Não há razão sem contradição…

O maravilhoso, depois de tudo isto, jornalistas britânicos a equiparam a cidade do Porto ao terceiro mundo, indignações com a Pepsi e defesas à falta de sentido do humor dos portugueses, Blatter e não Blatter, Ronaldo melhor do mundo e Ronaldo arrogante, o que prevalece é que ninguém nos percebe.

Há a manada e a há a contra-manada, como se nenhuma fosse manada, como se os outros é que gostassem de se guiar sempre pelos mesmos barroquismos e nós não. Há os que se expressam melhor e os que se expressam pior, os que ofendem e os que não ofendem, mas, no final, há sempre o sentimento de dever cumprido. E, sabem que mais, isso é que vale! Que se dane a razão, que se dane o apoio popular e erudito, vale a pena é viver. E viver é isto, não haver razão nenhuma que não tenha contradição!

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As palavras do nosso primeiro

Confesso que chamá-lo de primeiro, nem sempre é fácil para mim. Faz-me sentir em segundo. Sendo eu gente, do povo, deveria ser eu (nós) o primeiro, não ele que é o ministro. Enfim.

A democracia traz a liberdade, dá voz à nação. Importa-me é que essa voz se cinja às pontuais eleições. Em todo o restante tempo, a nossa voz não é mais que a do tal primeiro. É porque o elegemos. Mas quantos de nós já não disseram algo, com os nervos à flor-da-pele, que depois se arrependeram? E se a única vez que temos verdadeira voz na nossa democracia, estivermos com os nervos à flor-da-pele? Tudo se esgota aí?

É verdade que o desemprego e a crise podem ser um motor de mudança. Aliás, são mesmo um motor de mudança: uns descobrem a vocação; outros passam da, antiga, classe-média para a pobreza. Eu não estou desempregado, mas estou em crise, se tenho mudado algo? Confesso que sim, mas garanto-vos, a última pessoa a quem agradeceria seria ao primeiro. Ao que, agora, de alguma forma, vem sacudir a água do capote, tentando ainda arrecadar louros dos que possam dar-se bem nesta conjuntura. Aguardo, para breve, um:

– Gostaria de vos informar que todas estas medidas austeras, toda esta crise, é por nós infligida. Queremos o melhor para vocês, por isso achamos que é hora de mudarem.

Iríamos todos, em coro, agradecer tamanha benesse do nosso primeiro? Custa-me a acreditar. Custa por duas razões: nada que ele diga é consensual; nenhum de nós tem a expectativa que seja essa a mensagem, de quem nos dá voz. Não é consensual, porque mesmo que ele dissesse o mais acertado que alguma vez um governo disse, haveria os que fazem da crítica à sua voz profissão. A oposição.  Não esperaríamos uma mensagem dessas, porque, de um governo, de um primeiro-ministro, esperamos a oferta de todas as condições para podermos mudar, de facto, contudo para melhor e pelo desafio, não pelo desespero.

Em suma, eu não estou em desacordo com nenhuma das palavras do primeiro-ministro, conserto apenas num sentido: eu tenho que olhar para o meu umbigo, ele tem que olhar para o de todos nós. Se ele já nos chamou piegas, se já nos mandou para o estrangeiro e se agora nos diz que devemos estar felizes com a crise, por ser uma oportunidade de mudança, o que é que ele quer dizer com tudo isto?

Eu tenho suspeitas, acredito que ele quer dizer que ainda devíamos dar graças a deus é de ter um primeiro-ministro como ele. Sou mais ateu que católico, mas de graças ou graça a ele não dava nada. Não dava, porque ele cobra-me tudo.

Não é novidade que não sou fã das suas políticas, nem tampouco da sua pessoa, mas, caramba, ele parece que continua sempre a puxar por mim. Não digo isso obrigatoriamente pelas suas mensagens, digo mais pela forma como ele as diz. Arrogância e sobranceria são coisas que me apoquentam. Mourinho? Ele ganha, pode dar-se a esse luxo, mas o nosso primeiro, desde que lá está, o que ganhou? Apenas a eleição…

Pedro…

Já me mandaram dar uma volta e eu sorri, mas também já me mandaram dar uma volta e eu reagi. É tudo uma questão de postura, de sensibilidade, de quem diz e como diz.