A morte dá respostas à vida. Viaja!

A morte dá respostas à vida

(photo: @mickeyoneil)

Pessoas próximas, que não conhecemos tão bem assim, fogem-nos. Desaparecem num infinito que gostamos de imaginar como mar, o céu ou a terra. Mas não conhecemos. Sabemos apenas que é infinito.

Essa noção de distância inalcançável assusta-nos, tira-nos o chão forte para ser pisado e coloca-nos à procura de respostas, da costa. Não para a partida de quem foi, mas para o significado da nossa permanência. Misturamos o medo, o desespero e a esperança. É estranho, mas é assim. A esperança nasce, quase sempre, da ausência limite de esperança ou explicação.

A vida é curta.

É assim que elas nos aparece quando a ausência de sentido para as partidas assoma. Fugimos do medo, gradualmente, para nos aproximarmos da vida. Por isso, que, a partida de alguém tão próximo e jovem, seja sempre a abertura para algo novo. Uma nova nau que parte para a turbulência que é vida, mesmo quando o mar está calmo.

Porque, assim, a morte responde à vida – ou a vida dá resposta à morte. E essa é – e deve ser – a nossa homenagem para todos os que vão, mesmo os mais jovens. Um dia encontramo-nos todos. Na festa do costume.

Ontem punha-me um gosto num texto a brincar. Hoje não está entre nós. Descansa em paz, Paiva! E um abraço a todos os grandes amigos, família e meros conhecidos como eu, que se emocionam com estas coisas. A vida é curta e o descanso é eterno. No meio está o que podemos aproveitar. A viagem.

 

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O sol do céu

Não era possível, um sol não se esconde assim. Não desaparece, não se desprega do céu.

Toda a vila não compreendia a ausência do sol, o constante dilúvio que lhes destruía os cultivos e, passo a passo, amarfanhava a disposição. Jamais um sol pode desaparecer do céu por tantos meses, afirmavam todos, convictos. Sentados no interior do café, bebendo cervejas, vinhos e brandys, findavam por deslembrar o infortúnio pouco tempo depois.

A vida na vila estava sustida, parada dentro das casas e agrilhoada nas conversas de café. Ninguém tinha vontade de saltar as vedações dos terrenos, ir dar de pastar ao gado ou arriscar lançar umas sementes. Não fazia sentido, a chover há três anos já não valia a pena. Todos estavam a finar, a perder os resultados do fruto da terra para o alimento, a verem as vontades desvanecerem-se à velocidade da chuva que praguejava nos estores e portadas. No fundo, há uns dois anos que ninguém vivia naquela vila, apenas existia a contemplação do que consideravam um esconjuro. Todos, excepto um.

Era o Roseiro, que em pequeno era zombeteado por ter espinhos. Mas, na idade adulta, não se contrafazia com a má sorte da vila. Todos os dias, pela manhã, com o cacarejar dos galos silenciado, saltava da cama e percorria os caminhos todos, levava o gado de toda a gente a alimentar-se, arriscava colocar as sementes, mesmo sabendo que poderiam não vingar, ia plantar a terras vizinhas, onde o sol espreitava.

No café, onde todos os homens se juntavam, não era bem visto.

– Qualquer dia dou uma marretada naquele Roseiro – dizia o Arlindo, já num tom alto.

– Também já não o posso ver – prosseguia o Machado -, tem-me arranjado problemas em casa. Tenho que ouvir a minha mulher a dizer que eu devia era olhar para o exemplo dele.

– Havemos de tratar disso.

Enfileirados pela ideia e sorvidos pela pinga, naquele dia, seguiram atrás do paradeiro do Roseiro. Encontraram-no sozinho debaixo de uma árvore, encharcado da chuva que não paráva e a pedir às vacas e bois que se alimentassem, que precisavam de alimento. O Arlindo e o Machado, valentões, seguiram à frente com mais três ou quatro comparsas em direcção a ele. Ao acercarem-se, embebidos na chuva que se misturava com os muitos litros de cerveja e vinho, aperceberam-se que o homem chorava. Pensaram dar-lhe logo umas valentes, abispá-lo de que estivesse quieto com aquilo que só fazia com que as mulheres os arreliassem. Mas, vendo a penúria em que o homem estava, e tendo sentimentos bons ainda envolvidos em toda aquela revolta com a chuva, perguntaram: que raio é que se passa, homem?

O Roseiro não conseguiu responder logo, olhou-os com uma indiferença que não relevava medo nem nada, só vazio.

– Um dia perdi outro sol, que também me iluminava. Este, o do céu, também desapareceu, mas eu não posso parar de trabalhar. Um dia ele vai voltar, eu sei que vai, e se eu tiver parado de trabalhar, depois não o saberei receber de volta. Quero estar preparado para o sol.

Os homens ficaram a olhá-lo, com a intelectualidade de duas rochas pousadas no monte. Nada daquilo lhes fez sentido, o moço estava doido. Pensaram, entre eles, que o melhor era não o abandonarem. Contaram às mulheres que o Roseiro havia tido um badagaio, que não estava bom das ideias e que iam ajudá-lo. Iam fazer-lhe a vontade de o acompanhar e conversarem com ele, para ver se o melhoravam.

E assim foi, durante muito tempo, cada vez mais, foram todos juntos acompanhá-lo. De repente, o gado voltou a dar mostras de poder aguentar as chuvas sucessivas, a terra, bem lavrada, de quando a quando dava um legume que parecia obra de milagre e eles sorriam entre eles, com a certeza que, mesmo chovendo, estavam a ser úteis. O Roseiro também abandonou as lágrimas, com a companhia granjeada, e era a fonte de entusiasmo para eles. Não ganhavam quase dinheiro, mas já conseguiam alimentos e não estavam mortos. Existiam, labutavam contra a funesta sentença que o céu lhes havia passado. O sol que faltava na vila, afinal, não era o do éter. Mas esse, um dia, também voltou. E todos estavam preparados para recebê-lo.

O sol da vossa vida

A semana começa triste, a chorar lágrimas do céu. A deixar a chuva escorregar pelas canejas, beijar as vitrinas e vidros, salpicar os carros e ensopar as pessoas.

Acordei quente, no refúgio do mundo ardente. Sentia o corpo aquecido pelos cobertores, aconchegado no éden e o sorriso a soltar-se facilmente, a contrastar com o cinzento feio do firmamento. Permitia que o barulho da água, a embater no estore, compassasse os meus primeiros passos, definisse a melodia de mais uma semana, que espero repleta de prazer. O prazer adocicado de dias em cima de dias, de oportunidades antepostas de oportunidades. Viver não é complicado, a vida é que nem sempre é fácil. Tem detalhes malvados, deixa uma parte, que não controlamos, guiar veículos de insatisfação. Eu sou afortunado que me farto e agradeço por isso. Tudo se tem desenrolado, como as mensagens de reis em papel de segredos.

Tenho metas para estes cinco dias, que começaram há pouco. Umas metas marcarão a minha vitória, o chegar em primeiro lugar, em outras o grande festejo virá de passá-las, independentemente do lugar. Nem todas as corridas existem para ser vencidas, em algumas, vale a participação, a sensação de compleição do primeiro passo. Essa é a grande vitória. Ninguém pode vencer uma maratona, sem nunca antes ter corrido. Por isso, nessa primeira etapa, finalizar é uma prova de competência, de entrega e, acima de tudo, de esperança. O grande motor do sucesso. Esperança.

Com esta esperança, lacrimejante de sorrisos, começo a minha semana. Não esgotem a vossa, da mesma forma que o céu chora, a seguir sorri com o sol. Façam da esperança, o sol da vossa vida. Eu, assim o farei.  Uma boa semana para todos, é o que desejo.

PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais detalhes sobre o livro que lançarei, lá para meados de Novembro, basta clicarem neste destacado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)

Naturalmente mãe

Foram 9 meses, com crescendo de dores, de mal-estar, de peso, de enjoos e apetites. Tudo sem saberes quem eu era, como eu iria ser, se sairia a ti ou pai ou se renegaria aos traços de ambos e iria buscar uma genética esquecida, os traços de outros tempos. Aguentaste a devoradora incerteza com um sorriso que me contam, que ainda não podia ver, mas que hoje consigo facilmente desenhá-lo no bloco das minhas memórias. O teu sorriso.

Foram horas de aperto, de sôfrego, com enfermeiras a dizerem «força Emília! Faça força» como se elas naquele momento fizessem alguma ideia do que estavas a sofrer, do esforço que já estavas a fazer, da forma como ansiavas por aquele instante que eu saltaria cá para fora e choraria, o único choro que eu iria ter que transmitiria alegria. O choro da vida. Eu sai, com percalços, com dias de atraso, mas sai. O teu esforço, a força que empregaste enquanto a chuva batia violentamente nos estores, arrastava cada ranco de árvore, criando uma chiadeira típica de um apocalipse, do crepúsculo. Mas eu sai, mãe, acima de tudo pela força que empregaste… não em ti, mas em mim!

Eu nasci, os primeiros meses não me mexi, levava a vida que hoje, em dias tristes, todos ambicionamos: comer, dormir e chorar. Talvez, quem sabe, também sorrisse. Mas sorrindo ou não, tu sorrias. Sorrias para a vida, porque eu sei, hoje mais que nunca, que para ti sou vida. Tu e o pai têm uma vida, uma vida em conjunto, mas eu vim dar-vos mais vida. Nem sempre certo, nem sempre correcto, mas sempre com vida. A vida que eu tenho é vossa, também é vossa. Obrigado, parece tão escasso, mas é o melhor que o dicionário me permite dizer: Obrigado!

Já fui rei, já fui roque, mas também já não tive rei nem roque, mas tu, vocês, sempre lá estiveram. Obrigado? Continua a parecer-me pouco. É impossível vocês saberem quem eu seria, no que me iria tornar, mas ainda assim não baixavam os braços, lutavam com uma cana a desbravar as silvas do incerto. Para, eu, um dia, não saber como essas silvas arranham, como provocam dor. Era só isso, quando me gritavas, que querias, não era mãe? Não querias que eu sofresse, que eu tivesse que pegar na cana que um dia foi tua, com a qual me abriste caminho para uma vida, que não sendo de sonho, é um sonho.

Hoje o dia é teu, mãe. Não é por uma imposição comercial dos dias de hoje, é pela forma como batalhaste na selva da vida, para que eu gozasse apenas na cachoeira que ao fundo conseguias ver.

Vem, traz o pai. Venham nadar neste pedaço de céu, na terra, nesta cachoeira em que me permitiste construir a minha vida. Esquece a selva, já a desbravaste, já me deste o céu.

Amar-te num pedaço de céu

Vivemos num pedaço de céu, não o céu de todos, o céu que nós criamos, aquele que é só nosso. Que fomos gerando a cada sorriso, caricia, troca de palavras, partilha de histórias e/ou loucuras. Aquele que é só nosso.

Olho-te, como um louco olha as suas alucinações; vejo-te, como um adolescente vê o seu desejo; toco-te, como um invisual toca a sua visão; imagino-te, como um sonhador imagina o seu futuro; respeito-te, como uma criança respeita o seu medo; amo-te, como um apaixonado ama a sua paixão.

Como podemos descrever este pedacinho enublado de uma matéria intangível que nos suporta no ar? Nuvem? Céu? Não sei, porque tenho que saber? Sou livre, estamos livres. Estamos a levitar. Sou leve a teu lado, és leve a meu lado.

– Amo-te.

Eu também te amo, também me emaranho no dia-a-dia, também subo a minha felicidade à velocidade do teu sorriso, também deixo o peso do meu corpo cair à velocidade do zumbido da tua tristeza, ao som do teu silêncio.

– Preciso-te.

E eu preciso de ti, preciso do teu sorriso, preciso do teu chamamento, do teu toque. Do Éden do teu olhar, da viagem do teu toque, da adrenalina das tuas palavras. Preciso de a cada dia ser feliz, de me tornar mais feliz. Um dia não precisei de ti, tu não precisaste de mim, mas hoje, hoje é diferente, hoje temos um pedaço de céu.

– Gosto de gostar de ti.

Gosto que gostes de mim. Não me defino pelo que sou, pelo que és, defino-me pelo que somos. Partilha é fusão, por mais antagónica que a frase se torne. Um dia fundi-me a ti, para partilhar contigo. Para tornar o inconcebível exequível.

– Algum dia isto terá um fim?

Só direi não. Porque não quero, porque não sei. O não domina, o não é incerto até quando fazemos dele uma certeza. Não sei, não quero. Não penso nisso, não quero pensar nisso.

Estou a viajar: parti do teu olhar, virei na curva do teu sorriso, deslizei pelo ondulado do teu cabelo, toquei o rumo da tua pele, abasteci no doce do teu perfume, acelerei nos contornos do teu corpo e… não tem fim! És uma viagem sem fim. És a aventura de uma vida.

– Já disse que te amo?

Não precisas. Eu vejo-o no teu sorriso, no teu olhar brilhante, nas tuas palavras doces, no teu toque ternurento, mas diz. Eu quero que digas, afinal também preciso que o digas.

– Amo-te.

Como eu te amo a ti. Nunca desças deste pedaço de nada, desta nuvem branca de matéria de intangível, deste cantinho de céu que é nosso. O futuro vem com o amanhã, mas nem ele pode apagar este pedaço de céu que é nosso. Que construímos, que conquistamos. É bom amar-te num pedaço de céu.

PRRRIIIMMMMM 

– Não acredito, já são 8h da manhã !!