Ao Luar

ao luar, amor, caaminhoBate, bate forte,
Mas vem distinto,
Vem de norte.
Sorrimos por instinto.

Na frente é o mar,
Aquele revolto carinhoso.
Espelha-se no luar,
E transmite-nos uma sensação de mimoso.

Damos a mão,
Apertamos os corpos,
Unimo-nos pelo coração
E ficamos absortos.

Só eu e tu, tu e eu,
Naquela pedra de luar,
Como um povo amorreu,
Sempre a ver o mar.

Um afecto, um beijo,
Um toque e uma paixão.
Sempre com a luz do brejo,
A iluminar a nossa imensidão.

Agora que o dia está a nascer,
Vou-te apertar no meu peito,
Sabendo que este amor não vai morrer
E que o caminho ainda está a ser feito.

Para encomenda de livros, sem portes: ricardoalopes.lopes@gmail.com
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Gratidão é o contrário de ser ingrato

gratidão, agradecimento, reconhecimentoSer grato é o contrário de ser ingrato, e ser ingrato é o oposto de ser grato. Fácil assim, sem ciência, sem complicações, sem palavras caras do dicionário dos ricos.

Não é preciso ser escritor para alcançar o pulsar de uma gratidão, para ver um sorriso de quem fica sem palavras para soletrar os vocábulos do agradecimento. Um abraço é grato, muito mais que uma prenda da Chanel embrulhada num papel de cor viva, com um laço do tamanho do mundo. Um beijo, um roçar de lábios na face, um deslizar de pele carnuda por pele brilhante, é um éter de sensações boas, de afagos do reconhecimento. É um agradecimento, pois claro.

Vivemos num mundo que a própria desgraça, vestida com fatos de marca e cheia de cultura, nos diz que devemos trabalhar mais e ganhar menos, que devemos sacrificar-nos por uma causa que não conseguem decifrar em palavras ao alcance de leigos, do povo, da génese da população mundial. Dizem-nos: coitadinhos, são tão valentes. São o melhor povo do mundo.

Somos? Então, onde está a gratidão? Não queremos um rio que desce pela encosta a jorrar dinheiro, queremos o básico, o mínimo. Queremos sentir que quem leva o leme, do nosso rumo, se mostra orgulhoso. Relembro, ser grato é o contrário de ser ingrato. A admiração, o êxtase que leva alguém a chamar o outro de melhor, de valente, vê-se no olhar, nos pequenos gestos de uma mão que não se sabe onde pôr, de tão estendida que está. Em vocês não se vê isso, não o demonstram. Não o sentem.

Não digam que são gratos ao nosso esforço, nós é que somos gratos à textura da nossa pele, à força do nosso íntimo, do caminho que criamos de dentro para fora. Agora, dizer que em vós existe gratidão é mentir. Gratidão é outra coisa, é o contrário de ser ingrato.

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Encontro de amigos

Confundo-me, olho em volta e vejo Sábado. Está ele alapado numa rocha solheira, ali para os lados do Furadouro, daquele areal comido de inverno, e não resisto a acenar-lhe divertido.

De repente, sobressalto-me com um toque nas costas, bem perto do ombro.

– Hoje sou eu, amigo. Sábado é amanhã – avisa-me a Sexta-feira, de sobrancelha franzida e olhar arreliado. Como que tentando-me mostrar que não a devo ignorar, que estou a ser injusto para todas as outras semanas em que anseio por ela.

Replico eu, um tanto envergonhado e sorridente.

– Desculpe, quase me esquecia que hoje é feriado, minha querida, Sexta. Recebo-a com um enorme prazer e afago, a mando deste sol que nos ilumina.

– Não tem com o que se desculpar, Ricardo. Apenas queria recordar-lhe que hoje estou diferente, trago-lhe mais descansado. Ainda agora comecei, mas é como se por mais dois me prolongasse.

Assim, iluminados por um sorriso cúmplice e com um abraço sentido, seguimos caminho para o paredão do Furadouro, para enlaçar também o Sábado – que já nos sorria, divertido, ao longe.

Bom feriado, para todos!

PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais detalhes sobre o livro que lançarei, lá para meados de Novembro, basta clicarem neste destacado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)

É incrível

Com este título, garantidamente, pensarão que vou falar de Relvas, da inconstitucionalidade do corte dos subsídios no público, mas não. Fartei-me, desculpem. Sinto que há coisas melhores, para dar uso á minha voz em escrita.

Quero, e vou, falar de pessoas. Quando tanto se critica, tanto se fala mal, surgem átimos de exaltação da beleza humana. Estou a viver e a deparar-me com um. Ando a desenvolver um projecto experimental em que preciso das pessoas, preciso de sentar-me com elas, chegar a elas, tirar algo delas, tudo para mim, dando pouco de volta. E elas, elas estão lá.

Ontem mesmo fui atrás de auxílio, de entrar no íntimo descoberto de cada pessoa, de sorver informações que a mim serão uteis e que a elas não sei. Sentei-me, pedi ajuda, ofereci perguntas e recebi simpatia, sorrisos, disponibilidade e respostas. Obrigado.

Se aqui gosto de criticar as imperfeições, em mim e nos outros, hoje não poderia fazer mais que agradecer. Sou feliz ao perceber a amabilidade das pessoas, nem só do ruim é feito este mundo.

Assim, hoje, sem declames poéticos, escritas prazerosas ou personificações assombrosas gratulo o ser-humano. Nós somos bons, temos algo de mau, claro, mas somos bons.

Abraço

Era um rapaz tímido, de figura bonita. Gostava de passear pela escola, e pela vida, embebido nos seus pensamentos. Curiosamente, livrava-se da chacota a que, por norma, estão sujeitos os mais acanhados. Sofria apenas desse problema de socialização, o isolamento era o seu ornamento.

Tinha um jeito considerável para o desporto, só suplantado pelos seus vastos conhecimentos científicos e literários. As suas grandes paixões, aliás. Todavia, não se sentia, em nada, superior aos demais, como por vezes acontece em pessoas, sobejamente, mais intelectualmente capazes. Era um bom rapaz, que se entregava à timidez. Aproximações femininas, de raparigas seguras, deixavam-no completamente inábil, quando essa aproximação era feita por raparigas também inseguras e até nervosas, o seu nervosismo ainda se multiplicava mais. Pensava, para si, que ficaria sozinho para sempre.

Um dia vagueava pelo mundo que lhe era mais confortável – o virtual, claro – quando encontrou um site, bastante interessante, de troca de livros. Não resistiu a enviar um e-mail:

Bom dia,

Gostei muito do que vi, parabéns!

Queria propor uma troca:

“As travessuras da menina má” e eu dou “Abraço”. Aceitas?

Cumprimentos,

Martim Gonçalo    

Recebeu, prontamente, resposta:

Olá Martim,

Primeiro deixa-me agradecer os parabéns, fico muito lisonjeada, ainda que não sabia o que gostaste, em concreto! Depois deixa-me dizer-te que não sei se serei a melhor pessoa para pedires travessuras, ou se sequer serei má, porque até me considero boa menina. Mas sou uma apreciadora da obra de José Luís Peixoto, por isso aceitaria de bom-grado o Abraço : D

Bjs,

Bia Azevedo

O Martim enganou-se no e-mail. O site de troca de livros tinha nos contactos bioaz@gmail.com, enquanto, ele redigiu biaz@gmail.com. O e-mail da Bia, claro! Rapidamente tentou desculpar-se:

Olá Bia,

As minhas sinceras desculpas. Sinto-me envergonhado!

De forma alguma pretendi insinuar que serias má, ou fazer qualquer alusão a travessuras tuas. Encontrei, sim, um site de troca de livros e enviei um e-mail para tentar arranjar um livro de Mario Vargas Llosa, nobel da literatura, chamado “Travessuras da menina má” dando o meu de JLP à troca. Obviamente, enganei-me no e-mail e coloquei-me nesta situação constrangedora. Mais uma vez, peço desculpa.

PS – Se és uma conhecedora da obra de JLP, permite-me elogiar o teu bom gosto!

Bjs,

Gonçalo Martim

A troca de e-mails foi-se tornando uma constante, bem divertida por sinal. Até que certo dia, Bia propõe que se encontrem para fazer uma troca de livros. Ela tinha comprado o livro de Llosa e queria oferece-lo ao Martim. Ele, hesitante, acabou por aceitar.

Chegou o dia do encontro, finalmente. O Martim foi o primeiro a chegar e aguardava, numa ânsia que só visto, nos jardins do Rádio, junto ao túnel de Ceuta, no Porto. Uma rapariga de cabelos claros, lisos e compridos, rosto delicado e ligeiramente colorido pelo sol, olhos verdes e sorriso simpático, vestindo uma túnica branca e uns calções curtos, dirigiu-se a ele.

– Não pode ser! Isto não me está a acontecer!

– Calma, Martim, não precisas de ficar assim – exclamava a rapariga, como se contasse, de antemão, com aquela reacção.

– Mas tu és uma das raparigas mais famosas do país!

– E então, Martim? Trocamos e-mails e hoje estamos aqui para eu te oferecer um livro, qual é o problema disso?

– Nenhum, mas sei lá. É estranho. Porque que nunca me disseste quem eras?

– Não me pareceu fundamental. Mas queres ir embora?

– Não, claro que não!

– Então relaxa que eu quero oferecer-te algo. Trouxeste o meu Abraço? – perguntava ela com um sorriso malicioso.

Naquele dia, foram embora de mão dada…

As saudades que te guardo

Vivemos histórias loucas, aventuras desmedidas, momentos prazerosos, encontros arrebatadores, caricias susceptíveis…

Em cada segundo de ausência tua, procuro formas de criar-te tão presente, quanto num ensejo nosso: a força do teu abraço torna-se o império do meu pensamento; o calor do teu corpo, o calorífero do meu sopro, do meu suspiro; o doce do teu olhar, o vigor do meu sorriso; a ardência do teu beijo, o aconchego do meu peito; a melodia das tuas palavras, a pauta dos meus sonhos.

A cada porção, de tempo, distantes, mais unidos nos retornamos. A disparidade da lógica é a maior força do amor, do nosso amor. Não chega ver-te, olhar-te, saber que estás lá, apenas legares-me a tua vida e eu oferecer-te a minha me satisfaz. Não esgoto a sede de viver, de amar. Só eu sei o quanto te quero.

Aprendi a sentir, de uma forma que nunca havia sentido. Deixei de ter vitórias minhas, passei a ter conquistas nossas. Deixei de ver tristezas tuas e passei a sentir sofrimentos nossos. Deixei de sorrir por mim, passei a rir por nós. Deixei de ver o sentido na dormência, no sôfrego, passei a vê-lo na partilha.

Não escrevo por ti, escrevo para ti.

Tento compor a saudade em palavras. Confusas? Mal interligadas? Pouco contundentes? É possível, é bem possível, mas se descrever sentimentos fosse fácil, certamente não seria tão bom senti-los.