Nas desavenças do balcão

Sentado na lama de uma valeta conspurca, segurando a cabeça como um manto sagrado, chorava. As lágrimas escorriam-lhe como uma fossa a céu aberto, livres.

 

A cabeça sussurrava, no silêncio das suas viagens negativas, que não, que não podia ser possível estar ali, olvidado do mundo, perdido das lembranças que o fizeram homem, sem chão onde pisar.

 

Não era a lama presa nas botas, como farinha na água, que o amaldiçoava, era o ruído de um bando de pássaros que lhe deixava a cabeça torpe, parada como uma língua adormecida. As recordações eram tão vivas como os bichos que lhe subiam pela ganga das calças, indiferentes ao seu sofrimento, atraídos pelo negrume que lhe invadia as roupas como um noivo traído invade os balcões de café. A desgraça era o destino, mas a viagem, o lamaçal que pisava como terreno divino, era o caminho mais pesaroso que já fizera. Estava oco e opaco, feito de barro estático, sem vida. Enquanto as lágrimas continuavam a pingar-lhe nas calças, como única lavagem possível daquele dia sem fim.

Entretanto, batia o punho nas poças, como se o sacudir de pingos pudesse ser a libertação do engaiolamento em que se enfiara com o sim, o sim que fora um não. Um não ao futuro, um não ao presente, um não ao passado. Um não, com a certeza da incerteza, como uma bíblia até ser conhecido o autor. A confusão das suas ideias era tão latejante quanto a dor na perna da queda, a mão pisada do corte na garrafa de absinto, a roda empenada da bicicleta que o levou ao abismo. Tudo tombado naquela valeta como um harém de múmias enrolados em gaza, sem resquícios de vida futura.

 

Estava com as calças rompidas, as mãos ensanguentadas, a camisa imunda, mas só pensava em voltar atrás, em repetir a queda, com mais força, acordando-o do pesadelo em que se metera antes do balcão do bar. Sozinho.

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Despojo de vícios

Acordei com o calor na tenda, de tão abafado que estava. Os lábios espelhavam a secura de uma noite, regada a alegria, os olhos a ausência do sono. Estava um traste, um despojo de vícios.

Virei-me e procurei o telemóvel, entre a confusão da roupa espalhada pelo chão da tenda, não o encontrava. Encontrei, finalmente. Assim que o vi e revi, procurei o meu maço amarrotado, pela violência de uma noite de copos. Lá estava ele, desfeito, com um cigarro para contar a história. E o isqueiro? Falta-me sempre alguma coisa. Ah, estava no bolso das calças amarfanhadas, cobertas pela t-shirt manchada. A água está ali, logo ao lado, pronta para ser bebida, com uma ânsia superior aos whiskys – de ontem.

Lá estava eu, de olhos ramelados, com a cabeça de fora da tenda, a ser queimado pelo sol e a esfumaçar um cigarro, conquanto pensava que sem café ia ser difícil começar dia. Em que me tornei? Não houve coca, nem LSD, a sociedade vê-me com olhos de concordáveis, não me rejeita. São vícios que se coadunam com uma vida em comunidade, são aceites. Aliás, em volta, estavam todos na mesa situação.

Como se delineia a fronteira do vício para o divertimento? Não sei, para ser sincero. Contudo, sei que nos tempos de hoje o vício do álcool diminui, perdeu-se pelos fins-de-semana e noites académicas. Jantares em casa são irrigados a água, com a namorada a coca-cola e à semana bebe-se águas das pedras. E as drogas? Essas, todas são. Umas são é aceites.

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Rosto da Verdade

Joguinhos de sedução, enredos de conquista, palavras de proveito, criam o emaranhado de folias da vida estouvada, da dita curtição.

A loucura do sistema bem bebido, a dislexia dos movimentos, a turve da visão, o esconderijo das luzes baixas, os movimentos libidinosos dos corpos, as músicas de batida assertiva, a multiplicação dos copos de whisky, a soma dos de gin, vão fazendo o furor dos egos. O elogio, a palavra aprazível, torna-se a nota dominante de cada abordagem, das fugacidades de uma noite que se prolonga até o sol raiar. Vivemos anestesiados pela doce sensação de conquista, pelo acréscimo de auto-estima que a dormência de uma noite agitada em nós provoca.

Os dias são divididos pelo pagamento das horas que o corpo fica a dever à cama, pelas mensagens, via sms e facebook, que vão dando um prolongamento à loucura noctívaga, as fotos mais tarde irão asseverar que não temos a lembrança minuciada de cada pormenor que fez o furor daqueles badalados ensejos, os comentários ofensivos serão as brincadeiras a que nos vemos obrigados a aceitar. São os nossos loucos anos.

Repentinamente, com o sol a iluminar o nosso dia, com a clareza dos pensamentos lavados: um rosto de traços delicados; um cabelo longo entrelaçado entre si; um sorriso com um brilho difícil de descrever; um olhar enternecedor, pacífico; umas palavras de timbre doce, deleitoso; uma mulher incrível.

O nosso mundo está abalado, o amor entranha-se em cada pensamento, em cada movimento ou gesto de uma banalidade até ali desconhecida, os anseios de imprudência ganham contornos de indiferença, a determinação de viver a loucura da vida metamorficamente vira-se para um único ser, para um único olhar, cabelo, sorriso e rosto… rosto da verdade! Não é um rosto que emana a sua beleza de um desejo de descompromisso, é um rosto que nos espelha, um rosto puro e de contornos reais, sem imaginação bêbeda.

As cicatrizes de um coração trancado, de pessoas de índole mais dúbia, não nos deixam ver além de palavras, de desconfianças. O hábito dos elogios prazenteiros, não nos deixa perceber as falas de aviso, de demonstração de trilho de futuro. Existem mágoas de um dia termos magoado e termos sido magoados, existem receios de não ser o momento, existem resquícios de uma certeza forte: sozinhos é que é o nosso caminho.

Afinal onde estão os elogios?

Eles agora não surgem no momento exacto, não os podemos adivinhar. No momento que os ansiamos chegam as palavras mais duras, as advertências necessárias, no momento que não os aguardamos eles atacam-nos com a força que nos derruba as pernas, que nos faz o coração saltitar, que nos provoca um sufoco da respiração e um frio ameno que se propaga de extremidade a extremidade.

Este rosto, não é o que entra em joguinhos, o que se deixa entorpecer pelos desvairos de uma vida amontoada de diversão, é o rosto do amor, o rosto que não nos diz as coisas na hora que as esperamos ouvir, diz na hora que as merecemos ouvir… é o rosto da verdade!