Discussões

DiscussõesComo gostas de ter razão, é incrível. E sedutor.

Seduzo-me pela forma como crias as palavras no ar. Não são sons, são desenhos. Acompanho-as, paulatino e embebecido, a saírem dos teus lábios em direcção a mim. Viro a cara, para recebê-las no rosto, macias ou pungentes. Pensas que sou eu a fugir dos teus argumentos, a resguardar-me da discussão que tanto queres, mas não. Sou eu a transformar os teus argumentos em beijos.

Arrepio-me com os teus argumentos.

São feitos da textura do teu olhar, da pujança que entregas a cada ideia. Vamos no carro, eu a olhar a estrada e a mexer o rádio, a remexer os papéis do porta-luvas, enquanto vociferas. Ficas mais chateada a cada vez que te parece que não ouço nenhuma das tuas palavras. E não. As tuas palavras não são para serem ouvidas, são para serem sentidas.

Com o ar regelado das ruas no inverno, não faz sentido que eu deixe partir as tuas palavras para o ar e as perca. Quero agarrá-las todas, deixá-las baterem no meu rosto, no meu coração, no meu peito, em todo lado. Quero sentir as tuas palavras, por isso te digo para falarmos em casa. Na rua, sinto que vão roubar as tuas palavras e não posso permiti-lo. Quero-as para mim.

Não me calo por não querer saber, confia, silencio-me pela beleza da tua pele a engelhar-se com os nervos, pelas tuas cordas vocais a salientarem-se nesse teu pescoço feito de cetim e pelo esbugalhar dos teus olhos. Depois, é só a luta de apanhar no ar cada uma das tuas palavras. Não quero perder nenhuma. São beijos incríveis.

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No teu olhar

No teu olhar

Aonde? Não te encontro em parte nenhuma. Procuro-te e procuro-te, desvanecido como um nuvem, e deparo-me sempre com a tua ausência.

Que saudades da tua voz, do teu tocar, do teu sentir. Não me apetece usar o ‘e’, a lista poderia continuar. Não é o amor que ferve nas entrelinhas do meu coração, é a saudade, a falta que me fazem as pequenas coisas. O olhar. A viagem que sempre fiz pelo teu olhar, os sítios onde me levavas quando me encaravas, as mensagens que me ditavas em silêncio. Uma mulher que olha assim, com o mundo dentro da menina do olho, é uma mulher especial. O cabelo deslizava-te, a pele torneava-se, o mundo acontecia, mas eu estava ali. No teu olhar.

Aquelas palavras curtas, certeiras, que me rompiam como uma aragem que erra por nós adentro. Trémulo, procurava a tua aprovação. Transitava os meus objectivos para ti, liquefazia-me nas minhas ideias, como numa procura infinda por uma resposta tua. Um orgulho, um elogio, sei lá, um beijo. E tu a aconteceres especial em frente a mim, subtil, mergulhada em certezas e incertezas, divagante como uma poeta. E eu a olhar para dentro, para dentro e para dentro. Com tudo a acontecer do lado de fora. O arrepio da pele, o toque do beijo, o aconchego do corpo. Sinto a tua falta nas palavras que não escuto, nos olhares que não vejo e nos ventos que não assomam.

É Outono ou Inverno, o vento sopra, mas é silêncio. Apenas zumbe, não reclama, não elogia, não oferece verdade. O mundo acontece além de nós. No teu olhar.

Tempo

Ficam. Simplesmente ficam, perpetuam-se no pensamento como omnipresenças do nosso inconsciente, que se veste de consciente.

Ficam e vão ficando. Trazem culpas e remorsos, coisas que se pretendiam fazer diferentes e não se fizeram, coisas que eram para ter sido feitas e não foram, coisas que se fizeram e se repetiriam vezes sem conta, coisas que se guardam e coisas que se vão.

Vive ali, naquele cantinho pequenino que cresce dia após dia, como uma flor na primavera ou um musgo no inverno. Cresce e isso é que é importante, é que é a natureza. Os erros ensinam e fazem crescer, as vitórias inebriam e fazem não ter vontade de parar. As coisas acontecem, vão acontecendo, o coração palpita e a cabeça agita-se, experimenta-se as angústias e ansiedades, passa-se pela exigência de viver e sorri-se, soltam-se os lábios ao céu e bafeja-se tudo o que se sente, a alegria inebriante de pequenas coisas, a esperança tonta que é um sopro de vento a abanar uma planta, a desenhar na corrente de um rio ou a acariciar o rosto. São os anos a passar, os dias, as horas, ou os segundos. É a cabeça a funcionar e o coração a bater.

Nevoeiro

Quando o nevoeiro esconde a sensação, a brisa propaga-se, afasta-se do céu e toca os corpos, aperta os corações, desenfreia as cabeças e coloca-as a pensar. A pensar demasiado, a apartar a naturalidade da vida, que mais do que pensada deve ser vivida. Vivida com calor e com frio, com névoa e sol. Vivida. Sempre vivida. A vida é para ser vivida.

Amanhecer no Porto

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Desabrocha cintilante de uma luzência escura,
Reflecte fresco num pórtico de candura,
Ai, como eu amo este Porto dos leões,
Que ainda está, por ora, sem confusões.

Deslizante, em critério assumido, segue o vento,
A galope do seu timbre sem tento.
Quem sabe, irá desaguar à Foz,
Uma praia que seduz algo de nós.

Baralham-se os sentidos com a vante quietude,
Que nos leva em viagem pela plenitude.
Sem vozes, desordem ou companhia,
Esta cidade deserta entrega nostalgia.

Faz sentido assim ser,
Com as pálpebras dormidas, é o melhor de acontecer.
Reluz a luminária, vinda do éter apaziguador,
Que, sem o aspirar, faz de mim mais sonhador.

Com carreiro livre, estrada limpa e pessoas arrumadas,
Caminho como rio em dia de enxurradas.
Livre, leve e de coração ocupado,
Levitando para mais um dia preparado.

No meu coração,
Levo a Foz, o Douro, os Clérigos,
A Cordoaria, os Aliados,
O Bolhão e até o São João.

Ral
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Momentos importantes

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Existem momentos de susto,
Como num verso injusto,
Em que padecemos de uma maleita,
Que não nos permite a rima perfeita.

Ontem, com a namorada na bancada,
A bola que ia lançar foi abafada.
Não desanimei e falhei mais um,
Parece mesmo que para voltar a jogar preciso de Nestum.

Fiquei pequeno das vontades da cabeça,
O corpo reagiu com indiferença.
Falta-me o treino de um lobo,
Para não fazer papel de bobo.

Desejo realizar melhor,
Mas não consigo deixar de supor,
Que vou precisar de muito treino,
Para me livrar deste desatino.

Ninguém gosta de fazer mal,
Muito menos com a namorada no pedestal,
Porém não é isso que mais me apoquenta,
Pois sei o quanto ela é ternurenta.

Aflição é ver um jovem a carpir,
Com o carro sem modo de voltar a partir.
O capô não parava de fumegar
E ele de desesperar.

Com tudo estuporado, não havia muito mais a fazer,
Felizmente, não houve escoriações que os olhos pudessem ver.
Restava-lhe sanar os nervos, acalmar a batida do coração,
Para logo vir a família e mostrar que foi só uma infeliz situação.

Custou-me porque lhe vi a tristeza,
Num instante tudo passa a ser pequeneza,
Quando vemos a vida fugir,
Por uma estrada que se mostrou capaz de nos trair.

Ontem, com o abafo senti-me envergonhado.
Parece que o mundo fica em nós centrado
E que quando fazemos o bem se torna desatento,
Para não necessitar de nos dar alento.

Contudo, mais importante que brincadeiras de auto-estima
São as certezas que vamos ter uma rotina,
Que nos permitirá perpetuar
O que de mais importante devemos valorizar.

Ral
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Ao Luar

ao luar, amor, caaminhoBate, bate forte,
Mas vem distinto,
Vem de norte.
Sorrimos por instinto.

Na frente é o mar,
Aquele revolto carinhoso.
Espelha-se no luar,
E transmite-nos uma sensação de mimoso.

Damos a mão,
Apertamos os corpos,
Unimo-nos pelo coração
E ficamos absortos.

Só eu e tu, tu e eu,
Naquela pedra de luar,
Como um povo amorreu,
Sempre a ver o mar.

Um afecto, um beijo,
Um toque e uma paixão.
Sempre com a luz do brejo,
A iluminar a nossa imensidão.

Agora que o dia está a nascer,
Vou-te apertar no meu peito,
Sabendo que este amor não vai morrer
E que o caminho ainda está a ser feito.

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