BOURDAIN – Cheio de pinta e cheio de razão

Anthony Bourdain

Nunca vi um programa do Bourdain. Pouca coisa li dele. Mas sei, desde logo, que era um dos gajos mais pintas que existe.

Quase 62 anos, tatuagens, cabelo grisalho e muitas viagens pelo mundo. Muitas experiências. Um grande Instagram, Twitter e Facebook. Uma mulher mais jovem. Uma crítica unânime em relação ao seu talento. Um mundo inteiro a admirá-lo.

O que faltava?

Nunca sabemos, mas raramente o externo é o que nos preenche. Apenas disfarça. E nós tendemos a demonstrar incompreensão (talvez porque fique bem e esconda as nossas próprias fragilidades) por estas decisões. Quase 62 anos, uma vida feita e pumba.

Não tem que nos fazer pensar em nada, porque era a vida dele e uma essência, por mais magnífica que fosse, que admirávamos à distância. Contudo deve alertar-nos para algo: porque acontece tanto com as “rock stars”?

O externo preenche sempre o vazio do interno. A droga camufla. E os mais brilhantes são sempre mais frágeis. Precisam ter uma sensibilidade diferente, uma angústia constante, para criar a um nível que para os outros não é possível. Porque para o coração estar presente em tudo o que fazemos, até no mais simples, como sugeria Pessoa, temos que o estar sempre a usar. A abusar dele.

E este talvez seja mais um desses casos, a angústia constante de quem cria sempre para o externo (seja em prato ou livro), para tentar combater o vazio interno. Reconheçam-me, pelo que eu não sou capaz de me reconhecer. Aliviem-me.

“I think the saddest people always try their hardest to make other people happy, because they know what it’s like to feel absolutely worthless and they don’t want anyone else to feel like that”. Foi o próprio que o disse. Cheio de pinta, cheio de razão.

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Não juntes dinheiro

não juntes dinheiro

Bayona, Espanha

Junta amigos, uma praia e uma cidade desconhecida. Traz à memória histórias de infância, adolescência e cria novas. Vive.

Faz felizes os de quem gostas e sê feliz. Muito feliz. A felicidade é paz. Saber que foste, saber que viveste. Acontecer. Não importa se é bom, se é mau ou desenxabido. Importa é que tenha acontecido. Que o mar tenha beijado a costa. Que a garrafa tenha sido esvaziada e que a vida tenha acontecido. A vida acontecer é ser feliz.

E o dinheiro não paga isso. Mesmo que faça falta para outras coisas.

A morte dá respostas à vida. Viaja!

A morte dá respostas à vida

(photo: @mickeyoneil)

Pessoas próximas, que não conhecemos tão bem assim, fogem-nos. Desaparecem num infinito que gostamos de imaginar como mar, o céu ou a terra. Mas não conhecemos. Sabemos apenas que é infinito.

Essa noção de distância inalcançável assusta-nos, tira-nos o chão forte para ser pisado e coloca-nos à procura de respostas, da costa. Não para a partida de quem foi, mas para o significado da nossa permanência. Misturamos o medo, o desespero e a esperança. É estranho, mas é assim. A esperança nasce, quase sempre, da ausência limite de esperança ou explicação.

A vida é curta.

É assim que elas nos aparece quando a ausência de sentido para as partidas assoma. Fugimos do medo, gradualmente, para nos aproximarmos da vida. Por isso, que, a partida de alguém tão próximo e jovem, seja sempre a abertura para algo novo. Uma nova nau que parte para a turbulência que é vida, mesmo quando o mar está calmo.

Porque, assim, a morte responde à vida – ou a vida dá resposta à morte. E essa é – e deve ser – a nossa homenagem para todos os que vão, mesmo os mais jovens. Um dia encontramo-nos todos. Na festa do costume.

Ontem punha-me um gosto num texto a brincar. Hoje não está entre nós. Descansa em paz, Paiva! E um abraço a todos os grandes amigos, família e meros conhecidos como eu, que se emocionam com estas coisas. A vida é curta e o descanso é eterno. No meio está o que podemos aproveitar. A viagem.

 

A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.

A praia como perfeita metáfora da vida.

Por do Sol
Passamos os dias à procura do melhor ângulo para mirar as coisas, a revezar artigos da internet que nos ensinem a viver momentos que ainda são novos para nós e acabamos a fugir do que é inevitável:
vivermos por nós!

Portanto, a praia é a metáfora perfeita da vida:
quando procurarmos o melhor ângulo para olhar as coisas, lembremo-nos que ele é quase sempre de frente. E se puder ter o sol e o mar nesse ângulo, com um jarro de sangria ao lado, que se celebre.

A vida vive-se de frente e o amor pelo mar celebra-se de frente para ele. A deixar o sol beijá-lo, como nós queremos beijar a vida. Mesmo quando nos escondemos dela, em procura de melhores soluções, para o que nós tememos não ter resposta. O incerto!

A Liberdade

A liberdade pode ser muitas coisas. Há presos livres e cidadãos sem cadastro acorrentados.

Liberdade não é só o prazer de opinar, é a força de sentir desde dentro que somos livres. Nenhum de nós o é totalmente, creio. Mas isso não diminui a conquista que foram os cravos. Diz-nos só que a sociedade deve ser moderada ao ponto de nos ajustarmos ao meio onde vivemos. Mas termos um meio onde vivemos, podermos escolher se é este ou aquele, é uma conquista. É essa a conquista que devemos celebrar.

Tenho família na Venezuela e vejo, diariamente, que o líder da oposição está preso, que outro opositor está impedido de exercer cargos públicos por 15 anos, que somos apoiantes de Maduro ou dos outros e que os outros devem ser abatidos. É esta distância tão longínqua para o que é os nossos dias que não nos faz perceber a conquista que foi o 25 de Abril. Claro que podemos concordar mais ou menos com o que foram os percursos dos homens que fizeram a revolução, duvidar mais ou menos de quais foram as suas intenções com essa revolução, mas não podemos esquecer nunca: se duvidamos, se estamos a ter a liberdade de pensar por nós e opinar em relação a isso, sem que tenhamos que fugir para outros países ou ser presos por isso, devemo-lo a essas pessoas.

E eu valorizo isso. Mas ainda não sou livre: serei no dia que souber que uma parte da minha família também poderá ter essa fortuna, sem ter que abandonar um país que os acolheu e onde construíram a sua história sem ter que abdicar de tudo para poder dizer: o Maduro é uma merda. Eu posso, mas não é a mesma coisa. Eles também deviam poder. E merecem.

Viva a Liberdade!

Venezuela – A beleza natural que está escondida no terror

Venezuela

                                                                           Isla Coche

Dá para imaginar a beleza deste sítio?

Pois, mas a natural está subvertida à das pessoas sem escrúpulos. É verdade que o daesh nos rouba a atenção de tudo quanto é macabro, tenebroso, mas o tipo de terrorismo destas pessoas que mudam as leis para se manter no poder, eliminando a concorrência e silenciando a população com fome e tiros de polícia militar, que vai de miúdos de 12 e 13 anos até homens de 60, que não têm, igualmente, escolha também é assustador.

Nunca visitei a Venezuela, mas tenho um lado da família oriundo de lá (inclusive a minha mãe) pelo que me custa horrores ver um país destruir-se às mãos de um inculto. Porque este Maduro é a prova de que a ignorância é, e será sempre, das armas mais perigosas. Apenas podendo ser equiparada à inteligência, no caso do Chavez, que foi quem com um rumo muito bem definido e pensado permitiu que este homem aqui chegasse.

Ele era inteligente, assustadoramente inteligente, como são todos os grandes ditadores, por isso escolheu como braço direito um mero executante. Que agora, no poder, não consegue perceber qual era o rumo que o Chavez queria, apenas se lembra que se contrariam é para silenciar. E assim se silencia um povo. Porque os disparos, as armas, podem fazer muito barulho, mas o terror e a destruição trazem sempre um silêncio ensurdecedor. É pena. Um país lindo de pessoas lindas.