A salvação do Nestor

No dia em que iam matá-lo, o Nestor acordou sobressaltado.

O tempo estava quente, a própria chuva tépida e o sol a recolher-se numa encosta ao fundo da montanha que pintava a piscina do seu jardim. O Nestor foi para o jardim. Sentia os assassinos a chegarem, as suas vozes as perscrutarem-se por entre as folhas. Os arbustos rangiam.

Olhava para trás e seguia. Sem destino. Sem rumo. Seguia.

E seguir, sem saber para onde, é fugir. O Nestor fugia. As vozes repetiam-lhe que não ia conseguir, que ia falhar. Atormentavam-no. Diziam-lhe: não tentes. O erro é o destino. O sofrimento é o caminho. E ele assustava-se mais e mais.

Corria cada vez mais. Lembrava-se das vezes em que verdadeiramente não conseguiu – e escorregou. Caiu à piscina. Caiu na água como uma folha. Leve. Ele, que pesava mais de 100 quilos e não sabia nadar, caiu na água leve. Era o Nestor a nadar.

Conseguiu. Porque não tentou.

As vozes da nossa cabeça são isto: assassinas. Por isso, quando me perguntam o que é preciso para ser feliz, eu respondo:

– Não querer ser feliz.

Quando queremos ser felizes, empurramos a felicidade à nossa frente como um carro de bois, numa descida, empurra os próprios bois. Passa a ser um objetivo. E os objetivos, quando não são tangíveis, materiais, fogem. Estão sempre a seguir ao ponto onde estamos. Por mais perto que estejam. Assim, ou o objetivo é material ou não é alcançado.

Isso é o que move os génios e inquieta os infelizes. A felicidade é o não procurá-la. É apenas a disposição para viver.

PS – Nesta piscina vivi uma bela festa. Uma viagem sem viajar. Em que criei uma moldura para este texto: a salvação do Nestor.

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Casaco de Pele

Casaco de pelehá uns tempos, pensei voltar a escrever um livro. Começava assim: 

Quero amar esse amor que já não existe. Estou vazio na procura do tanto em que me preenchias. Quero escrever-te rápido nestas linhas, para não perder o embalo do que me outorgavas. Já não eras a mesma, ao menos comigo. Desdizias-te nas palavras, desdizendo-me nos pensamentos, mas sempre segurando essa flor com que caminhas na frente do teu rosto.

Tens uma primavera que nasce em ti, com toda a substância que esta frase acarreta. Precisas de uma fuga e eu, por já ter sido a chegada, tornei-me a melhor partida possível. Vejo-te a atravessar aqueles corredores, a perfumar o olhar de todos os que se cruzam contigo e sinto uma inveja deles que não consigo evitar. Procuro outras mulheres, deito-me na cama delas e não encontro a tua beleza. Ainda não estou preparado para admirar outras belezas que não sejam a tua. É doloroso, rouba-me do recobro do meu comodismo, mas não consigo evitar. São meses em redor desta labuta por desfazer em papéis pequenos o livro do nosso romance.

Pela primeira vez, apagaste as fotos do nosso amor. É o sinal máximo do tanto que eu não queria ver. Sou demasiado romântico para aceitar fins. Também eu já os tinha imaginado e até procurado, mas a beleza do teu olhar a pedir-me o regresso relampeja agora no meu coração como um trovão que destrói um poste. Queria rodar os ponteiros do maldito tempo que me absorveu na ideia errada de que o problema estava em ti. Não fui homem para te confrontar, achando que era homem ao poupar-te. Errei, criei o espaço que agora é inatingível. Eu sou capaz de tudo, tu não és capaz de nada. Estou depressivo. Quero traduzi-lo nestas palavras e fico a temer a saudade que me pode atacar a cada nova linha que escreva. Queria fazer um livro, homenagear assim a saudade que posso perder no decorrer dos anos, mas não creio que seja capaz. Dói muito. Ao cabo de alguns tempos, dói muito. Quedo-me a viver uma ilusão que tu já apagaste. Sei que agora vais partir na lembrança de outras coisas que não tens, mas podes ter. Nós desejamos sempre as mulheres que não temos. Só a ti desejei mais que as imaginações, mas mesmo isso perdeu-se nas instigações do que me consumia. Sou demasiado confuso, sou demasiado amarrado ao passado e demasiado inseguro em relação a mim. Sou tudo o que não quero ser, sendo tanto do que desejo ser. A família é um habitáculo que serve de rescaldo das aventuras que pelo mundo faço. Deixei-te sem resposta. Sei que foi por orgulho, mas deixei. As lembranças são traiçoeiras. Às vezes, não nos trazem à memória o que vivemos, trazem-nos o que queremos sentir com saudades. E, por isso, decidi não responder.

As tuas certezas são verdade até se tornarem mentira. As minhas dúvidas são dúvidas até encontrarem respostas. Será que alguma vez as encontrarei? Não sei, sei que quando criamos a barreira mental do que não queremos e a distância física do que não desejamos viver, conseguimos distinguir o que são sentimentos e vontades. Ganham sempre as vontades, que até vestem um caso de pele de animal, que, mesmo sendo falso, parece mesmo verdadeiro. Será que esse casaco se rompe mais rápido e deixa o real tecido à vista?

Mais uma vez, não sei. Sei apenas que tenho que serpentear esta dor, com todas as maleitas que me ocupam o coração. Nunca fui aquele homem magnificente, que sentia que não necessitava de ninguém, dos momentos em que me enviaste lá para cima. Mas também sei que não sou este homem escuro, dos tempos em que vestes o casaco de pele. Sou uma mistura dos dois, talvez. Mas ainda gostava de te despir esse casaco de pele e sentir a tua verdadeira pele. Talvez aí, nessa amálgama de passado e futuro, os nossos hojes se voltassem a encontrar. Quem sabe. Agora é só vazio e dores, que tento tatuar nestas linhas desfeitas de um texto que já não existe. Como dizia Bernardo Soares: são só fragmentos. Fragmentos soltos, multiplicados pelas saudades, que se baralham entre a verdade e a mentira, entre o certo e o duvidoso, e entre todas as incongruências que mostrámos um ao outro. Somos ambos reféns das mesmas palavras, sem nos apercebermos disso. Eu, porque largo-as a cada hora; tu, porque as guardas nesse cantinho de coração, feito de cabeça. Seriam verdade ou não?

Nem nós podemos saber.

Um casal normal

Um casal normal

Deitaram-se como um casal normal: ele para a esquerda e ela para a direita. Deram um beijinho de boa-noite, disseram que se amavam e partiram para os seus sonhos.

A Dulce não se desligava da matéria que tinha para remediar no dia a seguir, toda presa às frivolidades de umas colegas de trabalho que não lhe faziam a vida fácil. O Nuno, por sua vez, pensava naquela imagem de uma mulher de costas com uma planície à frente. Não se sentia atraído por ela, pois nem a vira, mas não tirava a imagem daquela mulher da cabeça. Era tudo o que ele desejava: uma imensidão. Aquela imensidão, que parece vazia para os vazios e repleta para os repletos, significava tudo o que ele queria. O mundo.

– Oh Dulce, olha lá.

– Diz.

– Esquece.

A Dulce mergulhou novamente nas suas apoquentações: o Gustavinho que estava mal na escola; o marido que lhe dava para aquelas coisas de deixar as frases a meio; a Leonor e a Rosabela que eram da pior rés que ela conhecia. Já sabia que vinha mais um dia daqueles e era quase meia-noite e ela sem dormir. E o Nuno a fazer um barulho que não se aguentava a respirar. Ela sempre a avisá-lo para deixar de fumar e ele sem ligar nenhuma. Quem lhe dera que ele, ao menos, a convidasse para uma viagem. Mas nada.

– Oh Dulce…

– Se é para me mandares calar a seguir ou para dizeres que não é nada, mais vale nem continuares.

– Está bem.

E o Nuno lá ficou a viajar naquela imagem da mulher, de costas, com a planície pela frente. Pensou como seria bom pegar na sua Dulce e fugir uns dias, mas não disse. Ela iria resmungar ou apontar uma série de problemas. Ele estava acabrunhado pela vida na fábrica e preso pelas contingências do dia-a-dia, mas ela era capaz de ter razão. O dinheiro iria fazer falta para outras coisas e o Gustavinho não se andava a portar nada bem. Era melhor calar-se e adormecer, que já era quase meia-noite.

Ao outro dia acordaram, e continuavam a ser um casal normal. Ela estava a pôr a mesa e ele a fazer as torradas. Falaram de como o tempo estava esquisito.

– Agasalha-te, filho, que hoje está para chuva – disse a Dulce.

– É verdade, Gustavo. Faz o que a tua mãe disse – corroborou o Nuno.

Arrancou cada um para o seu lado e deixaram os bilhetes de avião no pensamento. Conheciam-se bem.

O disco do Nick Cave

O disco do Nick CavePassava tantas horas a ouvi-la. Falava de música, abordava grandes livros, tocava assuntos da política ao de leve, discursava sobre tudo. E eu olhava-a, embasbacado como quando a tarde se punha no pátio da fábrica.

Foi assim durante semanas. Ela chegava de manhã, bem antes dos outros, começava a organizar os papelinhos e os slides todos, para nos dar formação. Nunca gostei das formações da empresa, que são sempre chatas. Mas daquela gostava. Ela era entusiasmante a falar – e via-se que sabia do que falava. Aliás, até me custava voltar a casa e saber que não ia ter com quem falar daquelas coisas. Sentia-me aborrecido, só à espera que chegasse o outro dia. Disse à minha mulher que estava a ser mesmo interessante a formação. E ela só estranhou quando passei a dizer todos os dias.

– Se achas que é agora que vais ser doutor estás enganado, isso só te vai dar um diploma para encaixilhares nos caixotes que temos nos arrumos.

Eu nem lhe ligava, ela não sabia como era bom sentir-me mais inteligente. Eu só a ouvia, nas suas saias curtas e nos seus casacos aprumados, mas sentia-me inteligente. Era isso que era especial nela. Fazia-me inteligente, só de ouvi-la.

– Sabe, Adolfo, você é uma óptima companhia.

Dizia-me ela e eu ficava todo contente, com o meu dia feito. Ia tirar boa nota na formação, o meu patrão havia de dar-me os parabéns e a minha mulher nem se aperceber, mas eu ficava contente com aquilo. Com as palavras dela. Na verdade, da formação já nem me lembrava. Era sobre higiene no trabalho, mas eu como sempre calcei luvas nem precisava daquilo. Gostava era das horas de almoço, que ela se sentava ao meu lado e eu ouvia-a a falar de tudo. Música, literatura e política, era o que ela falava mais. E era o que eu gostava mais de ouvir. Ela completava-me.

Mas, um dia, acabou a formação e eu fiquei mais triste. As luvas eu já sabia que tinha que calçar, faltava-me ouvir falar de música, livros e política. Os dias de trabalho amontoavam-se, costumeiros, e as noites em casa também. A minha mulher andava numa formação. Aliás, foi aí que eu recuperei o meu casamento, quando, durante essa formação dela, um dia me chega a casa e diz:

– Temos que pôr um disco de Nick Cave a tocar.

Discussões

DiscussõesComo gostas de ter razão, é incrível. E sedutor.

Seduzo-me pela forma como crias as palavras no ar. Não são sons, são desenhos. Acompanho-as, paulatino e embebecido, a saírem dos teus lábios em direcção a mim. Viro a cara, para recebê-las no rosto, macias ou pungentes. Pensas que sou eu a fugir dos teus argumentos, a resguardar-me da discussão que tanto queres, mas não. Sou eu a transformar os teus argumentos em beijos.

Arrepio-me com os teus argumentos.

São feitos da textura do teu olhar, da pujança que entregas a cada ideia. Vamos no carro, eu a olhar a estrada e a mexer o rádio, a remexer os papéis do porta-luvas, enquanto vociferas. Ficas mais chateada a cada vez que te parece que não ouço nenhuma das tuas palavras. E não. As tuas palavras não são para serem ouvidas, são para serem sentidas.

Com o ar regelado das ruas no inverno, não faz sentido que eu deixe partir as tuas palavras para o ar e as perca. Quero agarrá-las todas, deixá-las baterem no meu rosto, no meu coração, no meu peito, em todo lado. Quero sentir as tuas palavras, por isso te digo para falarmos em casa. Na rua, sinto que vão roubar as tuas palavras e não posso permiti-lo. Quero-as para mim.

Não me calo por não querer saber, confia, silencio-me pela beleza da tua pele a engelhar-se com os nervos, pelas tuas cordas vocais a salientarem-se nesse teu pescoço feito de cetim e pelo esbugalhar dos teus olhos. Depois, é só a luta de apanhar no ar cada uma das tuas palavras. Não quero perder nenhuma. São beijos incríveis.

No teu olhar

No teu olhar

Aonde? Não te encontro em parte nenhuma. Procuro-te e procuro-te, desvanecido como um nuvem, e deparo-me sempre com a tua ausência.

Que saudades da tua voz, do teu tocar, do teu sentir. Não me apetece usar o ‘e’, a lista poderia continuar. Não é o amor que ferve nas entrelinhas do meu coração, é a saudade, a falta que me fazem as pequenas coisas. O olhar. A viagem que sempre fiz pelo teu olhar, os sítios onde me levavas quando me encaravas, as mensagens que me ditavas em silêncio. Uma mulher que olha assim, com o mundo dentro da menina do olho, é uma mulher especial. O cabelo deslizava-te, a pele torneava-se, o mundo acontecia, mas eu estava ali. No teu olhar.

Aquelas palavras curtas, certeiras, que me rompiam como uma aragem que erra por nós adentro. Trémulo, procurava a tua aprovação. Transitava os meus objectivos para ti, liquefazia-me nas minhas ideias, como numa procura infinda por uma resposta tua. Um orgulho, um elogio, sei lá, um beijo. E tu a aconteceres especial em frente a mim, subtil, mergulhada em certezas e incertezas, divagante como uma poeta. E eu a olhar para dentro, para dentro e para dentro. Com tudo a acontecer do lado de fora. O arrepio da pele, o toque do beijo, o aconchego do corpo. Sinto a tua falta nas palavras que não escuto, nos olhares que não vejo e nos ventos que não assomam.

É Outono ou Inverno, o vento sopra, mas é silêncio. Apenas zumbe, não reclama, não elogia, não oferece verdade. O mundo acontece além de nós. No teu olhar.