A vida é fodida

O muito certo é enganador, é como um daqueles amigos que, na verdade, não é lá grande amigo. Está sempre à espreita, para lançar uma ratoeira danada, que nos põe com as calças na mão.

A puta da vida, como lhe chama o Miguel Esteves Cardoso, é mesmo isso: fodida. Muito fodida. Não é fácil lidar com ela. Engana-nos logo que a damos como adquirida. Pensamos, é isto, é este o meu caminho, e lá vem ela, sorrateira, trocar-nos as voltas todas, fazer-nos pensar nisto e naquilo, deixar-nos à deriva. Cagados. É assim que ela nos deixa, cagados. Borradinhos de todo, com o medo. Sentir medo, porém, faz parte da e nem sempre é mau, faz pensar e repensar e, geralmente, isso é bom. Torna-nos mais ponderados e, quem sabe, mais acertados. Quero acertar cada vez mais e quero que os meus acertem cada vez mais. Quero-nos unidos. A mim e a os meus, aos verdadeiramente meus, aos que se mostram sempre lá.

Ainda assim, é fodido. O momento de escrita, o que me ponho em frente ao computador e dou asas ao maior prazer que tenho, nesta puta desta vida, é diferente, faz-me ser mais o que gostava de ser na minha existência. Por muito estúpido que possa parecer, sinto-me mais eu a escrever, noto-me mais sensato e reflexionado do que quando vivo. Acho que, fora das folhas de word, tenho mais distracções e isso complica-me a vida. Aqui, nestes pedaços de histórias que crio, sou eu e mais outras pessoas, mas essas outras pessoas são mais uma extensão de mim, e isso é cómodo, consegue fazer-me mais sonhador.

No final, interessa é quem está do nosso lado, quem nos pomos lado a lado. Ela é fodida, sempre foi e sempre será, mas também é isso que nos faz gostar tanto dela. O sentimento de que nunca a controlaremos faz-nos gostar dela, querer tê-la para sempre. A vida é fodida, mas não me vai derrotar. Nem a mim nem aos meus, pois vou lutar sempre. Sempre e sempre. Por mim e pelos meus. Esses é que interessam! A vida que seja fodida sozinha, que eu vou ser bom acompanhado.

Ral

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Por vezes, não explicamos. É bom.

 

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Não explicamos. Pronto, acontece. Assim, de um jeito bom e que sabe bem.

Foi desta maneira que fui surpreendido hoje, pela manhã. Tive um feriado em que fiz uso do sol bom que rompia e tirei uma tarde daquelas grandes. Que vai desde a vista para a praia, à companhia boa, ao gelado saboroso, à panorâmica sobre o Porto que o Arrábida oferece. Tudo maravilhoso e a retemperar vigores. Contudo, nem sempre é assim incrível de continuar. Normalmente, o dia seguinte, cheio de afazeres, fica enfadonho. A custar até às estranhas ir resgatar as forças para o labor. Porém, hoje tive uma surpresa indulgente. Depois de um cafezinho e uma revisada no jornal, eis que chego à secretária e pronto. Foi bom. Senti uma sensação boa de utilidade e vontade de trabalhar. Nem sempre acontece, confesso, mas hoje aconteceu e gostei. Sei lá, fiquei feliz de perceber que faço o que gosto.

Existe alegria maior que isto? Que esta coisa boa de irmos fazer coisas de que gostamos? Saber que tenho um dia cheio alegra-me. Dá-me sensações boas. Aliás, juntei a isso o facto de saber que no fim-de-semana vou estudar. Vou instruir-me de coisas que me dão um prazer dos diabos. Vou a formações para, procurar, melhorar a minha escrita. Cada vez gosto mais de aprender. Aprender a melhorar o que faço; aprender a gostar cada vez mais do que faço. Porra, sou feliz e isso é bom. É bom de estupidez, de sorrir sem parar.

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Beijar é bom

beijo, beijar, tocar lábiosBeijar é bom. Posteriormente à afirmação, pouco resta a expor. Beijar é bom. É bom de maravilhoso, de encantador, de apaixonante, de inesquecível. É bom.

Os lábios tocarem-se é o calafrio propagado pelo corpo, o deslize adorável das tremuras, o toque subtil dos amores. Para haver beijo, há amor. Pode não ser o de casamento, o de namoro de durar, todavia é o de amor. Do amor fogoso do momento, que não permite passar o ensejo sem o íntimo da partilha. Na cama é que se geram os desvarios, é que se deixam as estribeiras, é que os homens se gabam, contudo sem o beijo nada funciona. Sem um beijo bom a cama pode ser uma miragem, o infinito que os olhos não alcançam e muito menos o corpo sente. A vista, essa meia marota, aguça o apetite, a vontade, mas quem descontrola o sistema é o beijo. O beijo é o motor do fulgor, a noção do anseio, o desnorteio da carnalidade.

O beijo é o contacto alucinado das línguas, o movimento léxico, sem léxica, dos desejos. Fossem os beijo palavras e seriam cartas de amor, declames epopeicos da beleza da vida. O beijo espelha a beleza da vida, retrata-a no olhar de cada um dos apaixonados. Beijar com amor é diferente, é desigual de tudo o experimentado. É uma condensação concluída de dois mundos, é a transmissão do carinho, da admiração, da alegria e felicidade, pelo toque dos lábios, pelo resvalo das línguas. Beijar apaixonado é abraçar, é unificar os corpos num.

O sol brilha, o vento cai no mar a produzir desenhos, as folhas esverdeiam-se e os apaixonados sorriem. Sorriem porque nos apaixonados há Inverno e Verão, Outono e Primavera, mas sempre com o beijo. E o beijo é que é o sorriso, o alento, o bom.

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O mundo desnorteado

criança, áfrica, mundo, desnorteado, fome, mal, maldade, erradoNão sei avaliar crises ao nível da política, gerir emoções no patamar das conjunturas sociais, ou alarmar-me com faltas de valores à distância desconhecida. Vivo num mundo pequeno, comparado com o mundo grande, o de todos.

Todas as certezas que tenho passam, inevitavelmente, pelas incertezas que alimento. Sou fruto de tudo o que chega até mim, que chega através de um filtro enorme, como um longo de tubo de canalizações onde se separa o trigo do joio, a fruta do legume. Eu sei o que me deixam saber, o que me deixam disponível para saber. Não sei como é viver em África, na fundura do calor abrasador, das terras de saibro, mas sei que não é fácil porque assim me dizem. Com imagens esporádicas, com textos que revoltam, com frases que angustiam. Meninos revestidos a uma pele mais fina que uma folha de papel vegetal tem que magoar, ferir os sentidos na hora de olhar.

Os valores distorcem-se à velocidade dos escândalos aparecidos pelas notícias da net, pelos destaques da televisão, pelos reforços dos jornais e revistas. É uma escandaleira constante, umas pessoas incapazes de compreender o limbo do bem para o mal, o fio de separação do certo para o errado. É confrangedor, chega-me a deixar envergonhado de coisas que não faço, ridicularizo de saber que pessoas o fazem. A desculpa de sermos humanos cola, mas somente até ao ponto que nem todos os humanos são iguais. Eu não mataria num momento de fúria, pelo que me conheço. Referindo que me conheço como mais ninguém conhece. Quero experimentar outras sensações, que não a de morte, atrai-me mais a de vida. A de ver uns olhos arregalarem-se por eu chegar, a de sentir um odor de vontade por eu me despir, a de aceno de cabeça por uma afirmação minha, a de agradecimento por uma oferta benevolente. Isto são sensações boas, viciantes como as linha brancas para os drogados. O nosso erro está na escolha da droga, não está na forma de consumi-la. Os vícios são vícios porque se consomem em catadupa. Precisamos é de descobrir a droga do bom, a adição faz parte da nossa génese, não a podemos eliminar, temos é que encontrar a droga do bem, do bom. Mas o mundo está desnorteado. E eu não me importo de andar ao revés dele, na corda bamba do bem para o muito bem.

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