Fazer amor à mesa

Fazer amor à mesa
Amor não é carne, não é concupiscência, não é lascívia. É partilha. Faz-se amor na mesa com a namorada, com os amigos, com as pessoas em volta.

Não se liga aos olhares indiscretos, porque os corpos estão vestidos, tapados pelas roupas que se usam no quotidiano. A noite invernal levanta as golas, faz delas altas, substituídas por cachecóis. Os cafés caem da chávena para a garganta, deslizam e aguçam a voz. Aquecem o interior no palmilho. Picam na língua se estão quentes, mas desenlaçam-na, fazem-na soltar-se. E as conversas fluem. Não fluem pelos cafés, fluem pela amizade, pelos laços. Pela vontade de falar dos intervenientes.

As chávenas são quatro, mas as companhias são muitas mais. Em séquito de amigos, multiplicamo-nos. Fazemo-nos de muitas pessoas, dentro da pessoa que somos. Quem nos ama, quem nos aprecia, faz isso de nós. Faz-nos de muita gente, como se o Valter Hugo Mãe fosse o mais certo e fossemos mesmo filhos de mil homens, de mil mulheres. E ao mesmo tempo filhos de ninguém, exclusivamente de uma noite que tomba na vitrina virada à Câmara do Porto e se alumia em candeeiros giros à paisagem. Não interessa se são os livros, as enfermagens, os designs ou os marketings. O que fica é a amizade. A sentença que seremos sempre réus dela, que a penitência pode ser longa, que quando o sol deixar de se enquadrar, de aparecer aos quadradinhos, nós continuaremos a ter coisas para falar, histórias para contar, lembranças para recordar.

A amizade é isso. É uma coisa bonita que não tem distância, tem somente intervalos que se aniquilam nas conversas de regresso. No amor que se faz à mesa!

 

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Reencontros

Existem as casualidades e as bem-aventuradas combinações, qualquer uma delas veste-se de felicidade. A felicidade de partilhar momentos, e prazerosas prosas, com pessoas, que as contingências da subsistência nos afastam.

Ontem mesmo, tive um desses momentos. Dormi menos, claro, mas vale tanto a pena. Lembrar histórias, abordar actualidades, projectar futuros, talvez uma mini ou duas, quiçá um pires de caracóis (amados por uns, repudiados por outros), mas o que fica são as cavaqueiras. Não propriamente o acérrimo debate de visões ou o relembrar de vidas passadas, essencialmente o louvor de que o tempo não desliga a amizade. Não corta linhas de raciocínio comuns, não cria prementes silêncios.

Gosto de viver a vida a amar, não cingindo o amor ao desejo carnal e à ânsia de partilha. Amar, para mim, é saborear. Sentir cada pedaço de tempo como uma bênção, como uma mensagem escrita nas linhas de um horizonte que sabemos que não atingiremos, mas não nos despojamos de o olhar, de o contemplar. Que mais bela paisagem poderemos ter que a vida? Se é verdade que ela nos tira, não é menos verdade que antes teve de nos dar.

Não vale a pena aceitarmos as coisas como intemporais, como verdades absolutas, isso criar-nos-á uma distância de momento, que nos levará, juntamente, o prazer de desfrutar. Não caindo em exageros depressivos, contudo. Viver a vida, como vivemos o verão: aproveitar ao máximo, só dura 3 meses. Afirmamos isso com a certeza de que ele voltará, porém, com uma longa espera pelo meio. Essa sensação de espera acorda uma intrepidez, que em tudo nos favorece.

Gosto de reencontrar amigos; gosto de conversar; gosto de ser feliz; gosto de ter com quem partilhar a minha felicidade; gosto de dizer ao ouvido: amo-te; gosto de fazer algo para que o dia de amanhã seja melhor; gosto de não ter a certeza do que o dia de amanhã me trará; gosto de gostar, no fundo.

Um brinde à amizade… que traz felicidade!