A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.

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Ovar em dia de chuva

chuva

 

Ovar a compasso da chuva que cai. A água a deslizar, cambaleante entre as brumas dos passadiços que nascem até à Escola de Artes e Ofícios.

O centro inundado de pessoas que se deslocam no abrigo dos seus carros, no fugidio passo acelerado, por debaixo dos seus guarda-chuvas, a esconderijo das goteiras que enxurram as águas como dilúvios de dias invernais. O frio já chega.

As lareiras, nos mundos ocultos de cada existência, já vão ficando acesas, da Cova do Frade até à ponta mais distante de Arada. Não há ricos nem pobres, há lareiras e aquecedores, salamandras e mantas mais grossas. A agricultura prossegue, nos lados do Sobral, nos caminhos de Cimo de Vila, nos tratores que cruzam Cabanões. O Furadouro respira o aroma do mar a furar pela Avenida, Esmoriz, Cortegaça e Maceda exalam esse mesmo odor de mar, de maresia forte embebida na ondulação da chuva.

Os carros embaciados, as estradas molhadas, os passeios escorregadios, as escadarias do tribunal como autênticas montanhas do Everest. Tudo a acontecer e o Neptuno a descansar na sua poltrona de intempéries. O Santa Camarão, agora mais disfarçado, também espreita por entre os combatentes aquela queda de água que leva caminho de São Miguel para o centro. O cinema, tão antigo, tão cansado, tão em desuso, fica a pensar se aguentará mais este Inverno com todas as suas pedras. Ao lado, a antiga casa, agora no Parque Urbano, sorri. Terá nova vida, como teve a outra mais à frente, logo a seguir à BP, onde agora nasceu mais uma discoteca.

Lisboa tem o Tejo, o Porto tem o Douro, Coimbra tem o Mondego e Aveiro partilha connosco a Ria (o Cáster é nosso). Somos diferentes, todos somos diferentes, mas somos iguais em tantas coisas que não vemos. Nos invernos que chegam, nos Verões que foram, nos Outonos que nunca apareceram.
Os passeios pela Avenida da Régua desapareceram, as noitadas ao relento da Praça das Galinhas fugiram para o interior do café, os guarda-chuvas pingam no balde da entrada, os casacos despem-se a medo e as vitrinas embaciam-se. As pessoas falam mais sussurrantes, menos sumptuosas na ânsia de viver, mas o mundo acontece.

A Câmara abre todos os dias, as fábricas laboram no compasso das máquinas que aguardam os trabalhos vindos de fora, os computadores teclam e nas escolas o giz deslize pelas ardósias ou os marcadores pelos cavaletes. Os cadernos estão abertos e a atenção dispersa (não é todos os dias que temos dezasseis anos). As mulheres trocam o assento da porta de casa pelas Tardes da Júlia, os homens não desistem do dominó.

O café Ideal sente a falta de alguém, mas o bilhar está lá posto, o Bagunça não sussurra, o João Gomes não fecha as portas a ninguém que queira um petisco e o XS mostra a evolução dos tempos. Temos uma nova gelataria, um outro café/bar a mudar de gerência, uma praça sempre em movimento, um Progresso de há muitos anos em roupagem nova e contemporânea, a Casinha Júlio Dinis e o Oxalá a marcarem ponto, o Passo do Horto a nunca deixar ninguém indiferente, o João da Vareirinha a ser sempre o João da Vareirinha, as casas de Pão de Ló de Ovar, agora movidas a contemplação da sua Confraria, o Paciência com as bicicletas, o Ramada com o ferro, a Flex com os colchões, o Malaquias com o retalho, tudo a mover-se. E a chuva a cair.

Ricardo Alves Lopes (Ral)
https://tempestadideias.wordpress.com
ricardoalopes.lopes@gmail.com

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Chuva molha-tolos

2013-10-13 11.01.09

 

Veio do cimo do céu uma chuva
Que a manhã brilhante não previa.
Vem turva, pouca certa da sua vontade,
Caindo a espaços nesta praia de areia ruiva.

Nos moldes do mundo, a chuva é invernal,
Feita de papel de jornal,
Trabalhada como um mal
Que nos prende numa rotina do habitual.

Olho-a aqui, mesmo ao meu lado,
Neste bar todo envidraçado,
Que me regaça nas suas vitrinas, me aperta no seu conforto,
E me deixa as gotas baterem à distância de um palmo.

Penso que vou fazer caminho para casa,
Que me vou deixar de estar de computador aberto
Nestas mesas simpáticas e conversadoras,
Que me encheram de ideias,
Enquanto a minha princesa se trabalha.

Sim, penso que vou.
Chegou-se-me a hora de abalar,
De sair de rompante por entre a chuva que não me molha,
Que dizem os antigos, é miudinha, só molha-tolos.

Ral

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Atravessar a vida

chuva, passada, jornada, vontade

Estridente barulho que fura
No interlúdio do meu olhar,
Como varas espetadas na minha fundura,
Sem me acalmarem nem melhorar.

Marcha lesta pelas arcadas
Das casas desusadas, antigas.
Porém, também pelas novas e estradas,
Pelos campos, planaltos e, até, jazigos.

Não olha a meios no seu tombo,
Pum, fazendo barulho, ruído,
Tornando-se, nas vidas, estorvo.
Ao acaso, um homem abrigado e aturdido.

De um lado tem um regueirão,
Estacionado ao centro da calçada;
Do outro, um dilúvio, uma ressurreição
Do deus da trovoada.

Aprecio-o da janela nublada,
Do meu recanto aquecido, do meu escritório.
Porquanto, ele principia a sua passada,
Rumo ao outro lado. Invejo-o. É destemido, peremptório.

Não há chuva que acalme a pernada
De um homem que segue o seu rumo,
Alentado e memoriado da jornada
Que o faz levar todo aquele, indiferente, aprumo.

Ral
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Chuva de Verão

correr à chuva, chuva, VerãoÉ diferente, isso eu sei.
E sinto.
Noto na forma como bate no estore,
Como embate no fulcro.

É mais luzidia e menos escura,
É mais quente e favosa.
É de Verão.
Nota-se pela sua imensidão.

O corpo tomba desnudo ao cimo da cama,
Deixa os cobertores no ornamento,
Por muito que se escute o sonido e se veja a lama,
Que o deus do céu envia em ajuntamento.

Imagina-se o físico a correr, passo por passo,
Ao longo de uma planície que se estende pela invenção,
Sem deixar de nos humedecer
Da alma ao coração.

É diferente. Eu sei e eu noto.
Não é fruto da imaginação,
É esta chuva de Verão
Que não desaparece nem à lei do empurrão.

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O fim do mundo que esteve para vir

mau tempo, fim-de-semana, portugal, ventos fortes, chuvas, estragosOs Maias falharam por dias o fim, o acabar deste nosso espaço de existência andou a modos que violento, pelo fim-de-semana. Assustou mesmo.

Foi horrível de se ver, as telhas a voarem como folhas, o céu a cuspir chuva como se fosse expectoração, o vento a correr como se se tratasse de um camião que não quer ser ultrapassado. Estava uma violência que assustava aos olhos e apertava ao coração. Foi um poema de alarme, um aviso do divino para não tratarmos mal esta esfera que nos faz planar abaixo do céu, como se estivéssemos acima dele.

Eu tremi, ai se tremi. As árvores a tombarem pelos fios de alta tensão, como se soubessem que não devia haver televisão, para nos envinagrar a vida com notícias dos que não nos querem bem. Porém, também eles, os postes da luz, os canos da água, os fios do telefone, fazem falta. Deixaram pessoas queridas, e que fazem bem ao mundo, sem ligação, sem modo de saírem dos seus canteiros para os jardins da vida. As chatices do céu são sempre uma porra, fazem sempre estrago em pessoas boas. Há muitas gentes a sofrer, agora, com isto. Com o céu já posto de sol, mas com a enxurrada de ventos ainda a viver na memória, nos telhados partidos, nas janelas avariadas, nos fios da luz apagados.

O céu, quando se chateia, só devia bater nos maus. Assustá-los sem assustar os outros. Deixar-lhe os aviso que quem planta o mal, colhe as tempestades. Isto é o que eu acho. Mas eu acho que sou um sonhador.

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Esta chuva aleija e assusta. Ou assusta e aleija.

chuva, temporal, intempérie, enxurrada, assustaEstou abrigado num casulo envidraçado, com uma luz pouco natural que se irrompe pela matéria espessa, mas transparente, do vidro. Está pousado ao meio de um armazém, como se de um arranjo de centro de mesa se tratasse.

Assusta.

Assusta a forma como a chuva maltrata as telhas, que fazem coberto, como as pontapeia com a força dos seus pingos a chegarem de enxurrada. Na rádio falam dos problemas dos sapadores no Porto, da veemência com que lhes chegam os pedidos aflitos, as famílias a desesperar. As pessoas a esconderem-se, a tentarem abrigar-se como se isto fosse fogo e não chuva, como se queimasse e não molhasse apenas. Molhar não aleija, contudo esta força é exagerada. Não faz fumo nem pó, mas estilhaça e inunda. Faz lama.

Os carros avançam pelas estradas como se guardassem um segredo dentro deles, o embaciado das janelas esconde as entidades. Se não tivessem matrículas seriam perfeitos desconhecidos a cirandar por lagoas com traços contínuos e descontínuos, com bermas e passeios. A atenção tem que ser redobrada, onde antes era uma recta agora é um escorrega para meninos – sem areia ao fundo. Onde antes era uma curva agora é um aqua park, para alegria dos, mesmos, meninos. A estrada virou ratoeira, a cautela é necessária.

Os outros, mais desafortunados ainda, estão certamente a vaguear por todos os cantos que se afastem da água. Com uma esperança tola que isso seja possível. Neste momento, a porta entreaberta do armazém, a frecha por onde passam pessoas e materiais necessários, vestiu o seu fato de gala e desfila-se como se fosse um rio. Um rio galanteador e vaidoso. Um rio maldito e cheio de peneiras.

Esta chuva assusta, não tem noção das suas forças. E aleija. E faz mossa.

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