inquietação que me faz sentir que tudo vale a pena.

Não tenho grande controlo sobre mim, a verdade é essa. Gostava de parar mais, de não ter tantas necessidades e anseios, de não querer fazer tudo hoje, quando sei que o amanhã pode ficar vazio, mas não consigo ser assim. Quem me pode julgar?

O destino. O destino que eu vou fazendo e assumindo, o que eu vou escrevendo. Este texto é uma parte do meu destino, é uma libertação de coisas que me agitam nestes dias de inverno que conduzo do trabalho a casa e de casa ao trabalho. Faltam as pessoas na rua, os sorrisos no rosto, às peles à mostra e a vontade de mudar o mundo.

O inverno não é a chuva, é o desconsolo que deixamos que nos domine. Os britânicos também sorriem e a chuva cai o ano todo; os brasileiros também choram e o sol raia o ano todo. A decisão não é do tempo, é nossa.

Oh Deus, como o português é bom freguês.

deus, português, freguês

Repentinamente, numas vontades que o destino adivinha e não avisa, como se toda a firmeza do mundo lhe coubesse, chegam-me umas auras de felicidade que não sei explicar. Jamais serei capaz de expor a felicidade, quanto mais esta oblíqua e, aparentemente, desconexa, que me fura pelo peito e desagua no sorriso.

É bom de mais. São uma espécie de umas cócegas que se rompem nas solas dos pés, para nos deglutir o corpo todo numas tremuras tão boas, tão abichanadas. Ficamos assim meios tontos, meios em busca de uma explicação que não tem explicação e que, por isso mesmo, nos deixa mais e mais alegres, bem-dispostos, resplandecentes. Isto de viver nem é tão complicado assim, quando a sorte está do nosso lado, a modos que sem explicação. Cai do alto do ceptro do céu, do infindo do paraíso, para nos afagar sem aguardarmos.

Eu registei o momento neste pedaço de papel virtual. Foi a minha forma de agradecer esta alegria circunspecta a um momento inócuo, que me fez perceber como sou feliz de ser vivo. E de viver, claro.

Para além disso, tive umas ideias que me deixaram entusiasmado. Se calhar, foram essas ideias que me deixaram assim, que me refrescaram a alma, mas como bom português que sou, acho por bem agradecer ao divino. Pois se corre mal, cá estamos para nos crucificar; pois se corre bem, cá estamos para agradecer a deus. É assim, importante é nunca termos mérito. Somos, enfim, bons fregueses de deus. Desculpamo-lo do mau e acusamo-lo do bom.

Ral
http://www.bubok.pt/livros/6257/Realidades

GRITA, QUE EU AMO!

gritar, berrar, amar

Grita, meu deus, grita!
Grita, pois eu só não fico.
Não posso ficar,
Tenho muito mais para amar.

Sou dono de mim,
Até ao cume da voz que me trazes
De dentro, bem do cerne
Da minha nobre conquista.

Conquistei no olhar,
Mas também me perdi no viajar.
Fui a leme das boémias que partiram
E não mais pude voltar.

Um dia voltarei, claro,
Contudo não sei se a hora será divina.
Talvez seja só morta,
Só mais uma.

Na verdade, pouco me rala,
Quero somente revir,
Voltar a chegar
Ao local de onde um dia parti.

E, aí, poderás gritar,
Espernear e maldizer,
Mas jamais poderás me afastar
Deste meu destino que é amar!

Ral
http://www.bubok.pt/livros/6257/Realidades

O raio do destino…

Podia ter sido tão feliz, podia ter conquistado o mundo, podíamos ter ficado juntos para sempre… mas o destino não quis!

O destino é tramado!

Ele é totalmente abstracto, mas veste-se de rigidez, para arcar com as culpas das falências, de milhares de seres espalhados por esse mundo, por esse planeta. O destino é danado! Eu não o conheço, não o consigo tocar, mas conheço tantas pessoas que já viram a sua vida destruída por ele. Será ele um Deus do mal? Omnipresente e maldoso? Maléfico e perverso?

Nunca ouvi ninguém elogiá-lo, dizer que conseguiu isto ou aquilo, conquistou este ou aquele, porque o destino assim o quis. Nunca, nunca, nunca. Ouço sim que perderam isto ou aquilo, não conseguiram conquistar este ou aquela, porque o maroto do destino lá se pôs no caminho. Esse malvado, o destino. Por que é que ele não junta as pessoas? Por que é que as pessoas só falam dele quando roubou algo?

Ele é um bocado larápio, não é? Rouba a vida, a felicidade, às pessoas. Eu não o conheço, mas pelo que ouço falar dele não tenho curiosidade nenhuma, também. Pensando bem, até tenho. Eu, qual psicólogo, imagino-o como um coitado, frustrado e desesperado, por arcar com as frustrações de um mundo inteiro. Cansado de viver. Cansado de viver as frustrações dos outros.

Ele não será como um amigo imaginário? Na infância, criamos esses amigos, com nome, traços de personalidade, que servem para nos acompanhar, para nos dar alegrias que, nos momentos a sós, não seriam possíveis, de outra forma. Na idade adulta, criamos o destino, igualmente imaginário, mas sem traços de personalidade. Pois, não convém que ele tenha personalidade. Não convém porque se a tivesse não aceitaria ser culpado por todas as frustrações sem ripostar, sem exclamar que tu e tu é que se deviam ter mexido por isto e aquilo e não culpá-lo a ele pelo que não fizeram.

O raio do destino… é o amigo imaginário dos pouco audazes!

 

PS – Já sabem que para saber mais sobre o livro que, em princípio, irei lançar, é só passarem aqui: https://www.facebook.com/groups/118634761614210/