Qué do Valentim?

Não se faça a sentença do crime errado.

Qué do Valentim, António? Está contigo. Não, não está. Ai isso é que está, que ele estava do teu lado. Pusemo-nos aqui a ver a banda a tocar o clarinete e ele foi para o teu lado, mulher. Foi é o raio que te parta, António, que estás sempre a dormir. Onde é que ele está, Amélia? Sei lá eu bem, caralho. Oh foda-se para a mulher.

As pessoas aglomeravam-se na fila, com o palco ali mesmo ao pé, onde tocava a banda das fanfarras da romaria. Muitos casacos iguais, muitas pessoas alvoraçadas, arrelampadas pelo bonito concerto que a banda, vestida a preceito, em fatos iguais para homens e mulheres, dava.
Olhe, faz favor, não viu aqui um catraio de casaco vermelho? Ouça, ele estava com um algodão doce na mão, não há-de ser difícil recordar-se.

Tem a certeza? Veja lá se viu e não se lembra. Está a falar a sério? O casaco era vermelho, não há-de haver muitos. Veja-me lá com atenção.
Nada. Nenhures. Parte alguma. A Amélia, desaforida, encrespada, gritava que o António era mau pai, mau marido, mau diabo. Que não atentava em nada, que andava na vida a ver os outros andar. O António, entre a confusão de gentes dos carrosséis, todas cheias de vida para vida nenhuma, sublevava que a Amélia era uma caralha, que não havia paciência que a aturasse, mais os maus modos dela. Perguntava, questionava, interrogava, mas ninguém vira o miúdo de casaco vermelho, a comer o algodão doce.

Estavam ambos parados no meio da rua, com a romaria a passar-lhes ao redor, em forma de ruídos dos carrosséis e vendedores ambulantes, das pessoas agitadas pela festa que só se dá uma vez ao ano, e as lágrimas principiavam a escorrer-lhes pelo rosto sem estribeiras, como uma portada de barragem aberta. Onde pára o nosso Valentim, António? Eu não vivo sem ele. Tem calma, Amélia, chega-te cá, abraça-te a mim, que vamos já encontrá-lo. Eu não saio daqui sem o nosso menino, disse o António, emocionado, caído.

E do fundo, de trás das luzes das chávenas que chocam entre si numa corrida a dois euros, apareceu o Valentim. A sorrir, enternecido pelo jogo dos barulhos com os movimentos dos carrinhos de choque. Pai, mãe, vejam este carrossel! E os dois olharam, por entre a fila de pessoas, como se de lá viesse uma aparição que pudesse ser o quatro segredo da antologia religiosa portuguesa.

A Amélia aprontou-se, aliviada mas mais arreliada. Tu nunca mais nos faças isto, Valentim, estás a ouvir? Não podes sair assim, assustar os teus pais. A tua mãe tem razão, Valentim, tem muita razão!, disse o António, cheio de vigor fingido. Eu não vos assustei, vocês é que estavam a gritar e eu queria brincar, na festa.

Os dois, o António e a Amélia, olharam-se e pegaram o Valentim pela mão. O catraio, no meio, continuava absorvido pela convergência de luzes e sons, pela necessidade de se divertir. Os pais, agrilhoados, focavam os olhos um no outro como se não houvesse mais festa à volta. Beijaram-se, por cima do pequeno Valentim.

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Oh Merkel, daaassssss!!

Ontem estava a jantar – estava óptimo, por sinal – e irrompe pelo ecrã da minha televisão, da cozinha, a Merkel. Que sobressalto.

A notícia remetia para o suspiro de alívio, da europa, com a vitória dos apoiantes do euro na Grécia. Todavia, a Sra. Merkel avisava que não é para relaxar, só têm mais é que continuar a aplicar austeridade. Porra para a mulher, não dá descanso. Aquela altivez, aquele jeito tecnocrata, só pode agradar aos nazistas, acho.

Com isto, e com a falta de domínio sobre o meu pensamento, comecei a exercitar os músculos da imaginação. Qual ginasta da fantasia. Conseguem imaginar a Merkel em criança? Eu sei, eu sei, as crianças deviam ser queridas.

Antes de caminhar pelas sinuosidades, daquele rosto sobranceiro, até à infância, apeteceu-me dizer-lhe, olhos nos olhos:

– Sabes Merkel, as pessoas não te respeitam assim tanto, existe é um dizer antigo que explica isso. Queres saber qual é? Eu digo, claro. «Quando estamos à rasca, até às silvas nos agarramos».

Depois assustei-me. Lá estava uma miúda, ai de 5 ou 6 anos, fortezinha, de cabelo aloirado e de trombas.  De trombas enquanto todos brincavam, óbvio. Sentada num canto, a olhar para eles, como se todos fossem ridículos com aquelas brincadeiras. Só ela é que está certa, um pouco como agora, aliás. Consigo, até, imaginá-la a entrar na sala e a reclamar do odor, típico da diversão naquela idade, que eles levavam para a sala. A repetir várias vezes: professora, professora, professora. Sempre participativa na aula, sempre a leste do mundo. Digo a leste, sem a querer atrapalhar na busca disso no mapa, é só uma analogia.

Ai, mas ela cresceu. Já tinha uma ou duas amigas, que ela fazia questão de ridicularizar os namorados: «Ele é só músculo, não tem cabeça nenhuma»; «Por favor, que personagem ridícula»; «A sério, como consegues gostar dele?». Acredito que não fugisse muito a isto, aliás, fugir só mesmo os homens dela. Aos poucos, também as amigas.

Lá vem a Universidade, pode ser que se salve. Ou talvez não. Parece que está a conquistar uns amigos, que aproveita para constantemente criticar e altivar-se perante eles, contudo rapidamente se percebe que eles só querem os apontamentos, os trabalhos, ou coisa assim. Depois ela reprova todos em frente aos professores, denuncia os que estão a copiar, aponta o dedo aos que não foram às aulas e aparecem no livro de presenças, enfim… já nem os apontamentos a salvam.

Esta foi a viagem, horripilante, que fiz pelo passado da Merkl. Acham que esta personagem, ficcionada, pode ser ela? Eu tenho dúvidas. Não tenho dúvidas que possa ser ela, tenho dúvidas é que, mesmo sendo fruto da minha imaginação, possa ser ficcionada.

Estava a brincar, Merkel. Vai uma cerveja? Então não te mexas, vou chamar aquele empregado!

O que é que queres ser, quando fores grande?

Jogador de futebol, astronauta, cantor famoso, actor e bombeiro. Não me esqueci de nenhum, acho. E a ordem é aleatória, claro.

Não é fabuloso ser criança? Quando somos mesmo pequeninos não temos a verdadeira consciência disso, talvez por isso é que seja tão bom. Ao não sabermos que estamos a viver anos mágicos, marcantes para toda a vida, não criamos uma pressão, desnecessária, de ser perfeito. Simplesmente vivemos, e como é bom. Claro que mais tarde vingamo-nos de todas as pressões que não colocamos em criança, contudo isso já é outro capítulo.

Claro que me lembro de me perguntarem o que eu queria ser quando fosse grande, por norma, respondia associado ao que andava a ver na televisão. Ainda hoje me acontece um pouco isso, aliás. No entanto, na altura era diferente, não tinha a mínima consciência da responsabilidade que colocava ao dizer que queria ser isto, aquilo, ou até aqueloutro. Não havia responsabilidade, é certo. Agora, a cada sonho que despojamos, alguém presta atenção para ver o que fazemos, até chegar a ele. Por um lado é bom, ou pelo menos parece-me, responsabilidade nunca fez mal a ninguém. Logo que motive, claro. E se não chegarmos a sê-lo? Lá vem o Carmo e a Trindade, por aí abaixo. Podemos ter dito a mil pessoas que queríamos ser isto, se não formos, pelo menos uma irá sempre lembrar-nos como fomos um fiasco. Como se nós não o soubéssemos; como se nós não nos lembrássemos. É o preço a pagar, pela ambição.

Eu não sou rico, mas já fui criança. Assim, o que não ganhei em dinheiro vou mantendo em recalques de personalidade. Ora traz-me algo de bom, ora dá barraca, todavia vale o risco. Tal como vale o preço que pagamos pela ambição.

Eu continuo a querer ser tudo o que projectava em criança, até porque se um dia pensei nisso ainda aqui está, por mais em baixo que seja. Alguns, que me conhecem, agora estão a rir-se da parte do bombeiro. Bem sei que não pelas melhores razões, mas é certo que me aproximei de um sonho de menino. Cantor famoso? Se calhar cortar a parte da cantar e ir atrás da fama, não pela música, pelo reconhecimento de algum trabalho, de alguma arte. Actor? Já fiz cada papelinho, já aturei cada peça, só me falta entrar nos morangos, não é? Jogador de futebol? Antes nem a bola conseguia chutar, agora já jogo uma vez por semana, não notam uma evolução? Então, ainda posso almejar. Astronauta? Tenho pessoas, na minha vida, que me levam à lua, já não faço é questão de usar o fato. Acho até que será um pouco desconfortável.

Sonhem, porra! Estão sempre a dizer que eram crianças felizes, contudo agora não fazem outra coisa que não seja tentar mostrar-se muito adultos. Eu sou e serei sempre uma criança, só fico mais responsável. Ser grande? Isso é uma seca, só se pensa em problemas!

Amar-te num pedaço de céu

Vivemos num pedaço de céu, não o céu de todos, o céu que nós criamos, aquele que é só nosso. Que fomos gerando a cada sorriso, caricia, troca de palavras, partilha de histórias e/ou loucuras. Aquele que é só nosso.

Olho-te, como um louco olha as suas alucinações; vejo-te, como um adolescente vê o seu desejo; toco-te, como um invisual toca a sua visão; imagino-te, como um sonhador imagina o seu futuro; respeito-te, como uma criança respeita o seu medo; amo-te, como um apaixonado ama a sua paixão.

Como podemos descrever este pedacinho enublado de uma matéria intangível que nos suporta no ar? Nuvem? Céu? Não sei, porque tenho que saber? Sou livre, estamos livres. Estamos a levitar. Sou leve a teu lado, és leve a meu lado.

– Amo-te.

Eu também te amo, também me emaranho no dia-a-dia, também subo a minha felicidade à velocidade do teu sorriso, também deixo o peso do meu corpo cair à velocidade do zumbido da tua tristeza, ao som do teu silêncio.

– Preciso-te.

E eu preciso de ti, preciso do teu sorriso, preciso do teu chamamento, do teu toque. Do Éden do teu olhar, da viagem do teu toque, da adrenalina das tuas palavras. Preciso de a cada dia ser feliz, de me tornar mais feliz. Um dia não precisei de ti, tu não precisaste de mim, mas hoje, hoje é diferente, hoje temos um pedaço de céu.

– Gosto de gostar de ti.

Gosto que gostes de mim. Não me defino pelo que sou, pelo que és, defino-me pelo que somos. Partilha é fusão, por mais antagónica que a frase se torne. Um dia fundi-me a ti, para partilhar contigo. Para tornar o inconcebível exequível.

– Algum dia isto terá um fim?

Só direi não. Porque não quero, porque não sei. O não domina, o não é incerto até quando fazemos dele uma certeza. Não sei, não quero. Não penso nisso, não quero pensar nisso.

Estou a viajar: parti do teu olhar, virei na curva do teu sorriso, deslizei pelo ondulado do teu cabelo, toquei o rumo da tua pele, abasteci no doce do teu perfume, acelerei nos contornos do teu corpo e… não tem fim! És uma viagem sem fim. És a aventura de uma vida.

– Já disse que te amo?

Não precisas. Eu vejo-o no teu sorriso, no teu olhar brilhante, nas tuas palavras doces, no teu toque ternurento, mas diz. Eu quero que digas, afinal também preciso que o digas.

– Amo-te.

Como eu te amo a ti. Nunca desças deste pedaço de nada, desta nuvem branca de matéria de intangível, deste cantinho de céu que é nosso. O futuro vem com o amanhã, mas nem ele pode apagar este pedaço de céu que é nosso. Que construímos, que conquistamos. É bom amar-te num pedaço de céu.

PRRRIIIMMMMM 

– Não acredito, já são 8h da manhã !!

Nem só de palavras vive o amor…

 Nem só de palavras vive o amor, nem só de actos vive a paixão, nem só de ideias vive a escrita. Hoje começo a escrever para vocês, somente para vocês, sem saber sobre o que escrevo.

Podem acusar-me de fazer da escrita uma obrigação, de isso realçar em mim um pretensiosismo típico de quem se quer impor, aparecer. Feliz ou infelizmente terei que vos dar alguma razão. Sinto necessidade de aparecer, sinto necessidade de ser acarinhado, sinto necessidade de ser mimado. Poderia esconder-me atrás de uma capa de heróicas forças, de personalidade assertiva, dura, mas não consigo. Sou tão frágil quanto as pequenas folhas de papel em que tomo notas para diariamente vos escrever.

Não sei se tudo isto faz de mim pequenino, coitadinho, ou simplesmente humano. Tenho vivido fases diferentes da minha vida: já fui uma criança inocente; já fui um adolescente rebelde; já fui um pré-adulto egoísta, egocêntrico; já fui o que sou hoje; em todas elas precisei, mais ou menos, de palavras reconfortantes, de gestos ternurentos, de ombros amigos, de beijos apaixonados e/ou sedutores.

Por vezes questiono-me que tipo de pessoa serei eu ao certo: serei eu independente? Serei eu carente? Sinceramente, não sei o que fui, não sei o que sou e tenho dificuldade de imaginar o que serei. Mas porque raio deveria eu definir-me? Em que ponto isso me deixaria?

Acrescentaria:

Nem só de palavras vive o amor, nem só de actos vive a paixão, nem só de ideias vive a escrita, nem só de rótulos vivem as pessoas.

Existe uma forte necessidade de nos definirmos, de podermos dizer aos outros quem somos, qual o nosso padrão de comportamento, o nosso guião de acção, mas raras vezes acertamos. Quando nos definimos a alguém, quando dizemos que em X fazemos Y, parece que um condão faz aparecer, horas depois, aquele e X e nós iremos fazer o Z. «Porra, nunca foi assim que eu reagi a isto!». E não, não mesmo, mas nós vivemos em constante mutação. Metamorfose, essa sim, pode ser uma palavra que nos descreve.

Rebuscando nas minhas teorias mais recônditas, poderia dizer que quanto mais nos apercebemos dos nossos padrões de comportamento mais tendência natural temos para os alterar. Talvez não seja uma teoria que possa apresentar ao mundo, mas certamente é uma teoria que se aplica a mim.

Pude dar-me ao luxo de fazer uma dissertação sobre quem sou, sobre o que penso, porque sei que quando o lerem não será mais que uma história ficcionada. Já eu serei outra pessoa, já serão outras coisas a circundar o meu pensamento, já tudo o vento terá levado.