Cair das folhas

A cidade fica imersa num escuro castanho, meio arreliado, meio pequenino. Os indivíduos multiplicam o agasalho e cobrem-se em caminhadas, mais abraçadas e afectuosas.

Sinto um sopro a furar-me as janelas e a assobiar-me, num bom dia meloso. Importa-me mais a erguer as forças, daqueles edredons que me arrecadam a quentura de um cosmos fresco. Sinto um deslize epopeico sobre as estradas que, dia após dia, palminho para um escritório que me ameiga o dia, que agora se veste de mais luz. O clicar do interruptor dá uma luminosidade maior, mesmo com a lâmpada de sempre, pois ele estava mais escuro, mais invernoso. Custa-me a levantar, mas sinto-me mais aconchegado a trabalhar. Não fico na euforia tola do verão, contudo sinto-me sempre mais paulatino e certinho a fazer as coisas. Desaparece aquela dormência de êxtase, torno-me mais cerebral e reflectido, mantendo alguma astúcia, de que me gabo.

Este mês que é recente, o Outubro, traz-me mais uma soma de aniversário, aquele burburinho de quem gosta de se sentir lembrado, com mensagens electrónicas e beijinhos e abraços tão reais. Para todos é mais um dia, para mim também, mas com qualquer coisa, com uma lembrança perpetuada de demonstrações de carinho. É um auge momentâneo, vestido de uma importância e carinho impar. Gosto de fazer anos, por muito que não ligue a ficar mais velho. Tenho sorte de ter nascido no Outono, as pessoas são mais agradáveis e sentimentais. Ficam mais carinhosas, ainda sem a tristeza do vagar zangado do Inverno.

Estou à espera daquele dia, que vem a correr desalmado, em que além dos parabéns, receberei o cair das folhas, do Outono da vida.

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