Dia dos avós

1 – Tinha pouco mais que três anos, quando ela me gritou: “Como é que foste capaz, Ricardo?”, sem conseguir esconder um sorriso que lhe fugia pela cara, nos olhos, nas covinhas e nos lábios. Criava galinhas (três ou quatro) e eu despejei um saco inteiro de milho. 5 Kg, salvo erro. Era a minha bisavó. Ajudou a que eu fosse criado com um sorriso até perto dos meus cinco anos. Depois que partiu, fui incapaz de entrar em funerais até à idade adulta.

2 – Estava emigrado, via-o pouco. Não era um santo, mas também não era um mau homem. Levava-nos sempre aos melhores restaurantes. Não por serem os mais caros, mas porque todos gostavam de nós. A comida era só o tempero, o resto é que era o valor. Acompanhei-o nos últimos tempos, no último dia, nos últimos minutos. Era o meu avô da Venezuela. Materno.

3 – Era ruim, gritava muito, desdizia-se a cada frase, mas bastava um neto levantar o olhar, que tudo mudava. Não era a voz, era o olhar. Apenas aparecer. Talvez eu devesse ter aparecido mais. Nem sempre a vida deixa, mas devia. Não porque fosse melhor pessoa por isso, mas talvez porque ela ficasse mais calma por isso. Partiu há pouco tempo e deixa a saudade de saber que podia ter vivido mais. Não em anos, em momentos. Mas os nervos domavam-na. Foi assim quase toda a vida. Ainda que tivesse abraços, raros, especiais.

4 – Está vivo, com o seu aspecto galã. Calmo, apaziguador e de opiniões vincadas. É o meu avô paterno.

5 – Sempre bem-disposta e com um ar optimista que contagia. Não precisa de muitas palavras para mostrar que a família é tudo. Do mais novo ao mais velho, todos tratados da mesma forma. É a minha avó paterna.

Passou o dia e não liguei a ninguém. Deixo as frases dos que estão vivos mais curtas, para que as possa dizer pessoalmente. Não porque duvide do que sinto, não porque ache que sou má pessoa por ser desligado ou sempre com muitas coisas para fazer, apenas porque o quero fazer. Mas o que me dói é não ter ligado ao meu pequeno, que perdeu a avó há pouco tempo e não lhe via a maldade que a idade adulta teima em mostrar. Apenas a beleza do abraço que eu sei o que fazia sentir. Não esqueci. Os netos são sempre os netos, mas só porque os avós existem. Hoje é o dia deles e esta é a minha homenagem. Não é um texto que resolve a ausência de chamadas, mas é um texto que mostra que não ficaram esquecidos. Um beijo, avós. Todos. Vivos e não. E um beijo meu pequenito, que és maior que a idade que tens. Muito maior. E sabes amar o amor como os adultos não sabem. Ou não se lembram. És lindo!

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