Qual Carnaval?

Qual Carnaval

Tenho visto este dias, novamente, a percorrer um texto meu sobre o Carnaval, escrito em 2016, que foi reaproveitado ( http://bit.ly/Carnval_Ovar_Ral2016 ). Não me incomoda que tenham cortado o meu nome e reajustado as partes em que falava do meu grupo. É uma falta de respeito, sim, mas o mais importante é que a mensagem chega. Que as pessoas sentem.

E isso é que me enche de orgulho.

Mas este ano está a ser diferente. Estou distante, não irei desfilar e ainda não tive nenhuma verdadeira noite de carnaval, como esta em que os meus “velhotes” me acompanham e espelhamos um sorriso que diz muito do que somos. Foliões.

São tudo decisões. A minha, deste ano, foi ter outros focos. Não por ter menos paixão pelo nosso Carnaval, mas porque a vida assim me pediu. E eu quis.

Mas, garanto-vos, à distância o meu trabalho de RP continua a ser feito, porque “Nunca será fácil para quem é de fora compreendê-lo”. Explico. Explico infindamente o que é o Carnaval de Ovar e toda gente continua sem percebê-lo.

E é isso que me continua a motivar. Enquanto não perceberem, é nosso. E, enquanto for nosso, é o melhor do mundo.

– Qual Carnaval?
– O nosso.

E “Isso é que faz de nós grandes. Os maiores!”

Até já! http://bit.ly/Carnval_Ovar_Ral2016

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Quais são os melhores caminhos para nós?

Os nossos caminhos

Os lineares têm um certo encanto. São a mulher bonita que nos atrai na festa, que enche o olho. Queremos, queremos muito. Estamos dispostos a expor-nos, muito certos que ela nos chamou a atenção, porque nós também chamamos a atenção dela. São caminhos que parecem ter futuro. São donos de uma estabilidade que nos seduz. Queremos. Queremos muito.

Mas assim que o temos, pensamos em tudo o que estamos a perder para tê-lo. Enche-nos o ego. Esvazia-nos a ambição. Foi o caminho mais seguro, agarrado numa leitura de cabeceira que nos diz: luta por quem te valoriza. Mas morre a ambição. É seguro, é querido, é fofinho, mas jamais é ambicioso.

O sucesso é solitário.

E limitamo-nos. Porque não queremos que o sucesso seja dono do nosso futuro. Mas isso é fazer do sucesso culpado de algo que nós é que devíamos dominar. Há muitos caminhos para o mesmo destino. Que apenas fazem com que mudemos o nome ao destino.

Os caminhos são iguais – e completamente diferentes dos homens e mulheres da nossa vida. Não devemos largar o que não nos valoriza, ou ir atrás do que nos valoriza. Devemos ser nós a fazê-los. A construí-los. Pelo que gostamos.

Nem o sucesso é solitário, nem a mulher é só uma zona de conforto. Nós é que somos. E culpamos os caminhos.

Mas eles são só caminhos. Escolhidos por nós. Feitos por nós.

Comunicar não é vaidade. É uma necessidade!

Mujica - A twelve years night

Todos ignoramos o óbvio. É mais fácil viver assim. A nossa atenção, capacidade de memória e motivação é limitada, pelo que necessitamos tomar decisões. Para o que olhar? Ao que prestar atenção?

São tudo perguntas lógicas, que não nos fazemos. Acontecem naturalmente, sem grande esforço de nossa parte. São o que chamamos rotina. E a importância do falar, do comunicar, também é uma dessas coisas que ignoramos?

Sem dúvida que sim.

Damos a comunicação como adquirida. Seja as longas conversas com os nossos amigos, o bom dia à senhora do café que já sabe o que desejamos ou o agradecimento à pessoa que, simpaticamente, nos segura a porta, são coisas banais. Não exigem de nós pensamento, num mundo que vive cada vez mais acelerado. É automático e liberta esforços para outras decisões mais importantes. Invisto no A ou B? Apoio o C ou D? Como ou não como? Vou ao café ou não vou? São tudo decisões importantes, que implicam o bem-estar imediato. O mais importante de todos, quando é a nós mesmos que queremos mimar.

No entanto, o filme “A twelve years night”, que fala da história do fim do fascismo no Uruguai, alertou-me para algo muito mais importante. A comunicação é o nosso estabilizador. Por muito que olhando à ideologia budista, por exemplo, onde o silêncio se apresenta como paz, pareça que o caminho está sempre em nós mesmos, a comunicação com os demais – seja falada, escrita ou por toques na parede, como aconteceu com Mujica e Mauricio Rosencof no Uruguai – é útil para o equilíbrio da nossa mente. Se vivermos apenas na nossa cabeça, silenciando todos os outros sinais, aproximamo-nos do precipício. Deixamos de distinguir o que é real (da vida que acontece no mundo que nos rodeia) e o que é fruto da nossa imaginação e racionalização.

Falar com os outros, partilhar as nossas ideias, não é apenas procurar validação externa. É alimentar a nossa mente, abrir-nos para outros mundos e equilibrar os nossos pensamentos. Colocar-nos em perspectiva. E quem não se coloca em perspetiva morre. Para o mundo, para si e para o futuro.

O Mujica, Rosencorf e Eleuterio Fernandez salvaram-se e ainda bem para nós. Mujica, por exemplo, tornou-se um dos políticos mais admirados no mundo. “O primeiro requisito na política é honestidade intelectual. Sem ela, tudo é inútil!” // “A minha definição de pobre é o que precisa de demasiado. Porque esses que precisam de muito nunca estão satisfeitos” //

BOURDAIN – Cheio de pinta e cheio de razão

Anthony Bourdain

Nunca vi um programa do Bourdain. Pouca coisa li dele. Mas sei, desde logo, que era um dos gajos mais pintas que existe.

Quase 62 anos, tatuagens, cabelo grisalho e muitas viagens pelo mundo. Muitas experiências. Um grande Instagram, Twitter e Facebook. Uma mulher mais jovem. Uma crítica unânime em relação ao seu talento. Um mundo inteiro a admirá-lo.

O que faltava?

Nunca sabemos, mas raramente o externo é o que nos preenche. Apenas disfarça. E nós tendemos a demonstrar incompreensão (talvez porque fique bem e esconda as nossas próprias fragilidades) por estas decisões. Quase 62 anos, uma vida feita e pumba.

Não tem que nos fazer pensar em nada, porque era a vida dele e uma essência, por mais magnífica que fosse, que admirávamos à distância. Contudo deve alertar-nos para algo: porque acontece tanto com as “rock stars”?

O externo preenche sempre o vazio do interno. A droga camufla. E os mais brilhantes são sempre mais frágeis. Precisam ter uma sensibilidade diferente, uma angústia constante, para criar a um nível que para os outros não é possível. Porque para o coração estar presente em tudo o que fazemos, até no mais simples, como sugeria Pessoa, temos que o estar sempre a usar. A abusar dele.

E este talvez seja mais um desses casos, a angústia constante de quem cria sempre para o externo (seja em prato ou livro), para tentar combater o vazio interno. Reconheçam-me, pelo que eu não sou capaz de me reconhecer. Aliviem-me.

“I think the saddest people always try their hardest to make other people happy, because they know what it’s like to feel absolutely worthless and they don’t want anyone else to feel like that”. Foi o próprio que o disse. Cheio de pinta, cheio de razão.

Não juntes dinheiro

não juntes dinheiro

Bayona, Espanha

Junta amigos, uma praia e uma cidade desconhecida. Traz à memória histórias de infância, adolescência e cria novas. Vive.

Faz felizes os de quem gostas e sê feliz. Muito feliz. A felicidade é paz. Saber que foste, saber que viveste. Acontecer. Não importa se é bom, se é mau ou desenxabido. Importa é que tenha acontecido. Que o mar tenha beijado a costa. Que a garrafa tenha sido esvaziada e que a vida tenha acontecido. A vida acontecer é ser feliz.

E o dinheiro não paga isso. Mesmo que faça falta para outras coisas.

A morte dá respostas à vida. Viaja!

A morte dá respostas à vida

(photo: @mickeyoneil)

Pessoas próximas, que não conhecemos tão bem assim, fogem-nos. Desaparecem num infinito que gostamos de imaginar como mar, o céu ou a terra. Mas não conhecemos. Sabemos apenas que é infinito.

Essa noção de distância inalcançável assusta-nos, tira-nos o chão forte para ser pisado e coloca-nos à procura de respostas, da costa. Não para a partida de quem foi, mas para o significado da nossa permanência. Misturamos o medo, o desespero e a esperança. É estranho, mas é assim. A esperança nasce, quase sempre, da ausência limite de esperança ou explicação.

A vida é curta.

É assim que elas nos aparece quando a ausência de sentido para as partidas assoma. Fugimos do medo, gradualmente, para nos aproximarmos da vida. Por isso, que, a partida de alguém tão próximo e jovem, seja sempre a abertura para algo novo. Uma nova nau que parte para a turbulência que é vida, mesmo quando o mar está calmo.

Porque, assim, a morte responde à vida – ou a vida dá resposta à morte. E essa é – e deve ser – a nossa homenagem para todos os que vão, mesmo os mais jovens. Um dia encontramo-nos todos. Na festa do costume.

Ontem punha-me um gosto num texto a brincar. Hoje não está entre nós. Descansa em paz, Paiva! E um abraço a todos os grandes amigos, família e meros conhecidos como eu, que se emocionam com estas coisas. A vida é curta e o descanso é eterno. No meio está o que podemos aproveitar. A viagem.

 

A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.