Todos os agoras

Todos os agoras

A insensata vontade do agora nem sempre se reveste do valor que lhe entregamos no futuro. É verdade que devemos viver o momento, entregarmo-nos a ele com a essência duma cachoeira que nos resvala os socalcos da memória. Mas não podemos deixar o progresso ser bloqueado.

Devemos criar o agora, sim, vivê-lo, contudo, jamais desprezando o plano que nos definirá o traço do depois. Um fino é bom, dois finos são óptimos, mas o terceiro já nos pode estar a roubar o marisco do jantar. É preciso avaliar, ajuizar, medir e seguir. Seguir sempre, infindamente, sem nunca descurar, porém, o que depois vem. Podemos duvidar dele – duvidamos sempre -, mas não nos convém subestimá-lo. Ele chegará. Pensar que ele pode não chegar só é bom nos panfletos das publicidades supérfluas: não deixe fugir esta promoção. Mas o agora traz-nos bacalhaus para casa, ao preço da chuva, que só comeremos no Natal. Três bacalhaus para o Natal, à farta, mas sem os aperitivos no Verão. Perdeu-se um agora, por um outro agora que antes existiu. E isto é que não se mede.

O agora é bom, vai ser sempre, é a prova de que existimos, de que vivemos, de que sentimos. O agora rouba-nos o pensamento e entrega-nos ao regaço dos acontecimentos, à maravilha do sol que bate, do vento que sopra, da prosa que flui, da mulher que se encanta. Mas não nos dá o futuro. O futuro faz-se de objectivos e só os objectivos se definem de importância, quando os agora se fazem em função deles. Os viajantes, semelhantes a pessoas sem sentido para a vida, só agarradas ao momento da viagem, à sensação do desconhecido que se apodera dos sentidos e faz o conhecimento mais amplo de que há memória, são pessoas ponderadas, sabedoras do que desejam. Ponderam que o agora delas é a viagem e, portanto, seguem a rumo desse objectivo. Abandonam os outros agora mais supérfluos. E falta-me essa aprendizagem. Todos os agora ainda me parecem importantes e não são.

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A decisão é nossa

A decisão é nossa

Os dias esvaem-se nas goteiras de chuva que caem no estore, na rua, nas pessoas. Não é fácil a entrada do inverno em pessoas do verão.

Não sou uma pessoa de verão pela tez morena, ou pelo gosto de andar de calções e havaianas, por muito que também aprecie. Sou uma pessoa de verão pelo aflorar de entusiasmos desmesurados, pela vontade louca de fazer história, nem que seja a história instantânea de um momento que nos marca. Gosto de viver. Não gosto de intervalos. Sei que eles fazem falta, que são eles que nos englobam do prazer maior de sentir tudo o resto, o êxtase, com mais veemência, mas não me convencem.

Preciso das borboletas.

Sinto muita necessidade disso, do desassossego de não saber se vai dar tudo certo, da vontade de estar na montra do certo ou do errado, com as mãos expostas para o aplauso ou para o arremesso dos frutos. Sou ansioso. Eu sei, sou ansioso, poucas são as coisas que me bastam. Labuto e labuto por mais, tantas vezes cometendo o erro de não estar a aproveitar os intervalos. A minha mãe nasceu na Venezuela e o meu pai viveu no Brasil, não sei se são esses ares dos trópicos que me avassalam o interior. Nem eles sabem.

Sei lá, é como se o inverno me apagasse parte desse calor, como se os cachecóis me atafegassem a respiração e os casacos me condicionassem movimentos. Só quando chega o cansaço desmesurado é que sinto necessidade de parar. E isso não é saudável, rapta-me os momentos de contemplação, pura contemplação, como o olhar no vazio que nos mostra além do visível. Consigo ter esses momentos no meio da agitação, bem no seu fulcro, mas por breves instantes, para logo regressar ao redemoinho que me catapulta para a tão grande inquietação que me faz sentir que tudo vale a pena.

Não tenho grande controlo sobre mim, a verdade é essa. Gostava de parar mais, de não ter tantas necessidades e anseios, de não querer fazer tudo hoje, quando sei que o amanhã pode ficar vazio, mas não consigo ser assim. Quem me pode julgar?

O destino. O destino que eu vou fazendo e assumindo, o que eu vou escrevendo. Este texto é uma parte do meu destino, é uma libertação de coisas que me agitam nestes dias de inverno que conduzo do trabalho a casa e de casa ao trabalho. Faltam as pessoas na rua, os sorrisos no rosto, às peles à mostra e a vontade de mudar o mundo.

O inverno não é a chuva, é o desconsolo que deixamos que nos domine. Os britânicos também sorriem e a chuva cai o ano todo; os brasileiros também choram e o sol raia o ano todo. A decisão não é do tempo, é nossa.

Escrever sobre altruísmo

altruísmo, ajuda, apoioEscrever sobre altruísmo é oferecer-vos as palavras, dá-las em vitrinas feitas de pensamentos meus, para me tornar interlocutor de palavras vossas.

Tudo começa nas palavras. Falam da tecnologia, da evolução, mas é a comunicação, as palavras, que tudo movem. O mundo gira soprado pelas palavras. Elas são altruístas. Não têm como não ser, quando se resumem em partilha. Usamos as palavras para falar para nós, mas essa reflexão, essa conversa para dentro, é somente um rascunho do que pretendemos decifrar, partilhar, aos outros. Falar é ser altruísta, usando palavras boas ou más, bonitas ou feias, caras ou corriqueiras. Eu sinto que sou altruísta. Gosto muito de ajudar os outros no que posso. Mas ajudo muito nas palavras, os actos são deles. Eu digo, porque já o vivi, faz assim; a decisão de fazer é dele. A vida é dele. Eu delego um pouco de mim nele, com palavras altruístas, mas a decisão, o movimento, a atitude, tem que ser dele. Ele é que sabe. Ele é que decide.

Contudo, não só as palavras que fazem o altruísmo. Os gestos também fazem, claro, conforme a situação. Se o homem tem fome, altruistamente, eu posso dizer come, porque sei que a fome se mata com comida, não obstante, se ele não tiver dinheiro, a palavra não é altruísta, é chata. Ele sabe que a fome se assassina com a comida, falta-lhe é o mote para a comida. Aí, nesse caso, eu preciso agir. Preciso, afinal, dar-lhe a comida. Não o dinheiro. A comida. É essa que lhe vai matar a escassez, é essa que vai fazer de mim altruísta.

Altruísta, aliás, que já fui agora. Falei do altruísmo, pus-vos a pensar no altruísmo e a ver que um senhor com fome pode ser mais feliz com um pedaço de pão.  Haverá algo mais altruísta que isto? Não sei, não posso saber. Vocês é que estão desse lado, você é que têm problemas que este ecrã não me deixa ver. Posso ajudar? Juro que quero ajudar. Gosto de falar, de conversar com pessoas que necessitam de palavras minhas, de atitudes bondosas. Isso, ajuda, é o que eu quero dar. Mas ajuda não é altruísmo, se for favor. Atenção, altruísmo é dar sem mais nem não. Não há condição. Não há interesse. Só bondade. Só coisas boas.

Altruísmo é bonito quando não quer ser bonito. Se for atrás da lindeza não é altruísta, é exibicionista.

Para encomenda de livros, sem portes: ricardoalopes.lopes@gmail.com

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Politiquices

Começo este texto afirmando a minha total incapacidade para fazer comentários políticos. Correcção, comentários políticos fundamentados! As minhas opiniões em relação a quem nos governa ou como nos governa, como bom cidadão português, ou do mundo, são em longas conversas de café, acompanhadas de um ou vários copos, em que imerge uma necessidade de discussão. Ora política, ora futebol! Em duas dessas conversas surgiu o mote para este texto. Uma realizou-se há meses, outra esta semana.

Recordo-me de em uma das minhas longas intervenções, autênticos monólogos a partir da terceira frase, dizer algo do género: “Já viste este Sócrates? Mente-nos com todos os dentes que tem! Tenta fazer-nos acreditar que está tudo bem.”. Passaram-se alguns meses, em nova conversa de café, disse: “Já viste este Passos Coelho? Diz para a malta ir para fora, é o que toda gente pensa, mas daí a dizer. Ficou-lhe mal!”. Aproveito estas minhas duas intervenções para me personificar na imagem do “Zé Povinho”. Vivemos a fase de paixão nas eleições, “Este sempre é melhor!”, a condescendência inicial, “Opa é chato, mas tem que ser!” e a rotina destruidora, “São políticos, é tudo mais do mesmo!”. Criando em nós a necessidade de criticar, não fundamentar, criticar! Um era mentiroso, o outro é sincero de mais! Nós somos contestatários, como devemos ser, ajuda-nos a criar uma necessidade de mais e melhor, mas devemos abstrair-nos da necessidade de criticar pelo simples prazer de criticar.

– Vim para aqui porque sou da geração à rasca! Abaixo o governo!
– O que gostaria de ver melhorado?
– Tudo, isto está uma miséria, pá!

Sendo eu um recém-licenciado, não posso estar feliz. Porém dou o benefício da dúvida a quem lá está, ou será uma resignação encoberta? Eu acredito que quem lá chega não é corrompido pelo poder, chamem-me inocente, é sim flagelado pela necessidade de tomar decisões. Já alguém pensou no peso de uma decisão que influencia, não só a nós, como a um país inteiro?

Com tudo isto não quero defender a classe política, que tanto me prejudica, quero é fazer um apelo. Eles têm a responsabilidade e com ela o direito de nos tirar regalias, oportunidades de carreira e mesmo dinheiro, não vamos é deixá-los tirar-nos o direito de sorrir. Vamos ganhar a capacidade de nos rirmos de nós mesmos. França e Alemanha nunca nos olharão com outros olhos que não de gozo, mas se nos rirmos de nós mesmos, perderá, para eles, a piada de o fazerem. Devem estar a pensar, “Olha este a dizer para sermos uns palhaços!”. Eu respondo, para mim, sorrir não é atestado de parvoíce, é o comprovar de inteligência. Já pensaram que para nos rirmos de uma piada temos que a perceber?

Dou-vos a liberdade de com isto interpretarem este texto a vosso bel-prazer. Não deixando de dar mais uma “bicada”, com uma citação de Fernando Pessoa.

“Gostava de ter a tua alegre inconsciência, com consciência disso!”