Prazeres

Prazeres

Prazer. A simples palavra desperta em nós uma espécie de desejo oculto, aflora um estremecimento que nos contrai numa sensação que não conseguimos descrever.

É uma palavra que nos sodomiza. Sei que o termo é forte, mas é isso mesmo. Vivemos para os prazeres, para sentir a pele a arrepiar-se, a voz a contorcer-se em suspiros e o corpo a exalar energias animalescas. O prazer é isso: o descontrolo, mesmo quando controlado.

Um simples café, numa esplanada, com uma boa companhia, ou na solidão, é um prazer. Saibamos nós o que gostamos, o que nos faz felizes, e estaremos a encontrar prazeres em todos os recantos da vida. Um boa música a tocar, uma boa paisagem para contemplar, uma boa companhia para admirar, tudo é um prazer. Este texto, para mim, é um prazer. Pela vontade que tenho de escrevê-lo, pelas viagens que faço no momento alucinante de o imaginar e redigir, quase em simultâneo, e claro pelo desafio de tentar criá-lo à medida do que sinto.

Ser desafiado também é um prazer, mesmo que não seja tão imediato. É o contra-senso de nos colocarmos na ponta da ravina e caminharmos em passinhos de lã, na esperança de tombarmos para trás, para o lado da terra firme, depois de nos termos sentido a voar. O prazer também é isso: desafiar a morte, para encontrar a vida.

Mas o prazer, o que nos acciona o arrepio imediato, que nos desajeita na cadeira e nos faz sarpar a cabeça para concupiscência, é o carnal. O que une dois corpos, o que beija o pescoço num deslize subtil dos lábios, o que aperta a pele e liga os gemidos, o que desajeita os lençóis e arremessa a racionalidade, o que faz suar e gritar, exaltar todos os males do mundo, num momento de dormência que se deseja pela vida eterna. O prazer dos corpos. Esse é o prazer que nos faz suspirar, atirarmo-nos ao mundo sem fronteiras de preconceitos, entregues às necessidades físicas, mas também sentindo o desaparecimento de todas as maleitas do pensamento.

O prazer é a libertação, o amor e o desejo são os caminhos.

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Um hoje que preste

Aspiro a tão pouco e a tanto,
A este mundo e a mais um quanto.
Vêm do meu interior fúrias, vontades acesas,
Que me deixam com tão poucas clarezas.

Não é luminoso definir o que é certo e errado,
Quando desejamos crescer e não ser ultrapassado.
Não é fácil, é melancólico e triste,
Mas, por outro lado, deixa-nos sempre de ambição em riste.

Megalómano não é uma definição, uma asseveração,
É tão-somente um caminho para mais uma paixão.
É uma incomensurável ganancia, uma ardente vontade,
Que nos move para alcançar propriedade.

Choro e corroo, devasto o meu fundamento,
Aperto o meu peito, subjugo o meu discernimento.
Olho e o mar bate nas rochas, alavanca-se nas ondas,
Deixa-me especado nas nuvens, que escorrem lágrimas, já prontas.

Envio cartas de amor, escrevo poemas de desejo,
Mas sinto dentro de mim sempre um poejo,
Um fumo espesso de pó que amaldiçoa,
Que faz com que tudo me doa.

Ambição e tentação são diferentes, são díspares.
A tentação é o caminho do belzebu, do que não preferes;
Ambição é a vereda do futuro, do inócuo além,
Do que vem, para na verdade não sermos ninguém.

Ambicionamos o futuro, como se ele fosse o paraíso,
E quando nos granjeia a sorte do presente, não temos mais que um sorriso postiço.
Queremos o amanhã, que é um dia mais próximo do fim.
Ainda assim, tudo serve para explicar esta ideia mais complexa que o mandarim.

O hoje está garantido, pensam os eruditos da futurologia,
Mas a essência é que, na realidade, um agora perdido é uma porcaria.
Sem o hoje, não há mais hoje. O hoje de amanhã não apaga este,
Continua a ser um dia perdido, um dia ido, sem nada que preste.

Amanhã vem, se o deus assim quiser,
Mas é com o hoje que quero aprender,
É com ele que quero viver.

Ral
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Saudade é única

saudades, partida, sentimento, únicoSaudade é o sentimento sem nome, o aperto do coração que tem dificuldade de se descrever em palavras, em verdadeiras narrações. É abstracto e doloroso, na certeza das sensações boas.

É um sentimento antagónico, que dói, faz sofrer, espernear e chorar, mas que só existe pelas vivências indulgentes, pelas pessoas que nos fazem bem. Jamais sentimos saudades de quem nos fez mal, de quem pouco nos acrescentou. Sentir saudade é escrever nas linhas do vento, com palavras mudas: amo-te; adoro-te; desejo-te; quero-te; és especial; jamais deixarás de ter o teu canto no meu fulcro.

Eu amo e sinto saudades. Saudades dentro do amor, em escassos momentos de ausência. A saudade não é exclusiva dos que deixam de ver, dos que sabem que partiram, saudade também é do agora para o depois. É uma equação com um denominador comum, o amor, seja de que tipo for, porém dispõe de diversas variáveis que influenciam o cálculo e, respectivamente, o resultado. As minhas saudades não iguais às tuas, garanto-te! Podemos ter o coração a palpitar apertado, pelo adeus à mesma pessoa, que as nossas saudades não são iguais. Todos sentimos saudades, mas elas são únicas, pessoais. Cada pessoa, feita do seu tecido de pele e vida, transforma a saudade num sentimento uno. Sem replicações!

Saudosos são os tempos, como os corações apaixonados. O amor não vive só do beijo na boca, do aperto dos corpos, também se sente na palavra amiga, no abraço terno, na amizade pura. Saudades existem dos amores, amigos, familiares e desconhecidos que nos completam os dias. É um sentimento forte como uma montanha em avalanche, porém que se doma, que se torna mais brando. Mais brando não é desparecido. A saudade é eterna!

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Como é bonito vê-la passear

Todos os dias ela serpenteava, por entre os amontoados de pessoas nos passeios, e desviava-se, com a delicadeza de uma princesa, dos carros que iam aparecendo. Transformava uma simples calçada numa passerelle.

Eu mantinha-me quieto, no cafezinho do canto, sempre a sonhar com o dia que lhe poderia dizer o quanto é bela. Perguntar-lhe ao ouvido, fazendo-a arrepiar-se com o veludo das minhas palavras, se teria alguém que diariamente a alimentasse de elogios; a fizesse lembrar do quanto é bela, do quanto pode fazer alguém feliz, com a sua simples presença. Não sei se poderei amar alguém que não conheço, sei, contudo, que posso idolatrar uma beleza tão concluída, tão detalhada, que me faz perder o norte. Naqueles instantes, da sua passagem, os meus segundos mediam-se pelos seus passos, os meus batimentos cardíacos pela sua respiração, no fundo, a minha vida entrelaçava-se na de uma pessoa que, apesar de real, era talvez o meu sonho mais distante.

Existia a doce Carla, não tão bela, não tão perfeita, mas tão mais interessada em mim. Todos os dias, sem excepção, aparecia a emanar simpatia, a adocicar palavras com boa disposição e, sem meios-termos, a sussurrar-me: «um dia serás meu, Pedro». Serei mesmo? Perguntava-lhe eu bem-disposto, sem dar a atenção devida, a tão intensas palavras. Ela rodeava-me de elogios, vincava que a sua presença não se devia ao meu péssimo serviço à mesa, somente ao meu belo olhar, à minha pureza que um dia faria alguém tão feliz.

O meu dia vivia dos ápices de interesse matinais: da bela passagem da desconhecida, que alegrava o meu dia; da boa disposição da Carla, que me lembrava que estava vivo. Todo o restante dia era um marasmo. Parecia que habitava num embuste feito pelos deuses da apatia.

Certo dia, entra a Carla diferente dos outros dias. «Não, Pedro, chega. Estou a apaixonar-me por outra pessoa. Nunca poderei ter de ti o que sonhei». Nunca a levei a sério quando dizia que me queria, porém a firmeza do afastamento doeu-me, como se vivêssemos em perfeita harmonia, numa relação de anos. Sentia um vazio, ainda que ela estivesse ali como todos os dias, que não fizéssemos mais que o que sempre fizemos: dividir o ar que respiramos, o espaço em que nos abrigamos.

Tudo mudou, com um toque nas costas.

– Desculpe, podia dizer-me onde é a máquina dos cigarros?

Que voz doce a tocar-me o pescoço, que dedos suaves a acariciarem-me o ombro. Virei-me, claro, e o chão saltou para um sítio onde não o podia ver, transferi a força das pernas para a veemente tremura da voz, para os suores da mão. Não podia ser, a bela rapariga hoje tinha entrado no meu espaço – mesmo não sendo dono dele.

– É, é, é, já, já, aquiiii – não me acredito que acabei de gaguejar como uma criança, quando se sufoca com o seu próprio choro.

Ela sorriu-me, com os seus olhos brilhantes, tocou-me levemente com a sua mão no meu braço e disse:

– Obrigado, menino simpático.

Os pedidos sucediam-se, mas para mim não eram mais que vozes longínquas, a Carla a dizer que não com a cabeça era uma sombra, da bela mulher a debruçar-se sobre a máquina do tabaco, a tirar os cigarros, fazendo de um gesto trivial uma autêntica obra de arte.

Á saída tocou-me novamente no ombro, encostou a sua face à minha e disse, com voz de anjo:

– Vem lá fora, preciso de dizer-te algo.

Sai, sem pensar em mais nada. Assim que a avistei na esquina dirigi-me a ela, ela empurrou-me contra a parede e disse:

– Todos os dias passo por aqui para sentir o desejo do teu olhar – beijou-me com uma incessante voluptuosidade, que me fazia planar sobre as nuvens.

É incrível como o tempo passa, já lá vão 20 anos.

– Pedro, anda-te embora, o jantar está pronto.

– Já vou, amor, já vou.

A bela mulher chamava-se Ana e traiu-me passadas duas semanas. A Carla? nunca deixou de me amar, até hoje. 20 anos depois, portanto.

A ida a Coimbra

Este texto participou num concurso da revistaVolta ao Mundo, não foi seleccionado e agora partilho-o com vocês!

Maio de 2007, já conhecia a adorável Coimbra como a palma da minha mão. Já por ela havia viajado vezes sem fim, com loucas noites académicas, com divertidos passeios pelas faculdades, com românticos fins de tarde junto ao rio. Não eram mais que as viagens mentais que acompanhavam cada história, cada peripécia, que um amigo estudante me contava das suas semanas na famigerada Coimbra. Só tinha vagas passagens de infância por aquela cidade e já a amava como se fosse pertença do meu dia, da minha vida.

Chegou o referido Maio, o calor já emanava no ar, as t-shirts já substituíam os casacos, o sorriso dos dias solheiros já preenchia os rostos, quando me decidi que era o momento: o fascínio iria tornar-se lembrança. Armei o itinerário, conversei com o meu velhinho Renault 5, companheiro de aventuras, e telefonei, telefonei com o entusiasmo de quem sabia que era ali, Coimbra, onde queria estar. À mesma velocidade que essa excitação me dominou, quatro amigos me disseram que sim. Parceiros de vida e para a vida.

– Estou? Como é, vamos ter casa para o fim-de-semana? Somos cinco.

Ele respondeu que já lá deveríamos estar. Questionei se o outro e o outro não se iriam importar, prontamente me avisou que seria o contrário, que agradeceriam a visita. Então o que me falta para me tornar mais um apaixonado pela arrebatadora Coimbra? Falta-me combinar horas e seguir viagem. Assim fiz.

Naquele meio de tarde tomávamos um café na nossa terrinha, a ânsia não podia ser escondida dos nossos rostos, bem como o aumento de cinco para dez. Já não era apenas o meu companheiro, o meu Renault 5, que faria aquela viagem, já um Clio, cinco amigos, se haviam juntado a nós. A minha ânsia era agora o nosso desejo. Uns pelo anseio de regresso, outros pelo nervosismo de uma nova paixão que se criava, que se aproximava.

Em plena auto-estrada, o velhinho Renault movia-se pelo regozijo de quem nele estava instalado, o gasóleo a queimar era substituído pelo fumo da irreverência dos nossos cigarros, o barulho do motor pela sonoridade dos sorrisos sinceros, a chauffage pelos vidros abertos.

Desembarcados em Coimbra, uma viagem de carro por toda a cidade, não premeditada, apenas na procura do acesso exacto ao nosso aconchego para o fim-de-semana. O amor já crescia em mim, a cada traje que via a passar, a cada pessoa que me fascinava por espelhar o Mondego no seu olhar, a cada rua, esplanada, que me parecia tão diferente de todas as outras que já tinha conhecido na minha vida. Descobrimos, meio ao acaso, quando ligamos para saber o sítio exacto, estávamos à porta. Era na parte superior de Coimbra, bem juntinho ao hospital, numas galerias que tinham tanto de banal, como de apaixonante para mim naqueles dias. Seria a marca, a lembrança, da minha primeira grande experiencia em Coimbra. Foi mesmo.

Mochilas descarregadas, surpresas maiores. Qual o nosso espanto, não eramos os únicos a brindar Coimbra, a casa dos nossos amigos, com a nossa visita, talvez lá estivessem mais umas dez pessoas. Sacos-cama no chão da sala, quartos com cobertores no chão, cozinha enfeitada por sumos extra que fariam a delícia do pós acordar, das bocas secas.

A responsabilidade de saber que não era o momento para continuar a condução fazia-nos ligar para uma central de táxis: são 7 táxis para o hospital. Eles vieram, vieram mesmo, e levaram-nos ao restaurante, já bem pertinho do Mondego, daquela azáfama de uma Coimbra que só quem por lá passa compreende. Descíamos as escadas para a sala de jantar e ouvíamos os cânticos académicos, víamos os trajes a cruzarem-se connosco, os empregados loucos de trabalho sem tirarem um sorriso típico de quem faz a Coimbra que nos apaixona. Depois, veio a passagem da ponte já em grandes cantorias, a entrada no recinto, os encontros e desencontros típicos de quando a luz se baixa, de quando a noite é o palco de todas as histórias. Havia bandas a actuar, agora não consigo precisar de quais se tratava. Sei que havia também a tenda do Licor Beirão, do Red Bull, da venda do tabaco, as típicas roulottes para matarem qualquer apetite repentino. Acrescer-se-iam algumas histórias que agora não irei contar. Agora a ponte era atravessada já com a luz do dia, os cânticos já não eram gerais, alguns vergavam ao cansaço, outros às novas amizades, mas todos seguíamos o mesmo rumo, agora sem os táxis. Tudo o que desce também sobe. Subíamos cada rua como se fosse uma planície, tal o entusiasmo. Os vergados ao cansaço vinham passos, metros, atrás, viam uma Coimbra diferente, nunca a que irei guardar na memória.

Já era sábado, os sumos faziam de almoço com as torradas, as pessoas multiplicavam-se no chão, os vinte pareciam trinta, quarenta, cem, tal era a forma como preenchiam cada cantinho da casa. Saímos sem destino, só para sentir o cheiro, o calor, daquela Coimbra que, não passando a ser minha, seria um pouco minha. A passagem nos jardins da academia era obrigatório, não me tornava um estudante de Coimbra, mas tornava-me mais apaixonado pelos estudantes de Coimbra. Como poderia não me sentar junto ao Mondego, naquelas esplanadas ligeiramente abrasadas por um calor de Maio? Como poderia não calcorrear todas aquelas escadarias, aquelas pequenas entranhas, que tornam uma cidade num marco de história, de simbolismo?

Caiu a noite, a rotina da transacta vinha ao de cima, mas a sensação era a mesma do instante que lá havia desembarcado. Nervoso miudinho, de uma paixão para a vida.

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A minha manhã – do dentista ao cigarro

Hoje, bem cedo, levantei-me, com destino ao dentista. Cheguei, segurando o meu livro (O Mundo é tudo o que acontece – Pedro Paixão) e sentei-me numa sala de espera, agradável. Sofás verde vivo, um plasma, algumas revistas espalhadas, pessoas simpáticas e um barulho, esse mais confrangedor, que vem de dentro do consultório. Li, até ouvir: Ricardo, pode vir!

Assim que entrei, o habitual cumprimento, o pousar do meu livro e casaco num cantinho para o efeito, o olhar para um outro plasma que distrai os utentes no consultório e por fim o sentar na cadeira. Passaram-se os minutos e eu fui ouvindo as brocas, vendo os movimentos com aplicação de alguma força, o apontar de espelhos e trincando e deixando de trincar, conforme me iam pedindo. Nunca houve dor, apenas dormência.

Logo que peguei nas minhas coisas, que me dirigia à saída do consultório e à parte mais dolorosa, o pagamento, uma voz solta, contundentemente, um:

– Ricardo, já sabe que na próxima hora nada de comida ou cigarros.

Eu sabia, mas parecia que me queria esquecer. Eu já tinha tomado o pequeno-almoço, o café e até já tinha fumado, não havia necessidade de o fazer na próxima hora. Porém, quando uma voz, uma pessoa, teima em nos proibir somos dominados por uma forte vontade de contrariar. Estarei errado?

A proibição é o maior motor do desejo. Durante essa hora, que já terminou, comecei a dar por mim a imaginar-me a tomar café e a fumar um cigarro. Aquela sensação da mistura do azedo do café, com o doce do açúcar, a roçar os meus lábios e a escorrer para dentro da minha boca, aquela cremosidade de um café bem tirado a fazer-me dar uma leve lambidela, para manter o gosto vivo. Quase sem intervalo, esticar a mão e puxar um cigarro, dar-lhe vida com um isqueiro preto que esta logo ao lado e dar aquela primeira passa, longa e duradoura, que parece dar continuação ao ritual de beber o café. Mas não, estava proibido. Agarrei-me ao computador, enviei uns orçamentos do trabalho que estavam pendentes, vagueie pelas notícias, li alguns textos que me pareceram interessantes e comecei a pensar no que teria para vos escrever. Não me ocorria nada.

Passou a hora, acendi o cigarro e comecei a escrever-vos. Este cigarro nunca me teria sabido tão bem, se não me tivessem obrigado a não fumá-lo, numa hora que provavelmente não o fumaria.

Amar-te num pedaço de céu

Vivemos num pedaço de céu, não o céu de todos, o céu que nós criamos, aquele que é só nosso. Que fomos gerando a cada sorriso, caricia, troca de palavras, partilha de histórias e/ou loucuras. Aquele que é só nosso.

Olho-te, como um louco olha as suas alucinações; vejo-te, como um adolescente vê o seu desejo; toco-te, como um invisual toca a sua visão; imagino-te, como um sonhador imagina o seu futuro; respeito-te, como uma criança respeita o seu medo; amo-te, como um apaixonado ama a sua paixão.

Como podemos descrever este pedacinho enublado de uma matéria intangível que nos suporta no ar? Nuvem? Céu? Não sei, porque tenho que saber? Sou livre, estamos livres. Estamos a levitar. Sou leve a teu lado, és leve a meu lado.

– Amo-te.

Eu também te amo, também me emaranho no dia-a-dia, também subo a minha felicidade à velocidade do teu sorriso, também deixo o peso do meu corpo cair à velocidade do zumbido da tua tristeza, ao som do teu silêncio.

– Preciso-te.

E eu preciso de ti, preciso do teu sorriso, preciso do teu chamamento, do teu toque. Do Éden do teu olhar, da viagem do teu toque, da adrenalina das tuas palavras. Preciso de a cada dia ser feliz, de me tornar mais feliz. Um dia não precisei de ti, tu não precisaste de mim, mas hoje, hoje é diferente, hoje temos um pedaço de céu.

– Gosto de gostar de ti.

Gosto que gostes de mim. Não me defino pelo que sou, pelo que és, defino-me pelo que somos. Partilha é fusão, por mais antagónica que a frase se torne. Um dia fundi-me a ti, para partilhar contigo. Para tornar o inconcebível exequível.

– Algum dia isto terá um fim?

Só direi não. Porque não quero, porque não sei. O não domina, o não é incerto até quando fazemos dele uma certeza. Não sei, não quero. Não penso nisso, não quero pensar nisso.

Estou a viajar: parti do teu olhar, virei na curva do teu sorriso, deslizei pelo ondulado do teu cabelo, toquei o rumo da tua pele, abasteci no doce do teu perfume, acelerei nos contornos do teu corpo e… não tem fim! És uma viagem sem fim. És a aventura de uma vida.

– Já disse que te amo?

Não precisas. Eu vejo-o no teu sorriso, no teu olhar brilhante, nas tuas palavras doces, no teu toque ternurento, mas diz. Eu quero que digas, afinal também preciso que o digas.

– Amo-te.

Como eu te amo a ti. Nunca desças deste pedaço de nada, desta nuvem branca de matéria de intangível, deste cantinho de céu que é nosso. O futuro vem com o amanhã, mas nem ele pode apagar este pedaço de céu que é nosso. Que construímos, que conquistamos. É bom amar-te num pedaço de céu.

PRRRIIIMMMMM 

– Não acredito, já são 8h da manhã !!