Não há razão sem contradição…

O maravilhoso, depois de tudo isto, jornalistas britânicos a equiparam a cidade do Porto ao terceiro mundo, indignações com a Pepsi e defesas à falta de sentido do humor dos portugueses, Blatter e não Blatter, Ronaldo melhor do mundo e Ronaldo arrogante, o que prevalece é que ninguém nos percebe.

Há a manada e a há a contra-manada, como se nenhuma fosse manada, como se os outros é que gostassem de se guiar sempre pelos mesmos barroquismos e nós não. Há os que se expressam melhor e os que se expressam pior, os que ofendem e os que não ofendem, mas, no final, há sempre o sentimento de dever cumprido. E, sabem que mais, isso é que vale! Que se dane a razão, que se dane o apoio popular e erudito, vale a pena é viver. E viver é isto, não haver razão nenhuma que não tenha contradição!

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Um país ridículo

Sabem, com isto do Blatter, pus-me a pensar, a gastar tempo da minha cabeça. Com isto e com um post do Valter Hugo Mãe, sobre as críticas aos portugueses, à Joana Vasconcelos e ao Manoel de Oliveira, à Paula Rego e ao Saramago.

Somos pouquinhos, um povo pequeno, mas ainda nos fazemos mais pequenos pelo medo. Não falo pelas críticas, porque elas são filhas provetas do medo. O nosso mal é o medo, só o medo.
Temos medo do ridículo e isso define-nos enquanto povo. Os que não têm esse medo são bem-sucedidos lá fora e maldizemo-los cá dentro. É assim. Funcionamos assim, como povo acanhado e com medo do ridículo. Temos muita vergonha alheia e nossa, e usamos, por isso, a ofensa, a chacota, para dizê-lo.

A Joana Vasconcelos não teve medo de ser meia diferente nas roupas e de fazer coisas parvas com tampões. Pessoalmente, não me embasbaco com todas as obras dela, mas dou-lhe o muito valor de acreditar no que faz, mesmo sendo coisa pouco vista. O Saramago, brilhante e exímio como só ele soube ser, não se apoquentou de escrever como ninguém escrevia, como a ele apetecia escrever. O Manoel de Oliveira e a Paula Rego é muito disso também, fizeram do que é arte para si arte para os outros. Os de fora vêem muito valor nisso, os de cá nem tanto. Mas, claro, lá fora também não são unânimes, como a personagem principal da bíblia não foi. Mas aí, quando existe um ou outro, num mundo imenso que os admira, que vem criticar, os de cá, muitos, estão na fila da frente: eu não te disse? Tem algum jeito, aquilo?

E assim vivemos, com medo de ser diferentes, com medo que uma opinião faça a de toda gente. Estes dias, vi uma frase do Salgueiro Maia que dizia: há alturas em que é preciso desobedecer. E eu concordo. Concordo muito, até. É preciso desobedecer à intelectualidade e aprumo dos que estamos habituados a ver como sagrados, como ditadores da verdade.
O Eça não ficou famoso por colocar o padre Amaro a rezar a missa; o Saramago não ficou famoso por contar a história da bíblia em palavras suas; o Salgueiro Maia e outros, não ficaram famosos por ir mandar cravos a dizer que se fossem mal comportados faziam uma revolução; o país não ficou famoso por atracar os barcos em Belém, ao lado do Velho do Restelo, a dizer que se não fosse o medo de não encontrar nada que iriam descobrir meio mundo.

Eu só vivi 26 anos, pouquinhos, mas já aprendi a não ter muita vergonha do ridículo. Se eu me gozar antes dos outros, vou gostar de mim. Quem é que eles vão ridicularizar? A mim? Que ridicularizem, mais feliz sou eu de os fazer felizes.

Não era desculpa que o Fernando Gomes devia ter pedido ao Blatter, era demissão. Ele, se não tivesse medo do ridículo, não se desculpava do que fez. Ou seja, ele foi só parvo, nem ridículo chegou a ser. Só parvo. Ridículo hei-de ser eu, ao admirar pessoas que não gostam de ser normais. Não me importa se gosto ou não do que fazem, se não tiverem medo de ser quem são, de fazer as coisas como lhes apetece, como o coração manda, eu vou apreciar. Vou ser ridículo de admirá-los. E vou gostar.

Ral