Não juntes dinheiro

não juntes dinheiro

Bayona, Espanha

Junta amigos, uma praia e uma cidade desconhecida. Traz à memória histórias de infância, adolescência e cria novas. Vive.

Faz felizes os de quem gostas e sê feliz. Muito feliz. A felicidade é paz. Saber que foste, saber que viveste. Acontecer. Não importa se é bom, se é mau ou desenxabido. Importa é que tenha acontecido. Que o mar tenha beijado a costa. Que a garrafa tenha sido esvaziada e que a vida tenha acontecido. A vida acontecer é ser feliz.

E o dinheiro não paga isso. Mesmo que faça falta para outras coisas.

A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.

Não há nada mais feio que estar em guerra com quem se amou por muito tempo

Não estou a falar de mulheres. Estou a referir-me a momentos passados. Quando gostamos muito de um sítio, sabendo e sentindo que lá passámos grandes momentos, tendemos a procurá-lo em todo o lado. Em todos os momentos.
Gostamos das sensações e vivemos presos a elas, a criar essa expectativa em cima de outros sítios e momentos – e mesmo pessoas. Isso é estar em guerra com quem amámos.

A paixão chama-se paixão por ser efémera. Se lhe tirarmos a vertente passageira roubamos-lhe a existência. O comediante tem na piada a sua maior virtude e defeito. O vilão tem na maldade o seu maior defeito e o seu maior fascínio. A vida é assim, feita de contradições. O bom e o mau estão sempre muito próximos e cheios de razões lógicas para se afastarem. Mas não se afastam.

A vida tem que ser vivida no limbo do bom e mau, porque é aí que ela acontece. No resto, só passa.

Por isso é que, em mais esta viagem sem viajar, acabei com a maldade do convívio dos Vampiros Grupo de Carnaval. Troquei o local e fui refazer as lembranças. Não era o sítio que fazia o momento. Eram as pessoas. E isso já era sabido. Mas estava em guerra com quem amava: com as lembranças dos bons momentos.

Agora, refi-los. E de um amor passei a dois. Três. Quatro. Tantos quantos viver sem a expectativa do que foi o passado. São as pessoas que fazem os locais, mesmo quando eles estão despidos delas. A ausência de pessoas também é uma forma de amar as pessoas.

Mas este fim-de-semana não foi o caso. Estive repleto de pessoas em redor e num sítio que não conhecia. Gostei.

Não descobri nada

Vivo um dia após o outro e não descubro nada. Aliás, volta e meia descubro novas dúvidas e é nesse momento que sinto que estou a fazer tudo certo.

Quando procuramos respostas, estamos só à procura de segurança. Quando procuramos duvidas, estamos à procura de aprender. À procura de vida. Esse acho que é o caminho. Questionar para nunca responder. Questionar para procurar e procurar. Viver.

Portanto, obrigado, Lisboa. No dia mundial dos oceanos, mostraste-me a Torre de Belém para me dizer que quem procura descobertas são os velhos do Restelo. Os descobridores são os que vão à procura de dúvidas!

Ou seja, é legítimo eu perguntar: esta será a minha terceira viagem sem viajar? Espero que sim. Mas quero continuar sem descobrir nada. Só questões

O que está para lá dos montes?

Montes e Montanhas

Felicidade.

Tenho quase a certeza que cada montanha esconde alegria.
Do outro lado está relva por onde nos atiramos, a molhar as calças e a deslizar. A pintá-las de verde! Tenho a certeza disto. Sempre que passeava com os meus pais – e passávamos por montanhas – era isto que sentia.

Lembro-me, por exemplo, de passearmos pelo Minho e eu ver montes e passar horas – todo o caminho – a pensar como seria do outro lado. Sorria. Com o pensamento, as piadas dos meus pais e a música que tocava. Tantas vezes Kelly Family! Talvez os meus pais tenham mais jeito para fazer filhos do que para escolher música, mas é inevitável ela ser uma boa lembrança. É a banda sonora das férias na infância. Ou de umas que me marcaram.

Os problemas surgem na nossa vida e podemos vê-los como vales para coisas melhores. Sobem muito, descem e depois sobem novamente! A pique! Tantas vezes para pontos mais altos que os anteriores. Por isso, pelas ondulações, o desconhecido fascina e faz medo. É sempre assim. O fascínio tem que vir do medo. Mas porquê que não guardamos esta lembrança boa das montanhas que mostram o desconhecido como a capa duma coisa boa?

Não sei a resposta. Mas sei que hoje pensei nisto e não tive vertigens com a altura das montanhas. Tive saudades das férias com os meus pais. Não fumava, não temia o medo e procurava o desconhecido. Hoje ainda procuro. Mas tenho medo. E fumo (foda-se)!

Somos todos assim, tirando a parte do fumar, não é? Acho que isso é bom. Faz-nos novas montanhas. As russas que são a nossa vida. Sobe e desce. Sobe e desce. Sobe e desce. Vivemos.

E, pronto, foi nisto que pensei hoje ao ver as montanhas quem pintam a vista do meu emprego.
É bom ser feliz e ter recordações da infância – mesmo que elas impliquem músicas dos Kelly Family. Lembramo-nos que para lá das montanhas está a felicidade.

Obrigado, Oliveira de Azeméis. Lembraste-me a infância e fizeste-me viajar pela minha segunda viagem sem viajar. Este blog começa a ser real.

PS – Esta era a música dos Kelly Family que tocava: https://www.youtube.com/watch?v=1viSfRzI8to
Os gostos podem ser discutíveis. As lembranças não! São como o que está para lá da montanha: uma projecção nossa!

O blog de viagens sem viajar

Blog de viagens sem viagensEstou mesmo a pensar neste projeto. Adoro a ideia de conhecer novas culturas, locais e pessoas. Aquela sensação de ficar sem chão, por estar a pisar novos chãos. Por ser tudo novo. Assim, movido por essa sensação de conquista de novos mundos, estou a pensar muito nesta ideia de um blog de viagens. E vou operacionalizá-lo com 3 coisas:

1 – Vontade;
2 – Fotos do telemóvel;
3 – Textos;

Não falta nada, estão aqui os ingredientes todos. Menos as viagens, claro. Que é a minha maior dificuldade. Viajo pouco. Para o que quero, pelo menos. Portanto, vou fazê-lo com viagens do quotidiano. É esse o meu objetivo, aliás: viajar no quotidiano.

Começo por Ovar – ainda sem criar um blog. É uma cidade que me acolhe desde sempre e me cria. Momentos, histórias e vida. É verdade. É uma cidade que cria vida. Tenho aqui amigos, coisas de que não abdico e muitas coisas que já nem vejo, que são corriqueiras. Como esta Praça das Galinhas, que, por estes dias, me fez sentir inveja.

Vi uma espanhola a partilhar nas redes sociais uma foto da cidade, da praça, e invejei-lhe a forma como olhava a cidade: ladrilhada de azulejos e pura na sua beleza rústica. Pensei: foda-se, isto para ela é muito mais bonito. E, então, hoje combinei com um amigo beber um fino nela, ao fim do dia de trabalho. Viajei.

Pelas histórias dele, pelas minhas e pela cidade. Foi bonito. Tão bonito que até comecei um blog de viagens. Obrigado, Ovar.