Olhar o mar, apreciá-lo e… Fazer ou pensar?

Mar - pensar ou fazer

É uma pergunta que me assola muitas vezes. Nós somos o que fazemos, não o que pensamos. Mas se fazemos sem pensar, também não estaremos a ser demasiado vazios?

É complicado, isto de ser existencial. Viver para experimentar. Pensar para compreender. Tudo está agarrado a algo, como se vida fosse um ventríloquo. Os braços do pensamento dão voz à existência. E ela acontece fora do nosso alcance. Desprevenida, descontraída e impossível de prever. Como tem que ser.
Mas, depois, porra. Não basta ser. É preciso parecer. Fazer!

Mais do que ser, fazer. Porque o fazer é que nos faz ser. A prova disso? Pensei muito em mergulhar, mas só depois de mergulhar me senti livre. Molhado. Feliz. A viver.

O pensamento é um subterfúgio do não fazer. Pára. Estanca. Pensa. E, se pensas, não fazes. Portanto, fazer sem pensar não é o ideal. Mas é melhor que não fazer. Dá aprendizagem, crescimento. Faz pensar. E o bom do fazer é isso:

Permite pensar com conteúdo.

Portanto, mergulhei. E, depois, pensei: está fria. Se tivesse pensado antes, o frio já me estaria a alarmar antes de o sentir. E o que pensamos antes de sentir não é accionável. Não é controlável. É só dor.

E o frio depois do mergulho foi, afinal, o alívio do calor. Tão bom.

#MaisUmaViagemSemViajar

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Não juntes dinheiro

não juntes dinheiro

Bayona, Espanha

Junta amigos, uma praia e uma cidade desconhecida. Traz à memória histórias de infância, adolescência e cria novas. Vive.

Faz felizes os de quem gostas e sê feliz. Muito feliz. A felicidade é paz. Saber que foste, saber que viveste. Acontecer. Não importa se é bom, se é mau ou desenxabido. Importa é que tenha acontecido. Que o mar tenha beijado a costa. Que a garrafa tenha sido esvaziada e que a vida tenha acontecido. A vida acontecer é ser feliz.

E o dinheiro não paga isso. Mesmo que faça falta para outras coisas.

A morte dá respostas à vida. Viaja!

A morte dá respostas à vida

(photo: @mickeyoneil)

Pessoas próximas, que não conhecemos tão bem assim, fogem-nos. Desaparecem num infinito que gostamos de imaginar como mar, o céu ou a terra. Mas não conhecemos. Sabemos apenas que é infinito.

Essa noção de distância inalcançável assusta-nos, tira-nos o chão forte para ser pisado e coloca-nos à procura de respostas, da costa. Não para a partida de quem foi, mas para o significado da nossa permanência. Misturamos o medo, o desespero e a esperança. É estranho, mas é assim. A esperança nasce, quase sempre, da ausência limite de esperança ou explicação.

A vida é curta.

É assim que elas nos aparece quando a ausência de sentido para as partidas assoma. Fugimos do medo, gradualmente, para nos aproximarmos da vida. Por isso, que, a partida de alguém tão próximo e jovem, seja sempre a abertura para algo novo. Uma nova nau que parte para a turbulência que é vida, mesmo quando o mar está calmo.

Porque, assim, a morte responde à vida – ou a vida dá resposta à morte. E essa é – e deve ser – a nossa homenagem para todos os que vão, mesmo os mais jovens. Um dia encontramo-nos todos. Na festa do costume.

Ontem punha-me um gosto num texto a brincar. Hoje não está entre nós. Descansa em paz, Paiva! E um abraço a todos os grandes amigos, família e meros conhecidos como eu, que se emocionam com estas coisas. A vida é curta e o descanso é eterno. No meio está o que podemos aproveitar. A viagem.

 

A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.

Qual destino?

Destino Douro

Quando não controlamos o rumo dos acontecimentos, o vento bate nas nossas convicções – como uma rajada que abana as velas vindo de estibordo – e obriga-nos a seguir outros rumos. Como desculpa, dizemos:

É o destino.

Quando as coisas se compõem, o cosmos une-se para nos acender uma luz no caminho e dizer: é por ali. Não hesitamos:

É mérito.

Mas a vida não é uma linha recta. Tem curvas, oscilações e marés. Como o Douro. Faz encostas e vales. No entanto, o segredo é sabermos que se olharmos só para uma encosta é uma montanha para subirmos. Se olharmos só para uma oscilação do terreno é uma barreira para o destino. Se olharmos só para as marés são um perigo. Mas se olharmos para a paisagem é uma das zonas mais belas do mundo.

O destino é uma farsa para o que não conseguimos controlar. Mas a maior lição dele é: quem conduz, se souber que o leme é para andar solto, apreciará muito mais a viagem. As oscilações são a viagem. O conjunto das montanhas, vales e marés são o destino. O que não guiamos, mas fazemos.

Leme solto e curvas a serem aproveitadas. Este é o segredo da maior viagem sem viajar que podemos fazer. A da vida.

A salvação do Nestor

No dia em que iam matá-lo, o Nestor acordou sobressaltado.

O tempo estava quente, a própria chuva tépida e o sol a recolher-se numa encosta ao fundo da montanha que pintava a piscina do seu jardim. O Nestor foi para o jardim. Sentia os assassinos a chegarem, as suas vozes as perscrutarem-se por entre as folhas. Os arbustos rangiam.

Olhava para trás e seguia. Sem destino. Sem rumo. Seguia.

E seguir, sem saber para onde, é fugir. O Nestor fugia. As vozes repetiam-lhe que não ia conseguir, que ia falhar. Atormentavam-no. Diziam-lhe: não tentes. O erro é o destino. O sofrimento é o caminho. E ele assustava-se mais e mais.

Corria cada vez mais. Lembrava-se das vezes em que verdadeiramente não conseguiu – e escorregou. Caiu à piscina. Caiu na água como uma folha. Leve. Ele, que pesava mais de 100 quilos e não sabia nadar, caiu na água leve. Era o Nestor a nadar.

Conseguiu. Porque não tentou.

As vozes da nossa cabeça são isto: assassinas. Por isso, quando me perguntam o que é preciso para ser feliz, eu respondo:

– Não querer ser feliz.

Quando queremos ser felizes, empurramos a felicidade à nossa frente como um carro de bois, numa descida, empurra os próprios bois. Passa a ser um objetivo. E os objetivos, quando não são tangíveis, materiais, fogem. Estão sempre a seguir ao ponto onde estamos. Por mais perto que estejam. Assim, ou o objetivo é material ou não é alcançado.

Isso é o que move os génios e inquieta os infelizes. A felicidade é o não procurá-la. É apenas a disposição para viver.

PS – Nesta piscina vivi uma bela festa. Uma viagem sem viajar. Em que criei uma moldura para este texto: a salvação do Nestor.

A infância é uma farsa

Infância POrtoPrepara-nos para uma vida que não existe.

Ainda em miúdo, preparava os alicerces da minha vida adulta com um certo adubo de malandragem, a plantar sorrisos em todas as casas de família, ou de amigos dos meus pais, onde passava. Todos me diziam que sim, me acenavam com primaveras no rosto e verões no entusiasmo. Homens e mulheres.

Hoje em dia, já depois de adulto, para colher um sorriso mais rasgado, uma plantação de benevolências, não raras vezes temos que compor sonetos, sermos melhores do que somos e mentirmos. Falarmos da infância sem nos lembrarmos.

As recordações de infância são uma falsidade, não existem. Conforme defendia o Miguel Torga, a infância, para ser infância, tem que ser ingénua. E a ingenuidade não tem consciência. Portanto, hoje, o que referimos como recordações de infância são projecções da pessoa que somos, na criança que um dia fomos.

Mentimos. A infância não tem corpo. É um falsidade.

Projectamos nela o que queremos hoje. Por exemplo, para mim, em criança, ir ao Porto, onde hoje andei de manhã, era sinal que eu era um fixe. Que os meus pais eram uns fixes. Tiravam-me da pequena e humilde cidade que é Ovar, para me levarem ao Porto, que passa – e passava – nos telejornais, onde as pessoas são grandes e até as televisões estão. Era fixe. Era um refúgio.

E isto é a prova que as recordações de infância são uma falsidade. A palavra refúgio surge-me na memória por ilusão óptica. Porque olho para as cidades grandes, hoje, e vejo refúgios. Sou oculto. Sou desconhecido. Sou neutro.

Posso perder-me e sentir-me refugiado. E esse é o segredo das viagens sem viajar: partir sem saber o que encontrar. Romper com a infância lembrada e criar uma nova. Esta é a infância que eu quero. A de agora. A de antes é uma farsa.